Pessoas são tudo.

As pessoas são como confissões. Algumas nós deixamos coladas à nós, como se seu dever fosse ficar guardadas eternamente em nossos peitos e almas. Outras, nós jogamos ao vento. Em um tom sincero, ou as vezes com uma certa indiferença, simplesmente falamos mesmo que não tenha ninguém para ouvir. Abrimos mão, sem nem perceber.

Pessoas são segredos. As  vezes, compartilhados. As vezes, desgastados. A prisão de se sentir ligado a alguém independente do tempo – e das circunstâncias – é exatamente como se sentir culpado por saber – e ter que guardar – algo que todos deveriam saber, e não sabem. Entretanto, nem sempre a vontade é de espalhar. Sinto-me honrada por ser na maior parte do tempo uma boa ouvinte, um baú que de tudo um pouco sabe, e é exatamente assim que descrevo minha amizade com a maioria dos que pertencem à minha vida há anos.

Pessoas são apenas pessoas, mas são muito mais do que isso. Elas são pessoais. Quando entram em suas vidas, trazem alegria e sentimentos novos. Aquele arrepio, as vezes aquele calor que é tão bem vindo no inverno, aquele cheirinho novo de carros e livros. Como é bom conhecer gente nova, exatamente porque nada consegue se comparar com uma novidade em meio à rotina.

Entretanto, como toda tristeza nasce de uma pequena felicidade, quando elas saem podem levar tudo que trouxeram e ainda mais: o que plantaram no tempo que ficaram dentro de ti. De repente, o buraco. O vazio. De repente, a claridade de um quarto vazio e com paredes brancas anteriormente ocupadas com quadros chamados carinhosamente de memórias. Sobra o suspiro, a compreensão de entender que a vida é um ciclo e o ser humano é um ser de mudanças. É um ser agitado. É um ser mortal à esse mundo. 70, 80 anos de alguém na sua vida e pode ter certeza que ele partirá, afinal, nós não somos gaiolas para trancafiar ninguém. Eles voam para outras dimensões, geralmente visitando-nos em fotos e recordações, mas nunca retrocedendo. Eles não voltam atrás em suas idas, ninguém deveria.

Pessoas são como palavras. Ditas, guardadas, lançadas como flechas ou como remédio em feridas impossíveis de serem curadas.

Guardo, como um poema ditado com excelência e encanto, minha inspiração para esse texto. Alguém que tinha sempre um olhar que mais parecia um dicionário, uma enciclopédia, mas que não falava demais nunca. Uma bisa, vó, mãe, uma mulher que saiu de um lugar, foi para outro e no fim acabou por deixar um pouco de si com cada um que tenha cruzado seu caminho.

Eu te amo. Te amei. Sempre vou te amar. Bença, bisa.

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Sobre a saudade.

A gente não dorme, mal consegue passar um segundo no mesmo plano em que todas as outras pessoas, respira fundo constantemente e precisa se lembrar milhões de vezes que a vida não pode parar. Os olhos estão constantemente úmidos, a fraqueza passa da alma para os dedos, as lembranças ganham cor e voz. Sua imaginação ganha tamanho de tela de cinema, um simples momento sozinha pode se tornar o buraco negro mais longo que você já ousou mergulhar, nada faz sentido durante alguns segundos. Onde está a corda para puxar? Você prefere descer do bonde e enfrentar a queda livre, sem saber o destino, para apenas se livrar dessa sensação tão brutal. A ausência é um absurdo. O ser humano não nasceu para isso, penso constantemente que nos tornamos seres mais evoluídos cada vez que sentimos a saudade e convivemos sem reclamar de minuto em minuto. Como conviver com tal vazio que apesar de não ser absolutamente nada, conta com memórias de quando a vida foi diferente?

Mudanças nos afrontam e tudo que nos resta é restar. Nesses momentos não somos nada além de restos, de fragmentos, de dor. Desculpem-me, mas eu não sei sentir que algo está faltando e sorrir o tempo inteiro. Ele era mais do que um avô, era também o maior exemplo de ser humano que eu podia ter e hoje me encontro sem o dono da letra mais única e do jeito tão incrível de se adaptar a tecnologia. Por mais que eu tente, fraquejo de mês em mês. De aniversário em aniversário. De data em data. A vida segue, como disse o poeta, mas poderiam fazer uma música sobre como a gente não quer que ela siga. Não se for desse jeito errado, torto e cheio de ausências. Se eu pudesse escolher, as coisas seriam diferentes. Entretanto, como não sou dona do destino, opto por aceitar o que tantos me aconselham. Continuo a nadar. Com dor. Com câimbras constantes. Engolindo um pouco dessa água cheia de cloro. Porém, continuo. Continuo a nadar.