Sobre a esperança.

Indiscutivelmente, eu precisava vir até aqui e me manifestar sobre o tal do hoje. É apenas uma impressão ou temos sido, de fato, sufocados por uma epidemia de falta de fé aparentemente irreversível? Irônico, até mesmo essa frase foi afetada. Nada é irreversível. Nem mesmo aquela palavra com ortografia errada no meio do seu trabalho.

Alguns culpam o consumo, o capitalismo, a ambição, a natureza humana, enquanto outros não buscam culpados e sim formas de espalhar essa doença. Desacreditar, meus caros, é o primeiro passo para sermos dominados. Desacreditar, é o último passo para dentro de nossas covas. Diante desses dois grupos anteriormente citados, fico com o terceiro. Eu prefiro notar que esse caminho vai para um precipício e tentar desviar o trem. Meu pensamento é infantil, bobo, digno de uma criança de cinco anos, mas será que essa não seria a resposta? Sermos esvaziados de tanta podridão adquirida com o passar do tempo e nos permitirmos enxergar o mundo com os olhos de uma criança?

Não, nunca tive a pretensão de afirmar que a solução seria nos despirmos de nossos aprendizados. Entretanto, não seria uma má ideia apoiarmos uma descomplicação, ou uma abertura de possibilidades. Já notaram como crianças sempre tem um plano B? Elas dificilmente tiram algo de suas mentes quando querem, mas inventam milhares de formas de chegarem até ele. A realidade é que hoje só enxergamos aquilo que está na esquina. Não importa a rua, ou a esquina em paralelo, nós temos uma visão tão fixa que chega a dar uma leve dor de cabeça.

Eu não me refiro apenas à confusão estabelecida na política, na economia, no estilo de vida do brasileiro. Realmente, esses pontos são os que me frearam, mas nada como um acontecimento isolado em nossa rotina para bater o martelo. Não quero pregar algo que deverá ser levado como verdade absoluta, mas hoje matamos sonhos alheios sem perceber. Deixamos nossos sentimentos em relação ao mundo afetar os de outros. Isso é justo? Pergunto-me quantos tentaram parar Einstein, Drummond, Caetano, quantos tentaram impedir seus pais de terem chegado onde estão? Me refiro à uma geração antes da sua propositalmente, afinal, saiba que sem ela você não estaria aí.

Não deixe a fé ser taxada de burra ou nula. Não deixe que outras pessoas forrem seus pensamentos, sentimentos, impressões sobre o mundo. Na realidade, apenas reflita, até onde a esperança te levou? Eu me ocupei disso o suficiente para uma das conclusões mais sinceras da minha vida: sem ela, eu não teria feito absolutamente nada desde… 2005. Quando a ficha real caiu, sobre o mundo em que vivemos, foi difícil levar a bola até a área. Foi difícil crer em um gol meu quando aprendi em sala de aula sobre como a hipocrisia no fundo corrói tudo e todos. Entretanto, em pequenos pontos e olhares, eu achei que tudo um dia faria sentido.

Se a dificuldade imposta nos 90 minutos é essa, a de vencer a hipocrisia e a tendência humana de fazer tudo errado, eu entendo completamente. Você não? A grande esperança não pode morrer, pois sem ela não haverá jogo. A bola nem mesmo será apitada. Se caminharmos ainda mais para esse precipício, nossa vida se baseará em trabalhar para trabalhar e fazer outros trabalharem.

Não critico o trabalho, a ambição, mas sim a falta de pensamentos saudáveis. A tal falta de coração. Porque no fundo, quando enxergamos tudo como uma fábrica e não como um jogo, somos sugados e ficamos subnutridos. Esqueléticos, apenas obedecendo e nunca saindo desses mecanismos fatais. Honestamente, hoje enxergo adultos que tem tudo, outros que tem nada e uma semelhança assustadora entre eles: uma alma fraca e esquecida.

Não permitam, de forma alguma, que te deixem olhar apenas para a esquina. Tenham um plano B. Tenham uma visão além do alcance. Tenham esperança.

