Perfect.

Quando eu penso na gente, algumas verdades incontestáveis passam pelos meus perturbados e ansiosos neurônios:

  1. Era muito mais fácil quando eu achava que saberia o que fazer em todas as situações e te guiaria independentemente da situação. Achava que eu, por te amar tanto e ter tantos sonhos em relação ao amor, saberia e estaria sempre pronta para te ajudar a cuidar do nosso amor aí dentro.
  2. Admito que tem alguns momentos que despertam sensações em mim que eu jamais poderia cogitar, fazendo com que eu realmente não seja quem achava que seria. Não, eu as vezes preciso que você guie, ou que os dois esperem o tempo mostrar o melhor caminho. Eu que preciso aprender a cuidar, eu que preciso aprender a viver o nosso amor diariamente.
  3. As sensações novas que aparecem nem sempre são ruins, mas sempre são surpreendentes. Eu não sabia que te vendo dormir, te acharia um ser precioso, teimoso e que isso me deixaria pensando bem mais em você do que em mim em várias situações não usuais. Também não sabia que a consequência das nossas milhares de brigas seria um silêncio inconveniente que nasce na minha garganta e me faz não ser tão dócil, gentil ou confiante como gostaria em alguns momentos essenciais. Com isso, me veio o surpreendente sentimento de que talvez você não entenda a falta de voz momentânea ou a falta de atitudes fofinhas/minhas; e daí que talvez eu não seja suficiente para continuar te mantendo aqui, nos mantendo aqui. Em compensação, descobri que consigo superar muita coisa. Descobri que seu sorriso realmente consegue me fazer curtir o momento, e apenas ele, dando tempo para que a gente se acerte na cena seguinte.
  4. A gente tem descoberto formas melhor de fazermos as pazes. E de discordarmos também.
  5. Eu tenho um medo absurdo de ter te conhecido tão cedo.
  6. Eu sou muito grata por viver os melhores anos da minha vida com você ali, me apoiando, me incentivando, me fazendo rir.
  7. Eu sou metade da mulher que gostaria de ser com você, mas a cada dia que passa… Sou um pouquinho mais.
  8. Sinto que tudo que me machucou até hoje se dissipa a cada dia que você simplesmente se dá uma chance para acreditar um pouco mais na gente. Ou seja…
  9. Eu sempre disse que eu seria sua força, mas nunca soube que você seria a minha e isso eu descobri empiricamente. Não quando você tenta ser objetivo e pragmático, mas quando você simplesmente me coloca ali do seu lado enquanto você faz algo importante. Me deixa ali, importando, existindo, sendo sua e você pleno e tranquilo com isso. Feliz por isso. Isso me fez aguentar as piores noites, e sonhar com os melhores dias. Essa sensação… É indescritível.
  10. Aprendi a amar a sua família de verdade, da mesma forma que amo a minha, e sou muito feliz por te-los.
  11. Você não é tão possessivo quanto eu gostaria que fosse, e eu me sinto péssima por isso. Mas tudo bem, e essa é a novidade. Eu realmente acho que tudo bem.
  12. Eu tô sendo reconquistada pela ideia de nós dois juntos para sempre e sempre. Ela que me levou naquela caninha, ela que me fez dar a mão pra você no shopping tijuca e receber um sustinho de reação. E ela que me fez escrever isso aqui. A ideia de nós dois juntos era linda, e embora tenha deixado de ser atraente quando eu me senti um lixo pra você, tem voltado a vibrar aqui dentro e me fazer sonhar com você antes de dormir, dormindo e depois de acordar.
  13. Desrespeito dói mais do que ciúmes.
  14. Preciso muito que a gente se proponha a ser diferente dos nossos pais… Que a gente se apaixone perdidamente, continue apaixonado, se admire, e não brigue de maneira suja. Não sei se não brigaremos nunca, mas tenho certeza que eu não quero fazer isso da pior maneira. Se for pra discordar, que seja entre um abraço e outro. E eu sei que parece utopia depois do furacão que sentimos… Mas Eduardo Galeano dizia que a utopia existe para que caminhemos em direção ao horizonte, ou seja, ela, e não paremos nunca de seguir para frente, de evoluirmos. Se chegaremos lá, não sei, mas é o que eu quero. Eu te amo. Eu só preciso que você tenha menos medo dos dias em que falharemos, porque eu te prometo que se você me amar, vai ser cada vez menor o impacto. Vamos falar a mesma língua. Vamos nos amar e provar isso.
  15. Eu te amo. Não é porque namorar é legal, não é porque você é gato, não é porque você tem um pacote muito gostoso em volta de você. Eu te amo porque você me faz sentir em casa com seu senso de humor, seu senso de aventura, sua vontade de viver. Isso ninguém vai roubar nunca de você, e é por isso que eu te amo. Para sempre.

