Brick Walls.

Dá falta de ar, garota. Você mal consegue levantar os olhos, abri-los, respirar fundo e deixar esse segundo passar. A dificuldade não tem a ver com viver, e sim com lidar consigo mesma nesse momento que não passa de algo fugaz, mas profundo. Você consegue acordar, comer, ver filmes e conversar com quem tiver que conviver. Aparentemente não vira um zumbi. Entretanto, quando que as aparências tem crédito nesse mundo em que o mais forte é o que sabe mentir?

Admitindo certos pontos, creio que tem uma parte aqui dentro necrosada e a falta de ar tem a ver com ela. Cada vez que há necessidade de usá-la, uma pane acontece. Todos os meus neurônios entram em choque, procuram uma forma de substituí-la e transformam meu corpo numa verdadeira zona. Ninguém aqui sabe o que faz, ninguém aqui é meu, e tudo isso é explicado pela parte que se perdeu.

É impossível prever quando algo sério vai acontecer e você vai sentir, a dor ou o amor, em sua intensidade máxima. É improvável que você saiba lidar e certamente, meu amigo, você vai acabar indo para o bar com seus amigos e terá manchas de humilhação em sua reputação pelo caminho. Você, que nunca se expôs, vai mandar mensagem e reclamar de atenção. Você, que nunca se importou, vai chorar até dormir pela falta de consideração. Você, sempre tão inteiro, vai sofrer sua primeira perda e suas frequentes novas faltas de ar.

De repente, ao caminhar pelo seu bairro, você vê a coisa perfeita para comentar com a pessoa e prontamente saca o celular, até que… Não, você não pode. A internet está funcionando, o sinal está completo, sua mão está apta, mas um fator externo te impede de enviar qualquer coisa. Começa inconscientemente o solo da música que não deveria existir. Aí você fecha os olhos para fugir das lembranças que escapam sorrateiramente do fundo do baú do seu coração, e a única coisa que alivia é prender sua respiração. Afastar as lembranças é uma tarefa tão difícil quanto lidar com elas. Entretanto, o golpe de consciência ajuda. Sim, a clareza de compreender que ele não se importa e nunca sentiu nada além da vontade de saborear o momento. Te consumiu como quem visita uma degustação e logo foi embora, sem compromisso. Então, assim que lida com as imagens em sua mente, as joga longe e pisa mais firme no chão. A imagem deve ser cômica, ou esquisita, mas você não se importa. No momento, são as atitudes explicitadas no tutorial para que supere e chegue ao fim da música viva; sem mais, nem menos.

Não digo que é fácil ter tudo isso dentro de si e ainda ter que lidar com responsabilidades, sonhos, perguntas, mas é possível. Diferente da possibilidade de fugir, é completamente necessário que encaremos os fatos sem medos. Sim, você vai achar que a onda vai te engolir, vai entrar em pânico cada vez que a confusão te atingir e as faltas de ar não ajudarão, mas nada além de uma insônia pesada vai te alcançar até tudo acabar.

O máximo que podemos fazer é nunca abaixar a guarda. Como eu já disse, não tem hora, nem dia, quando você se apaixona e quando sofre, nada disso é controlável, então estejamos apenas cientes de que o fardo nunca é maior do que o que podemos carregar. Conserte seu sorriso, cuide da sua pele e tente levar a sério os conselhos de quem te ama. Saia, veja pessoas e pise forte quando necessitar. Não olhe para trás mais do que o necessário, evite o medo de admitir que precisará enxergar o que virá na sua frente cedo ou tarde. Ainda é prematuro aceitar, mas alguém vai te encantar de novo e de repente, dessa vez, você vai sentir-se mais no ar do que no subsolo. Então, vivamos. Sem medos, somente verdades e consolações. Compensações. Chore, mas não se esqueça de pisar firme no chão e engolir tudo feito um remédio ruim. Lide, não fuja. Não se culpe, não se julgue. Não se esqueça: fardos são proporcionais, então, no mínimo, você é uma das pessoas mais fortes do mundo e merece total reconhecimento por isso. Se goste, porque eu te gosto. É, eu me gosto.