Isso é um jogo, você pode ganhar. Não é apenas pelos vinte centavos por dia dessa fábrica inventada por nossos próprios fantasmas.

O discurso de Jane.

Eu tive um sonho e gostaria de compartilhá-lo. Sonhei com um enterro, onde uma moça bem velhinha discursava em um altar, acho que em uma igreja… Enfim, ela estava falando e as palavras me marcaram, mesmo em sonho. Dei o nome de Jane, por motivos pessoais. Não sei o que significa sonhar com determinadas coisas, mas sei que eu adoro uma história de amor e não poderia não digitá-la.

Segue o discurso, fofo, que foi pintado em minha mente:

“Nós corremos tanto! De nós, do tempo, da vida. Nós corremos sem freios. E depois de 56 anos, nós nos reencontramos na mesma confeitaria em que nos conhecemos. Seu rosto estava tão compatível com minhas lembranças, seu novo penteado se encaixava com meus novos e assumidos fios brancos. Éramos tão parecidos com um quebra cabeça que até mesmo sua tristeza combinava com a minha. Li teus olhos durante os breves minutos em que nos fitamos, foi a leitura mais difícil que fiz em toda a minha vida. Não pela dificuldade em faze-lo e sim por tudo que pesquei em suas íris. Arrependimento, dor, saudade e amor. Pude, nesse minuto, sentir meu coração bater mais forte e retomar meus 14 anos, nós éramos os melhores amigos mais ligados do universo, e o casal mais bonito do baile.

Naquele dia, você pediu permissão para sentar em minha mesa da mesma forma como pediu para sentar ao meu lado durante as aulas de história. Foi o melhor momento da minha vida até a data vivida. Nós retomamos nossa última conversa, aquela que ficou para o dia seguinte, ali mesmo. De conversa em conversa, no mês seguinte nos casamos. Nossa lua de mel, diferente da convencional, foi a melhor vivida nesse mundo. Nunca esquecerei como Paris nos transportou, como Roma nos conectou e Florença nos tornou sublimes. Eu fui a idosa mais feliz da face da terra, até hoje. Foram cinco anos e seis meses de um amor inacreditável, digno de filmes e livros. Foi a melhor vida que eu sonhei ter um dia. Nós nos apaixonamos há tanto tempo e nosso amor foi algo excepcional. Foram anos de cartas enviadas e não recebidas, ou nem mesmo enviadas. Foram anos de solidão, onde somente a saudade curava. Foram anos que fizeram um completo sentido quando nos vimos naquela tarde. Eu vivi para você, você viveu para mim e como dois românticos incuráveis… Tivemos nosso prêmio. Cinquenta anos em cinco, JK ficaria orgulhoso. A dificuldade de entender porque nós não nos casamos aos 16 faz um completo sentido, visto que eu não me ocupei em contar da parte amarga de nós dois. Teimosos, porém sonhadores, vivemos no singular porque forças externas nos impediram de ficar juntos quando nossa hora estava em cena. Isso não é novidade, na verdade é um clichê forçado, confirmando, infelizmente, o gosto de nossos pais pelo tradicional. Entretanto, também tivemos culpa. Você era um medroso, eu mal tinha certeza sobre meu nome. Não arriscamos. Como consequência, vivemos uma vida inteira solteiros. Suportamos as fases difíceis, de imaginar como seriam nossos filhos, nossa rotina matrimonial, nossos planos se cruzando. Nós até mesmo crescemos em países diferentes! Sua mãe devia mesmo me odiar, afinal ela preferiu te visitar na Suécia do que perto de mim. Entretanto, nosso último encontro na flor da juventude aquece meu coração até mesmo hoje. Talvez essa noite seja o motivo da viagem, mas não sinto nem mesmo uma gota de arrependimento. Poderíamos ter sido mais discretos, inteligentes, mas será? Como eu já disse, fez um completo sentido ter ficado tanto tempo sozinha, mesmo depois de ter perdido seu endereço, para em seguida te reencontrar e entender que nosso amor foi mais forte do que o acaso. Nem mesmo todos as pernas de saias te fizeram me esquecer, assim como todos os engravatados passaram reto em minha casa. Já sinto saudades até de ontem, ríamos coincidentemente sobre a quantidade de carta de admiradoras e admiradores que recebemos ao longo dos 25, 26 anos. Sorrio, sim, ao ter certeza de que se mesmo hoje ninguém teria chance para viver entre nós, imagine naquela época? Onde nossa chama vivia constantemente ardente, mesmo em pensamento. 