Aqui, liberdade liberdade.

Eu não sei direito porque eu decidi vir aqui(de novo), mas eu costumava escrever praticamente todos os dias quando era mais nova e isso sempre me fez sentir como se meu mundo coubesse em algum lugar.

Bom…

A gente acha que trocar energias e conhecer pessoas diferentes desde a pré adolescência são atos completamente inocentes e tranquilos, né? Coisa mais normal é ter namoradinho aos 6 anos, 8 anos, 10 anos. Aí com 14, porque eu comecei tarde mesmo, a gente começa a se relacionar física e emocionalmente de verdade.

Parece tarde, mas eu acho que foi a coisa mais errada, precoce e idiota que eu fiz até hoje.

Afinal…

As coisas dão errado. Não interessa como ou o motivo, simplesmente dão. Aos 16 ou 18 você conhece outra pessoa, sendo realista mais de uma. Vai começar antes mesmo da maioridade o hábito de ficar, ficar, ficar e descobrir que a vida pode ser só isso se você quiser. F i c a r. Beija aqui, beija ali, aprende uns troço com o fulano que você nem sabe se tem aquele nome mesmo.

Você só nota que tem alguma coisa estranha quando bebe mais do que qualquer ser humano deveria, e não consegue entender porque se sente infeliz mesmo tendo tudo, absolutamente tudo para ser feliz. Talvez você não beba tanto, estamos juntos nessa. Mas você faz alguma coisa, não se engane. Todos fazemos.

Eu fico na defensiva.

Não só tenho uma postura, eu vivo nela. Quase o tempo todo. Eu não me desligo do mundo ao optar por beber, eu me ligo até demais.

A ansiedade me corrompe.

Mas por que? O que um beijo aos 14 fez comigo?

Bom, a questão nunca é o episódio limitado. Nunca. Não foi o beijo, mas o contexto do motivo pelo qual eu esperei tanto para finalmente beijar alguém. Aquele papo da vida ser só ficar e ser ficada? Não fazia IDEIA!

A questão que me traz uma ansiedade ferrada é que desde o primeiro namoradinho fui criada dentro de uma perspectiva onde seres humanos são universos especiais que precisam ser protegidos, amados e cuidados. Seja gentil, seja amável, não minta, não use, não brigue. Converse.

Aí eu descobri em determinado momento que 60% das pessoas não pensam assim. Adeus, primeiro namorado, segundo, terceiro.  E dentro do grupo de 40%, metade do povo é hipócrita/ fraco mental e espiritualmente. Eles conhecem o discurso, a dinâmica, acham que esse é o certo, mas agridem psicologicamente, agridem fisicamente, brigam por qualquer coisa, traem, são cruéis e te usam.

Pelos números, tem grandes probabilidades de eu nunca ter feito nada de errado com ninguém e acabar ferida quando eu mais precisar de amor e compreensão. Assim como você. Assim como um grupo de amigas minhas e o grupo de amigas delas.

Eu não estaria escrevendo isso se eu não fosse cercada de pessoas que se entopem de remédios para amortecer sentimentos difíceis de lidar, e que só tem esses sentimentos difíceis de lidar porque o mundo é repleto de pessoas irresponsáveis que só sabem usar umas às outras.

Amizades, namoros, familiares, conhecidos… A maioria das relações se dão por conveniência.

Como que se envolver com o maior número de pessoas possível, desde cedo, pode fazer bem? E quando eu digo se envolver, digo ficar. Porque mesmo quem fica só por ficar na inocência da vida mecânica, absorve uma objetificação inconsciente.

Eu realmente decidi ir no caminho contrário, não ceder, acreditar que relacionamentos são trocas de energias, experiências, expectativas e que eu quero demais acompanhar a jornada de outra pessoa sendo a melhor influência possível. Não acreditava na objetificação como escolha possível de vida. Se eu não faço, não passo por isso, valeu mantra! Isso tudo sem me ligar que apesar de ser tranquila, sou a defensiva em forma de gente.

Notei isso quando estávamos eu e uma amiga. Ela estava sofrendo porque chegou em uma fase, após tantos babacas, em que ela é incapaz de aceitar ou agir naturalmente quando encontra alguém que parece ser diferente.