Pessoas são tudo.

As pessoas são como confissões. Algumas nós deixamos coladas à nós, como se seu dever fosse ficar guardadas eternamente em nossos peitos e almas. Outras, nós jogamos ao vento. Em um tom sincero, ou as vezes com uma certa indiferença, simplesmente falamos mesmo que não tenha ninguém para ouvir. Abrimos mão, sem nem perceber.

Pessoas são segredos. As  vezes, compartilhados. As vezes, desgastados. A prisão de se sentir ligado a alguém independente do tempo – e das circunstâncias – é exatamente como se sentir culpado por saber – e ter que guardar – algo que todos deveriam saber, e não sabem. Entretanto, nem sempre a vontade é de espalhar. Sinto-me honrada por ser na maior parte do tempo uma boa ouvinte, um baú que de tudo um pouco sabe, e é exatamente assim que descrevo minha amizade com a maioria dos que pertencem à minha vida há anos.

Pessoas são apenas pessoas, mas são muito mais do que isso. Elas são pessoais. Quando entram em suas vidas, trazem alegria e sentimentos novos. Aquele arrepio, as vezes aquele calor que é tão bem vindo no inverno, aquele cheirinho novo de carros e livros. Como é bom conhecer gente nova, exatamente porque nada consegue se comparar com uma novidade em meio à rotina.

Entretanto, como toda tristeza nasce de uma pequena felicidade, quando elas saem podem levar tudo que trouxeram e ainda mais: o que plantaram no tempo que ficaram dentro de ti. De repente, o buraco. O vazio. De repente, a claridade de um quarto vazio e com paredes brancas anteriormente ocupadas com quadros chamados carinhosamente de memórias. Sobra o suspiro, a compreensão de entender que a vida é um ciclo e o ser humano é um ser de mudanças. É um ser agitado. É um ser mortal à esse mundo. 70, 80 anos de alguém na sua vida e pode ter certeza que ele partirá, afinal, nós não somos gaiolas para trancafiar ninguém. Eles voam para outras dimensões, geralmente visitando-nos em fotos e recordações, mas nunca retrocedendo. Eles não voltam atrás em suas idas, ninguém deveria.

Pessoas são como palavras. Ditas, guardadas, lançadas como flechas ou como remédio em feridas impossíveis de serem curadas.

Guardo, como um poema ditado com excelência e encanto, minha inspiração para esse texto. Alguém que tinha sempre um olhar que mais parecia um dicionário, uma enciclopédia, mas que não falava demais nunca. Uma bisa, vó, mãe, uma mulher que saiu de um lugar, foi para outro e no fim acabou por deixar um pouco de si com cada um que tenha cruzado seu caminho.

Eu te amo. Te amei. Sempre vou te amar. Bença, bisa.

Shake it out!

Sobre ser forte.