Somos esquisitos, meu caro. Somos uma exceção. Você é minha única exceção. Graças a Deus falo tanto que sem dúvidas é a terceira, quarta vez que discurso e cito tudo isso, pois não há dor maior do que palavras engasgadas. E hoje, essas ficariam, pois você já não pode escutá-las. Meus amigos e parentes, muito emocionados pelo que vejo, fazem-me menos sozinha e mereciam ouvir essa declaração por uma primeira e última vez. Agora, sozinha de verdade, saí da bolha e compartilhei nosso amor. Espero que inspire-me. Ou inspire alguém. Apesar dessa saudade arder, sinto que preciso ser sincera ao expressar minha calma sobre onde e como você está. Porque, meu amor, você já provou antes… Seja na terra, no céu ou no mar, você sempre irá me esperar e me amar.”

Se sentia um pouco mais humano, longe de toda aquela humanidade.

Um pouquinho mais longe, um pouquinho mais perto. Um pouco mais como eu sempre quis, um pouco mais como eu descobri que tem que ser. A gente vive de pouco em pouquinho, a gente vive de canto em cantinho. E por incrível que pareça, a gente se esquece da gente nos cantinhos mais inesquecíveis. A gente anda por aí se deixando e recolhendo o que acha, dançando com o vento e esquecendo que ele é só o ar em movimento. A gente se esquece que não é porque entram coisas novas, que as velhas tem que sair. O melhor dançarino não deixou de ser ar. Ele pode carregar folhas, pode te carregar e até mesmo trazer aquela poeira chata que machuca os olhos, mas ele não deixa de ser o velho e bom ar.

E eu tenho sérios problemas com contato, com amizades, com sociabilidade. Tenho dificuldades em deixar algumas pessoas entrarem, mas a regra não vale pra tanta gente… Afinal, olho pro meu jardim e só encontro gente linda que eu nem notei quando sentaram à mesa e decidiram não me abandonar nem por um decreto. Acho até boa, de um certo modo, tal dificuldade. Se quando entram não saem mais, de repente vem desse ponto minha liberdade para viajar durante um tempo e sumir da vista de todos. Sumir da vista da humanidade e me sentir humana em meus próprios cantos, onde por vezes me jogo e fico. Saio de lá outra pessoa, até lembrar que não dá pra ir me esquecendo por aí, afinal, nasci para ser vento e ar. Nasci para arriscar não ser nem um, nem o outro, mas os dois. O mais difícil, sem dúvidas, é pensar que posso destruir casas e ao mesmo tempo levar o refresco para uma senhorinha que trabalhou durante o dia inteiro e que agora repousa em sua varanda quente onde bate o sol quente e tão parecido comigo. O sol que mata, mas o sol que esquenta as regiões mais frias do mundo. Conotativamente, denotativamente, tanto faz. Já me perdi nestes sentidos há uns 5 anos, não pela semântica e sim por não entender porque usamos só um para a vida real. Na minha, uso os dois. Uso o sentido denotativo em uma vida conotativa e vice versa. Nasci pra ser vento que vai para faculdade. Nasci para ser realidade no sonho. As vezes, admito, me pergunto se realmente nasci. Pego-me duvidando da verdade do mundo, deitada em minhas próprias convicções que perdem meu voto de confiança durante vários momentos no dia. Entretanto, vou dormir. Vou dormir e esqueço, descanso, recarrego.Acordo dando bom dia, sim, para meus cachorros invisíveis, para o sol, para as paredes e para minhas velhas e novas convicções. Uma mais intensa e forte que a outra, até o almoço. Isso me soa humano, isso me soa pensar. Isso me soa, acima de tudo, sentir. Eu digo e repito, o ser humano é antes de tudo um ser que sente. Pensar, muito bicho por aí pensa e depois comete atrocidades baseando-se em pensamentos lógicos e impecáveis. Sentir, a minoria sabe o que é. Desses, 50% consegue entender e desafiam-se a querer. Porque pensar todos acham bonito, mas sentir… Sentir é cafona, dá trabalho e definitivamente tira muito mais corpos da zona de conforto do que um pensamento leve e racional. Digo e repito: Sinto, logo sou.

