As desvantagens de ser invisível.

Ele estava lá berrando, falando sozinho para chamar a atenção de qualquer ser vivo. Caminhava sem norte, talvez pelas alucinações que tinha desde um tempo atrás. As pessoas andavam, ignoravam e continuavam suas vidas como se nada estivesse ali. É mais fácil viver se aquele homem for invisível. Já não tinha alguns dentes, era alto e fraco… Dá pra imaginar o que havia acontecido. Ele clamava por algo que nem ele mesmo sabia, mas eu sei. Ele só queria atenção. Como uma metonímia, ele representava todos os que passavam e passarão por essa invisibilidade extremamente confortável aos que só enxergam essa vida que não faz o mínimo sentido. Ele gritou tão alto, mas ninguém sequer se preocupou em juntar as sílabas. Ele tentava tocar nas pessoas e numa dessas levou uma bolsada em cheio. O homem chamado de vagabundo caiu ao chão. Chorou, como uma criança grotesca e gigante, mas chorou. Continuava dialogando consigo mesmo, implorando perdão e clemência divina. Em menos de cinco minutos, um guardinha chegou. Os braços estupidamente mais fortes carregaram o coitado que estava sendo ferido pelo concreto quente. Ele foi jogado contra a parede e revistado, calado com um tapa ao tentar falar sem os dentes que lhe seriam úteis. O policial ao constatar que ele estava puro e mal tinha roupas, passou finalmente a vez para o pobre. Com muita dificuldade, ele foi gaguejando… Falando e apontando para o beco. O guardinha, alarmado. Os curiosos que estavam por perto, inclusive a dona da bolsa, estavam aos poucos entendendo que o homem não era o agressor cruel que imaginavam, e sim o intercessor. Eles correram ao beco. Era uma senhora, caída com a mão sobre o peito. Ela mal conseguia respirar. Ela chorava, muda, morria aos poucos.  O homem injustiçado a abraçou, pedindo desculpas. Fez tudo que estava ao seu alcance, mas se culpava por dentro. A plateia estava cheia com uma mistura que ia de vergonha até dor, alguns aos poucos iam embora conforme os aparelhos tecnológicos os traziam de volta à realidade. Os mais arrogantes firmavam o pé dizendo que a culpa era do que estava chorando com a falecida, por não ter se feito claro. Outros, entendiam a responsabilidade que agora era deles. O guardinha tossiu engolindo o choro ao ler o nome na identidade que a moça carregava em uma bolsinha cor de marfim: Esperança.

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