Fragmento do (atual) nada.

Quantas vezes me traio em apenas um dia? Sussurro, tentando encontrar algum sentido, contra o espelho que atualmente só enxerga em parte. Nasci para ser isso – esse ser mais interno do que externo -, ou nunca fui plenamente? Parto do princípio que só avançamos, partimos para uma nova fase, quando alcançamos o “total” de determinado momento; mas será que algum dia me permitirei chegar nesse aproveitamento? Sinto medo de ser consumida e jamais conseguir sair do buraco negro que é ser o que todas as suas experiências te transformaram. O pânico de me tornar uma decepção para mais alguém me faz fugir de pessoas fracas, por mais que as ame profundamente. Sou um pacote pesado demais para alguém denso demais, ou de menos. E eu, como alguém hiperbólica, tenho consciência dos arrepios que sinto ao me imaginar sozinha comigo. Auto destruição, ou um vício eterno, quem saberá a resposta?

Talvez, escrevendo, eu esteja em um treinamento para sentir o gosto da plenitude, mas no fundo eu sei que é bem mais complexo do que algumas horas sentada na frente de uma tela confortável. Em algum canto da minha mente, a história de Jane Austen sempre me assustará. A mulher que foi incrível, porém sozinha. Quando eu era mais nova, me pegava pensando o que eu iria preferir: uma vida cheia de sucessos, ou a intensidade do amor? Quanto mais cresço, mais conheço a resposta. Mesmo que eu fale a língua dos críticos e dos leitores, sem amor, nada serei. Fazendo de tudo que deixo por aí, fragmentos. Fragmentos do nada. Não que eu me ache alguém tão brilhante como a autora, mas conhecendo a vida, não custaria nada me deixar mal sucedida tanto em um lado, quanto no outro. Pessimista ou traumatizada, perdi o fio da meada com o cheiro de nescau quentinho que me arranca de mim, felizmente, novamente.

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