Shake it out!

Sobre ser forte.

Eu sei como é querer fugir de todas as responsabilidades e expectativas alheias, mas nunca achei que isso pudesse ser tão forte como realmente é. Nós, mulheres, temos a triste mania de apelidar tudo de TPM… Só que isso é uma verdadeira ingenuidade. A simples poluição sonora já causa estresse e dificuldade de lidar com situações difíceis, imagina as outras milhões de coisas facilmente acrescentadas? A questão é que temos que parar de achar que as coisas são o que são. Parece TPM? A chance de não ser é enorme. Sim, é difícil catar motivos… Mas, sem isso eu não teria chegado aqui.
Se eu ousasse culpar somente os hormônios por estar chata, estressada e com uma crise enorme para lidar com esse mundo retratado como inseguro e cruel, eu não estaria mais respirando. Teria explodido, juro. É como se você cortasse o fio errado, porque ao invés de buscar uma solução, eu apenas esperaria. O que resolve TPM? Chocolate? Mito no meu caso, já que sou toda ruim do estômago.
Entretanto, parei para pensar e visualizei minha situação no contexto geral. Desenhei mentalmente o que poderia estar me sugando, me tirando todas as forças e deu certo. Entendi que, de todos os problemas, o possível estresse feminino era o menorzinho.
As expectativas alheias, e até mesmo as pessoais, que se colocavam sobre mim há uns dias atrás e que ainda se encontram em meu pescoço, inegavelmente tem um peso significativo no fato de ser difícil lidar com passar um dia inteiro simplesmente sendo leve do jeito que manda o tutorial. Ao contrário, é pesado, eu dificilmente fico em um mesmo ambiente mais de algumas horinhas e minha mente está sempre agitada. Só uma ou duas pessoas tem conseguido me dar paz. Você sabe o que é isso? Falta de paz… Isso geralmente dá aquela agonia que te faz responder feio alguém que você ama e que só cometeu o deslize de falar qualquer coisa enquanto você estava no meio de um raciocínio.
Agora, outro ponto importante. As preocupações que plantamos e colhemos, todos os dias, sem nem perceber. Talvez seja sua mania de ser controladora, talvez seja amor em excesso, talvez seja essa dupla. Eu tenho medo, medo por todos que eu amo, e talvez expresse isso resmungando ou tentando deixar tudo perfeitamente esclarecido com sinceridades que vão além do necessário. Me afasto, ou me mantenho perto até demais, nos dois pontos nota-se um esforço forçado, mas não em um sentido pejorativo e sim me fazendo cair na real. Se tem um esforço anormal, você precisa notar se está incomodando, se está exagerando, se está piorando as coisas. Pois sim, a humanidade se baseia na comunicação. Aliás, do jeito que as coisas estão ruins eu diria que é na falta de comunicação. Então, quando eu explodo com a pessoa errada, caio no choro, sinto meu estômago ficar comprimido, perco noites de sono acordada com insônia, durmo nas aulas porque lá estou longe das possíveis preocupações e dos alvos, isso tudo só mostra como não tem absolutamente nada a ver com hormônios e sim com falta de esperança. Ou também com a síndrome de super herói. Se eu não salvar, se eu não ajudar, se eu não encontrar alguma forma, tudo que já está ruim, vai dar mais errado. Você sabe o que é isso? Bem vindo ao clube.
Eu poderia citar também como os jornais, as revistas e as próprias pessoas costumam desesperar todos retratando o mundo da pior maneira possível. Isso é um saco! Se você faz isso, PARA! Sério, uma mulher sentou do meu lado no médico e só sabia falar “A vida é muito dura, muito difícil. Ah, como eu não gosto de viver”. Ok, você pode até ter motivos, mas se decidiu estacionar nessa mentalidade, NÃO contamine os outros! Não se sinta no poder de espalhar esse vírus, não busque pena, pois você a encontrará e atormentará pessoas como eu. Fiquei dias pensando, inconscientemente, como eu queria ajudar aquela moça ou fazer com que ninguém que eu conheça seja daquele jeito, chegue naquele estado.
Como meu pai fala e repete: a vida é bela. Não adianta, tem muita coisa ruim, tem momentos difíceis, mas a vida é bela. A vida, sozinha, nua e crua, é bela. Sendo realista, quando você entra no jogo a possibilidade de ser feliz é 50%. Entretanto, também tem os outros 50% que só existem porque o ser humano é muito besta. Se você é infeliz, controlador, super preocupado, incapaz de lidar com expectativas, a culpa é toda sua. Você não nasceu assim, se transformou nisso. Porque a falta de fé na felicidade está aí dentro, a ansiedade que justifica muitas coisas está aí dentro, a própria máquina de expectativas também está por aí. Então, ou quebre tudo e se refaça, ou empurre isso para o quarto jamais tocado, lide com isso em um dia mais vago, mas viva. Uma vez que não enxergará mais tanto entulho dentro de ti, encha de coisas melhores, de coisas mais leves. Um ambiente limpo e simples, um ambiente novo. Deixo então, uma das minhas músicas prediletas.

