Good night, moon.

Recolho meu trapos e capricho, usando o resto do brilho que tenho a mão, para voltar inteira à caminhada que parece nunca ter fim. Sinto-me mais leve, mesmo com tanta bagagem acumulada da última aventura. Talvez essa seja a mágica da vida, da sutileza dos dias que tanto me acrescentam. Quanto mais vejo, mais aprendo, mais me liberto. A liberdade para alguns é um direito, para outros um desejo escondido a sete chaves, e ainda, para terceiros, encontra-se descrita como combustível. É dela que se fazem os poemas e textos como esse. Sendo livre, cheguei até aqui, com dobrinhas em alguns cantos da alma, com remendos em outros. Entretanto, sou alma. Pendurada no varal, estendida e exposta, sou pura e densa. Viajante, nômade, fora de órbita, constantemente instigada a ir mais fundo. Quanto mais longe, mais perto estarei da volta ao lugar inicial. 

Por isso, sigo. Sem isso ou aquilo, mas com um coração submisso. Já não me importam as horas, nem as companhias, apenas peço pelo bem dos que amo, pela calmaria do dia a dia, pelos sonhos prestes a serem realizados. Agradeço acima de tudo, pois nessa vida ganho muito mais do que ofereço. Apanho, sim, mas as vezes isso nos salva de um abismo infinitamente mais profundo do que uns bons safanões. Aprendi a temer a profundidade do vazio, pois nem mesmo o mapa mais detalhado é capaz de conseguir resgatar o que nele se perdeu e acostumou. Ele engole, massacra e digere. Ele acaba com o que, inicialmente, era inacabável. Por isso, danço com a tristeza, beijo a melancolia, abraço o medo. Eu prefiro o tudo do que o tal do nada. 

Ao fechar os olhos, podemos ver estrelas quando quisermos, e por isso agradeço. Ao simplesmente abraçar alguém, sentimos sua alma do começo ao fim, e por isso agradeço. Ao errar, aprendemos o que verdadeiramente queremos, e por isso, principalmente por isso, agradeço. 

Afinal, mesmo a pessoa mais errada do universo… Até mesmo para ela, existe a esperança. 

Agradeço pela esperança. 

Agradeço pela liberdade.

Agradeço. 

As desvantagens de ser invisível.

Ele estava lá berrando, falando sozinho para chamar a atenção de qualquer ser vivo. Caminhava sem norte, talvez pelas alucinações que tinha desde um tempo atrás. As pessoas andavam, ignoravam e continuavam suas vidas como se nada estivesse ali. É mais fácil viver se aquele homem for invisível. Já não tinha alguns dentes, era alto e fraco… Dá pra imaginar o que havia acontecido. Ele clamava por algo que nem ele mesmo sabia, mas eu sei. Ele só queria atenção. Como uma metonímia, ele representava todos os que passavam e passarão por essa invisibilidade extremamente confortável aos que só enxergam essa vida que não faz o mínimo sentido. Ele gritou tão alto, mas ninguém sequer se preocupou em juntar as sílabas. Ele tentava tocar nas pessoas e numa dessas levou uma bolsada em cheio. O homem chamado de vagabundo caiu ao chão. Chorou, como uma criança grotesca e gigante, mas chorou. Continuava dialogando consigo mesmo, implorando perdão e clemência divina. Em menos de cinco minutos, um guardinha chegou. Os braços estupidamente mais fortes carregaram o coitado que estava sendo ferido pelo concreto quente. Ele foi jogado contra a parede e revistado, calado com um tapa ao tentar falar sem os dentes que lhe seriam úteis. O policial ao constatar que ele estava puro e mal tinha roupas, passou finalmente a vez para o pobre. Com muita dificuldade, ele foi gaguejando… Falando e apontando para o beco. O guardinha, alarmado. Os curiosos que estavam por perto, inclusive a dona da bolsa, estavam aos poucos entendendo que o homem não era o agressor cruel que imaginavam, e sim o intercessor. Eles correram ao beco. Era uma senhora, caída com a mão sobre o peito. Ela mal conseguia respirar. Ela chorava, muda, morria aos poucos.  O homem injustiçado a abraçou, pedindo desculpas. Fez tudo que estava ao seu alcance, mas se culpava por dentro. A plateia estava cheia com uma mistura que ia de vergonha até dor, alguns aos poucos iam embora conforme os aparelhos tecnológicos os traziam de volta à realidade. Os mais arrogantes firmavam o pé dizendo que a culpa era do que estava chorando com a falecida, por não ter se feito claro. Outros, entendiam a responsabilidade que agora era deles. O guardinha tossiu engolindo o choro ao ler o nome na identidade que a moça carregava em uma bolsinha cor de marfim: Esperança.