Eu sei como é querer fugir de todas as responsabilidades e expectativas alheias, mas nunca achei que isso pudesse ser tão forte como realmente é. Nós, mulheres, temos a triste mania de apelidar tudo de TPM… Só que isso é uma verdadeira ingenuidade. A simples poluição sonora já causa estresse e dificuldade de lidar com situações difíceis, imagina as outras milhões de coisas facilmente acrescentadas? A questão é que temos que parar de achar que as coisas são o que são. Parece TPM? A chance de não ser é enorme. Sim, é difícil catar motivos… Mas, sem isso eu não teria chegado aqui.
Se eu ousasse culpar somente os hormônios por estar chata, estressada e com uma crise enorme para lidar com esse mundo retratado como inseguro e cruel, eu não estaria mais respirando. Teria explodido, juro. É como se você cortasse o fio errado, porque ao invés de buscar uma solução, eu apenas esperaria. O que resolve TPM? Chocolate? Mito no meu caso, já que sou toda ruim do estômago.
Entretanto, parei para pensar e visualizei minha situação no contexto geral. Desenhei mentalmente o que poderia estar me sugando, me tirando todas as forças e deu certo. Entendi que, de todos os problemas, o possível estresse feminino era o menorzinho.
As expectativas alheias, e até mesmo as pessoais, que se colocavam sobre mim há uns dias atrás e que ainda se encontram em meu pescoço, inegavelmente tem um peso significativo no fato de ser difícil lidar com passar um dia inteiro simplesmente sendo leve do jeito que manda o tutorial. Ao contrário, é pesado, eu dificilmente fico em um mesmo ambiente mais de algumas horinhas e minha mente está sempre agitada. Só uma ou duas pessoas tem conseguido me dar paz. Você sabe o que é isso? Falta de paz… Isso geralmente dá aquela agonia que te faz responder feio alguém que você ama e que só cometeu o deslize de falar qualquer coisa enquanto você estava no meio de um raciocínio.
Agora, outro ponto importante. As preocupações que plantamos e colhemos, todos os dias, sem nem perceber. Talvez seja sua mania de ser controladora, talvez seja amor em excesso, talvez seja essa dupla. Eu tenho medo, medo por todos que eu amo, e talvez expresse isso resmungando ou tentando deixar tudo perfeitamente esclarecido com sinceridades que vão além do necessário. Me afasto, ou me mantenho perto até demais, nos dois pontos nota-se um esforço forçado, mas não em um sentido pejorativo e sim me fazendo cair na real. Se tem um esforço anormal, você precisa notar se está incomodando, se está exagerando, se está piorando as coisas. Pois sim, a humanidade se baseia na comunicação. Aliás, do jeito que as coisas estão ruins eu diria que é na falta de comunicação. Então, quando eu explodo com a pessoa errada, caio no choro, sinto meu estômago ficar comprimido, perco noites de sono acordada com insônia, durmo nas aulas porque lá estou longe das possíveis preocupações e dos alvos, isso tudo só mostra como não tem absolutamente nada a ver com hormônios e sim com falta de esperança. Ou também com a síndrome de super herói. Se eu não salvar, se eu não ajudar, se eu não encontrar alguma forma, tudo que já está ruim, vai dar mais errado. Você sabe o que é isso? Bem vindo ao clube.
Eu poderia citar também como os jornais, as revistas e as próprias pessoas costumam desesperar todos retratando o mundo da pior maneira possível. Isso é um saco! Se você faz isso, PARA! Sério, uma mulher sentou do meu lado no médico e só sabia falar “A vida é muito dura, muito difícil. Ah, como eu não gosto de viver”. Ok, você pode até ter motivos, mas se decidiu estacionar nessa mentalidade, NÃO contamine os outros! Não se sinta no poder de espalhar esse vírus, não busque pena, pois você a encontrará e atormentará pessoas como eu. Fiquei dias pensando, inconscientemente, como eu queria ajudar aquela moça ou fazer com que ninguém que eu conheça seja daquele jeito, chegue naquele estado.
Como meu pai fala e repete: a vida é bela. Não adianta, tem muita coisa ruim, tem momentos difíceis, mas a vida é bela. A vida, sozinha, nua e crua, é bela. Sendo realista, quando você entra no jogo a possibilidade de ser feliz é 50%. Entretanto, também tem os outros 50% que só existem porque o ser humano é muito besta. Se você é infeliz, controlador, super preocupado, incapaz de lidar com expectativas, a culpa é toda sua. Você não nasceu assim, se transformou nisso. Porque a falta de fé na felicidade está aí dentro, a ansiedade que justifica muitas coisas está aí dentro, a própria máquina de expectativas também está por aí. Então, ou quebre tudo e se refaça, ou empurre isso para o quarto jamais tocado, lide com isso em um dia mais vago, mas viva. Uma vez que não enxergará mais tanto entulho dentro de ti, encha de coisas melhores, de coisas mais leves. Um ambiente limpo e simples, um ambiente novo. Deixo então, uma das minhas músicas prediletas.

It’s hard to dance with a devil on your back,
So shake him off.
And I am done with my graceless heart,
So tonight I’m gonna cut it out and then restart,
‘Cause I like to keep my issues strong,
It’s always darkest before the dawn.

Shake it out, folks.