It’s hard to dance with a devil on your back,
So shake him off.
And I am done with my graceless heart,
So tonight I’m gonna cut it out and then restart,
‘Cause I like to keep my issues strong,
It’s always darkest before the dawn.

Shake it out, folks.

Quer prazer? Experimente ficar 5 dias sem fazer xixi e depois faça. OH, MY! Ou, a mesma coisa com escrever.

Tem sido difícil. Por algum motivo, astral ou natural, tem sido difícil. Pergunte-me e te responderei sem uma palavra sequer, eu tenho tentado expressar o que sinto todos os dias de diversas formas diferentes. Acho que me perdi. Como é insuportável essa mania humana de entrar em contato com coisas diferentes e de meio em meio tempo se perguntar quem é e se tudo está absolutamente perfeito. Perfeccionista disfarçada, cometo erros já cometidos e mergulho em abismos desconhecidos porém familiares. É como uma dor de estômago.

Eu sei exatamente o que vai acontecer assim que eu for atendida, mas a dor soa como se fosse nova. Soa como se eu nunca tivesse sentido nada parecido e como se eu fosse morrer. E o remédio que eu já sei nome, telefone e endereço, esse que já conheço, traz um efeito completamente diferente do que eu recordava. É sempre assim. Buscopan e suas viagens doidas, e depois a fome insuportável que vem, mas tudo isso gera um alívio que me faz viver de novo depois de umas cinco, seis horas nesse estado deplorável em alguma cama de hospital. Eu não gosto disso. Do desconhecido, levemente familiar e que começa com um gosto terrível e só depois de horas chega à menta suave.

Entretanto, esse abismo tão abstrato para mim se chama viver. Começa com sentir saudades de ser eu, e de repente uma vontade de mudar, aí vem a certeza de que é impossível e na sequência uma vontade de acreditar. Começa com uma falta de fé na humanidade, seguida de uma necessidade de crer em um futuro melhor, em um sentimento bom existente, em alguma verdade. É fácil ler e estudar filosofia lendo que não existem verdades absolutas, mas e quanto a lidar com isso? Ok, eu posso me espiritualizar e buscar momentos indescritíveis, isso faz parte de crer, mas só quero dizer que a sensação de ter sabedoria é agonizante as vezes. Dizem que o conhecimento aquieta, dá a tal paz racional interior(acredito que existem duas), mas um dos pontos mais lógicos para mim é que na verdade uma etapa dele é assim.

A primeira fase é de conhecer o comecinho, se assustar, mas aí vem a segunda… A sensação de acrescentar algo ao que você já colocou em sua base é magnífica. É ser mais alto em seu show predileto. Eis que você coloca mais e mais, e o susto sempre vem, seguido da sensação de ficar feliz por enxergar melhor. Entretanto, não é algo rápido. Não é algo fugaz. Você demora a se acostumar, você demora a ter tempo e paciência para aprender, você simplesmente demora.

