Confesso…

Eu sei que eu não tenho a mínima vocação para a eternidade do lado de ninguém. Sim, eu admito, sou efêmera. Só que reforço, humildemente, que talvez a culpa não seja minha. Talvez a efemeridade seja uma realidade até ter alguém que me faça ficar. Talvez um olhar me prenda, duas mãos me segurem, um cheiro me hipnotize. Isso me faz ter esperanças, afinal, a vida teria algum sentido. Os corações quebrados teriam finalmente uma explicação. Minha cabeça teria um ombro para descansar, minha nuca uma mão para pertencer, minha alma alguma companhia para um fim de tarde e um começo de dia. Meu maior desejo é poder sorrir, rir, fazer brincadeiras e não sentir que falta alguma coisa. Definitivamente, cansei de ir conferir e faltar algo na lista de satisfação. Eu não peço um cara perfeito, uma vida maravilhosa e um cabelo sempre penteado. Eu, humildemente, só quero me sentir satisfeita. Seja aprendendo, seja sendo. Meus olhos se fecham, um suspiro nasce no meu pulmão e termina no meu espírito: que assim seja, e que seja logo.

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Veja bem, meu bem.

Pessoas mudam. Eu chego calmamente a tal conclusão, entre um suspiro e outro, ao observar do geral para o particular, ou vice versa, mas sinto um aperto especial no peito que me mantém acordada durante essa madrugada. Por que as mudanças não podem permanecer nas adjacências da essência de cada um? Por que alguns tem a incrível capacidade de ir da água para o vinho, da vodka para o suco de uva e do preto para o branco? Isso dói. A dor não tem a ver com o egoísmo de estar em um comodismo na relação, mas com a decepção que a imprevisibilidade nos traz quando nos frustramos com as atitudes, o novo perfume vulgar, as necessidades – agora pessoais- que antes eram tão criticadas em terceiros. Somos metamorfoses ambulantes, mas me retiro da nuvem que é conduzida para um céu cujo a textura é seca e nada parecida com a que nos cobre diariamente. Prefiro voar, livre, do que estar cega pela falsa regra de que toda mudança é intensa o suficiente para ser negativa. 

Passos curtos, passos longos, isso não importa, mas o tal ritmo é primordial. Minha dica, mais honesta e boba possível, é que vocês fechem seus olhos e sintam. Mudem! Sim! A vida é feita para isso. Entretanto, com os olhos fechados, sintam as batidas de seus corações. Estão capturando o ritmo ditado durante a leitura? Calmo, quase sábio, exatamente o que nós precisamos. Ele é o parâmetro para transformações a partir de hoje, então, atentem e sejam caprichosos em suas vistas. Água para o vinho em dois minutos? Desde quando isso vale a pena? Mesmo que você seja a pior pessoa do mundo, o sentido da vida não está em ser a melhor, e sim aproveitar todos os segundos durante sua transformação. É nela que você vai conhecer pessoas maravilhosas, ter madrugadas e navegar dentro da experiência que é estar vivo exatamente pelo fato de pensar. A vida só vai valer a pena se você souber a diferença entre alguém que curta cada segundo e alguém que corta cada segundo. A humilde dica é: não tem nada a ver com letras.

Fragmento do (atual) nada.

Quantas vezes me traio em apenas um dia? Sussurro, tentando encontrar algum sentido, contra o espelho que atualmente só enxerga em parte. Nasci para ser isso – esse ser mais interno do que externo -, ou nunca fui plenamente? Parto do princípio que só avançamos, partimos para uma nova fase, quando alcançamos o “total” de determinado momento; mas será que algum dia me permitirei chegar nesse aproveitamento? Sinto medo de ser consumida e jamais conseguir sair do buraco negro que é ser o que todas as suas experiências te transformaram. O pânico de me tornar uma decepção para mais alguém me faz fugir de pessoas fracas, por mais que as ame profundamente. Sou um pacote pesado demais para alguém denso demais, ou de menos. E eu, como alguém hiperbólica, tenho consciência dos arrepios que sinto ao me imaginar sozinha comigo. Auto destruição, ou um vício eterno, quem saberá a resposta?

Talvez, escrevendo, eu esteja em um treinamento para sentir o gosto da plenitude, mas no fundo eu sei que é bem mais complexo do que algumas horas sentada na frente de uma tela confortável. Em algum canto da minha mente, a história de Jane Austen sempre me assustará. A mulher que foi incrível, porém sozinha. Quando eu era mais nova, me pegava pensando o que eu iria preferir: uma vida cheia de sucessos, ou a intensidade do amor? Quanto mais cresço, mais conheço a resposta. Mesmo que eu fale a língua dos críticos e dos leitores, sem amor, nada serei. Fazendo de tudo que deixo por aí, fragmentos. Fragmentos do nada. Não que eu me ache alguém tão brilhante como a autora, mas conhecendo a vida, não custaria nada me deixar mal sucedida tanto em um lado, quanto no outro. Pessimista ou traumatizada, perdi o fio da meada com o cheiro de nescau quentinho que me arranca de mim, felizmente, novamente.