Então, estou demorando. E isso dá uma vontade de bater a cabeça na parede, isso dá vontade de pular de paraquedas, dá saudade de adrenalina e me faz querer correr amanhã. Só que, agora que consegui finalmente escrever algo, me sinto feliz. Finalmente, me sinto feliz. Um pouco receosa, controlando minha mente, mas me sinto feliz.

PS:

 

OMFG, eu consegui! Eu escrevi! Notaram o bloqueio? Eu notei. Putz, como eu notei… AAAAAAAAAAAAAAH. Pera, vou ver se sai mais alguma coisa… HAHAHA tomara. Boa noite =)

Organizando o armário(a vida).

Disseram-me certa vez que arrumar um armário pode ser tão revigorante quanto arrumar sua própria vida. Imediatamente levei esse comentário a sério e o tornei realidade, apenas acrescendo ao final que muitas vezes uma arrumação com trilha sonora musical pode significar de fato o fim de uma era e o começo de outra.

Colocar tudo no lugar separando por categorias é um aprendizado muito forte, pois se você tenta pegar várias blusas de meiga manga de uma vez só, acaba deixando muitas caírem do cabide e se atrapalha toda. Dá uma raiva e a vontade de desistir da organização tão detalhada inunda sua mente. Acontece a mesma coisa quando nós cismamos de cortar laços com os erros de uma vez só, começar uma dieta louca na próxima segunda ou virar a melhor aluna da sala. As roupas vão cair, meu caro! A dieta da segunda vai acabar caindo no aniversário da tua melhor amiga, que vai ser na tua pizzaria predileta e você vai estar inclusa na promoção de comer/beber de graça. Quando você decidir ser a melhor aluna, do nada, pulando todos os degraus, vai acabar ganhando milhares de convites e ingressos vips para as festas que você havia sonhado há tanto tempo. Cortar os teus antigos erros de uma vez, ou ao menos pensar que se está fazendo isso, vai simplesmente ser a maior frustração e o motivo mais forte para desistir e se acomodar na bagunça habitual. 

Bom, outro ponto é tirar o que não te serve mais e não tem o menor motivo para estar ali. Por que diabos você guarda aquela blusa rosa bebê que não te cai bem? Sério, eu me vi rindo de várias camisetinhas que eu não tinha a menor ideia de como eu realmente tive coragem de comprar. Era óbvio que eu só usaria uma vez! Então, por que você ainda cisma de dar as velhas desculpas para si mesma? Num momento de reflexão, notei como eu nunca saio desse buraco em que me enfio após minha vida virar de cabeça pra baixo por pura acomodação. Eu sei como é sentar no sofá, me sentir triste e com insônia, ligar a tv e ver séries até o que nós aprendemos em biologia agir e meu cérebro ir desligando. Isso não é bom, mas é mais confortável do que ir além dessa tristeza confortável, reciclável e constante. Claro, não é isso que eu digo ao meu reflexo no espelho, afinal até mesmo o bom senso diz que isso é ridículo. Viro e falo baixinho muitas vezes que é uma fase e que eu devo me respeitar, afinal, sem estas eu não serei nunca quem o meu futuro aguarda. Além, óbvio, do costumeiro: “só estou dando tempo ao tempo”. Uma coisa é não ficar no ombro do sr. Destino implorando para girar a roda de novo, isso seria errado, mas outra bem parecida é nem entrar na fila. O esperto acaba indo dar uma voltinha pela cantina, checa o climatempo e senta no sofá pensando que ninguém está vendo. Viver vira uma meta a ser alcançada, enquanto… Cá entre nós, meu bom! Você já está vivendo, só que aparentemente escolheu esse jeito. Sim, de pijama, cara amassada e músicas tristes. Há uma coisa importante para ser ressaltada, aliás! O exagero é o que estraga tudo, a rotina nos mesmos sentimentos constantes, tudo que te impeça de sair do lugar. Ou seja, se uma ou duas noites de pijama te fazem ter gasolina pra rodar a BR toda, aproveite! Só não se engane achando que se ficar milhares de noites, permanecerá parado, pois você estará em movimento, só que pra baixo. Imagina, um buraco na estrada, o trabalho que já era enorme para chegar até o destino simplesmente triplicou. Não tem só curvas e horizonte, agora tem que escalar até a luz do sol. Relaxa, já passei por isso e passo quase sempre. Aliás, creio que estou escrevendo e subindo. 

A última vírgula dessa imensidão de lições que eu resolvi relatar é a que eu mais tirei um tempo para sentir. Admito, quase não pensei. Sabe quando você encontra, no fundo do armário, a caixa intocada? Aliás, a mochila de fevereiro que você não toca há meses pelo simples medo de lembrar da lambança que você fez, ignorou e esqueceu para simplesmente seguir? Eu ainda recomendo, se realmente querem saber, que se faça isso. Se não tem como consertar no mês, deixa ali e vai na fé! Um dia, você vai arrumar seu armário e aparentemente saber lidar com tudo de uma forma melhor. 

Eu estava sem respostas quando comecei esse trabalho árduo, mas tinha bolsas e blusas novinhas em folha. Até jeans eu tive paciência de provar para renovar. Eu respirei fundo, milhões de vezes, abrindo a mochila que seria o fim da arrumação e de milhares de coisas. Achei uma coisa que não era minha, um presente apressado, que um dia já tinha me feito sorrir. Agradeci, pela primeira vez em meses, pela oportunidade de ter vivido essa história. Obviamente foi para as quatro paredes que me cercavam(Ou seja, Deus. Ainda não virei Marisa Monte), eu não sou fã de retornos ao passado quando já se está há milhares de anos luz. Tirei tudo e dei uma sacudida lá na varanda. Deixei cair um papel lá embaixo, torci para não ser algo importante, pois a possibilidade de eu ir buscar era mínima. Voltando ao quarto, escolhi um lugar para cada achado e sentei na cama. Já tinha minhas respostas, sem nem mesmo precisar de horas para te-las. O passado ali imortalizado durante um tempo foi capaz de me mostrar como o meu presente não tem base nenhuma, pois se eu deixei tantas abas do computador abertas me negando a fecha-las(pelo simples fato de não conseguir vê-las), como serei capaz de desligá-lo? E com um passado ligado, não há presente. Entenda-me bem, não me refiro ao sentimentalismo e sim ao amadurecimento que eu tinha que ter tido para ter chegado aqui e estar apta a ganhar tudo que venho pedindo. Vidinha subjetiva, com graça e cor, eu realmente devo um abraço ao indivíduo que comentou do armário. Entretanto, quero dedicar esse texto tão simples para minha mãe. Sem as compras, as conversas de hoje, as risadas, eu jamais teria sentado aqui com as ideias tão claras em mente. Além disso, ela que é a doida por organização. Ops! Desculpe, mamãe, eu te amo! E espero que esteja satisfeita com as categorias separadinhas e as bolsas em seus devidos lugares. Obrigada, por tudo. 

Nunca duvide do poder de cinco sanduíches e um longo silêncio.

Sentar de pernas de chinês, abraçar os joelhos, deitar de cabeça pra baixo no sofá, deitar normalmente ou até mesmo de lado, levantar e dar uma corridinha, ir respirar o ar na sacada, desistir e ir para o quintal. Nada disso deu certo, nunca daria, a inquietação da alma vai muito além de todas as tentativas em vão para tentar esconde-la ou disfarça-la. Nós vivemos por aí esquecendo que não somos apenas carne, mas essa é a burrice mais intensa que qualquer ser humano adota. Circunstancialmente é bom parar de pensar e agir por impulso, mas esquecer de uma das nossas partes mais importantes é a mesma coisa que sair de casa sem o celular: insuportavelmente incomodo.

Em uma determinada hora a alma fala em um tom impossível de ser ignorado e a solução só chega até nós diante de uma auto sinceridade difícil de alcançarmos se já nos encontrarmos atolados de coisas inúteis. É difícil, admita, conseguir não se achar ridículo ao ficar em silêncio esperando a tal da “verdade” te atingir. Porque, de fato, não poderia chamar aquela inquietação tão intensa de algo além de verdade. Ela é aquilo que nós sabemos que temos que lidar, mas afogamos e sufocamos para conseguirmos evitar o tempo que for possível. 

Apesar dos pesares, de toda a sensação infantil ou absurda, comigo não foi diferente. Respirei fundo e deixei-me estar vulnerável. A vontade de ligar a televisão foi máxima quando abri o baú fechado e confessei o quanto me sentia insegura. Sim, a tal da incapacidade de fazer qualquer coisa naquela noite era exatamente o sentimento de “você só tem vivido tudo na sorte e não porque acha que realmente vai conseguir”. 

Que derrota. Entretanto, quem nunca desejou ter um rosto diferente? Talvez uma voz, um talento, um QI maior. A gente se sabota. Eu tenho me sabotado desde o dia em que me senti pouco para o primeiro ser humano que exigiu muito de mim, então eu admito que sempre que consigo fazer algo diferente sinto-me primeiramente surpresa. Rio por dentro, um tanto temerosa, porque é irônico que a frase do Chaves possa ter um significado tão forte na minha vida. Só que ela tem e vive ecoando dentro de mim: “Foi sem querer querendo”. 

Então, por que diabos minha alma precisou me alertar disso agora? Tudo está correndo tão bem com esse acaso, eu podia simplesmente ignorar essa insegurança – mesmo com os puxões que recebo durante o dia-, mas essa parte esquecida de mim parece estar subitamente disposta a enfrentá-la. Se eu pudesse tecer uma citação para ser eternizada, falaria algo em relação a toda coragem que nós temos estar depositada em nossas almas. Não tem como, minha mente só consegue apontar minhas fraquezas e ela é só realista. Não sou nada demais, não canto, nem toco, nem tenho um corpo escultural. Não tenho um sobrenome importante, não sou famosa. Sou só uma adolescente, ruim nas exatas e que por mais que tente é bem mediana. A lógica não está errada em me colocar cheia de fraquezas, esse é o realismo mais certo de todos. Seres humanos são incrivelmente frágeis e sujeitos à comparações onde os quesitos anteriormente citados valem tudo ou nada. Entretanto(ah, como eu amo quando consigo chegar em um entretanto forte e decidido), é por isso mesmo que nós não podemos esquecer que temos uma alma. Nenhuma qualidade física, profissional, curricular, é comparável com o quão abastecidos dela nós somos. Diz-se no dicionário que sinônimo para desumano é um ser sem alma. Pois sim, mesmo você sendo o ateu mais fervoroso, acreditar na sua humanidade é assentir para o fato de que somos cheios de… alma! Sabe a carta que vence qualquer outro grupo de cartas no baralho? Não? Bom, eu acho que já ouvi algo sobre isso e é exatamente isso que eu quero dizer. Se nós nos lembrássemos mais da alma e de como a força que vem dela é incrivelmente suficiente para tudo e mais um pouco, talvez a vida fosse mais fácil. E como se ela pudesse perceber que eu estava prestes a sucumbir em meio as comparações e puxões da insegurança, me fez ficar horas e horas inquieta até notar que eu só estava perdendo o jogo(sem notar) porque eu estava deixando. A opção de jogar com 5 jogadores em campo, ao invés de 11, é toda minha. A opção de esquecer da parte mais importante, talvez por estar tão cega e cheia da rotina, dos estudos, da vida, é minha.

Então, tive a grande oportunidade de fazer cinco sanduíches de bisnaguinha e tomar um café da manhã – almoço escolhendo uma nova forma de jogar. Segurar as rédeas, fazer valer todos os aprendizados, valorizar os conselhos e elogios recebidos. Falar mais de alma, menos de lógica e sentir que vale muito mais ser alguém diferente do que mais uma menina cheia de livros de auto ajuda que se baseiam em aumentar suas qualidades passageiras e visíveis do que suas especifidades eternas e inigualáveis.