Eu diagnostiquei bem canceriana: ela estava com buracos emocionais. Ferida, com medo de ser usada, com medo de acreditar e ser a famosa “trouxa”, sofrendo de verdade porque apesar da normalidade que o garoto trazia, ele ainda era um cara e ela ainda era ela. E nos últimos anos, essa combinação foi suficiente para trazer sofrimento.

Então, o ascendente em capricórnio controlou a situação e eu obviamente defendi que se ela quisesse, ela ia vencer essa fase de lutar contra os efeitos colaterais dessa sociedade líquida.

Aí bateu o Saturno em Peixes.

Eu sou ela. Assim como ela representa todas as minhas outras amigas e amigos. Nós todos estamos a todo momento tentando lutar contra os efeitos colaterais de se viver em uma sociedade que objetifica TODOS e TUDO. Meu jeitinho na defensiva? Não é coincidência e se eu não controlar, vou acabar limitada seriamente pelos meus medos e bobeiras.

Tudo bem que eu sempre soube desse lado negativo e inseguro que vem com o pensamento do mundo ser um lugar hostil com pessoas que se acham donas de objetos…

Taaaanto sei que tento ser perfeita em quase tudo, tento compensar minhas inseguranças com carinho e dedicação. Tento ser um ser humano que valha a pena por 3839 motivos, já que internamente sinto que não mereço mais do que 5 minutos de ninguém. E sendo bem honesta, esse plano parecia perfeito até outro dia.

Mas aí você nota que tudo que as pessoas precisam de você é justamente o que é tão difícil fazer; e se você quer ter uma amizade de verdade, um namoro real, uma relação plena com qualquer ser humano, você PRECISA acreditar que não está sendo objetificado.

Elas até aceitam cuidados, sua linguagem do amor, sorrisos, mas isso tudo é bônus. O que realmente querem e precisam é que você enfrente seus demônios. Você precisa acreditar nessa relação e deixar os efeitos colaterais do lixo que a humanidade se tornou lá fora.

Loucura.

Loucura também é amar e se permitir ser amado, acreditar que é amado. E magoado.

Porque dói, viu? Superar efeitos colaterais de todas as merdas que você já viu e continua vendo, é foda. E quando tem a pressão de outra pessoa precisar que você faça isso… Desiste. Vai doer muito.

MAS essa ferida sara. Você amadurece. E ainda por cima fica devendo um picolé de chocolate para esse indivíduo do bem que queria que você fosse livre. Livre de todo mal que tem por aí e que não é sua culpa. Doeu ouvir? Nhé, dói todos os dias.

Mas amar alguém não é só falar o que é fácil de escutar.

E com isso… todo mundo se magoa. Você magoa alguém com toda certeza, afinal, até o ato de ficar na defensiva por questão de sobrevivência machuca. Eu devo magoar um bando inteiro, sem dó nem piedade, porque honestamente eu até outro dia preferi não conhecer ninguém do que acabar magoada.

Mas isso é errado.

Isso é entender tudo errado.

Nós seremos destroçados. É verdade, nenhum conhecimento mágico pode te salvar de ser magoado pelo menos umas duas vezes ao ano. Momentos de energia em baixa existem para que nós aprendamos alguma coisa, para que nós nos tornemos pessoas melhores.

Isso não significa que você vai ser objetificada. Quando um cara transa contigo e não lembra nem o seu nome, ou não fala contigo como se você fosse… ALÔ? Algo além da vulva do dia anterior… Aí ele te objetificou. E isso traumatiza mesmo, chuta que você pode chutar e sofrer. É normal ter medo de que isso aconteça de novo, é normal ter efeitos colaterais.

Mas você precisa aceitar que vai ser magoada porque todas as relações humanas se dão entre seres completamente falhos, que amarão com todas as forças e ainda assim terão uma dificuldade imensa de não transbordar e acabarão por ferir alguém quando estiverem sob pressão. Isso não significa que vai ser traída, porque trair é objetificar. Nem significa que ele vai te esconder coisas, jogar o famoso “joguinho”, afinal, isso é objetificar também.

Mas apesar de enxergar a gente como ser humano, nossas sensibilidades, vulnerabilidades e facetas diversas, vai ter o dia do esporro porque você precisa crescer. Precisa gastar menos dinheiro. Precisa se alimentar melhor. Precisa parar de ser tão grossa. Precisa respeitar mais os seres humanos que te cercam. Precisa ser forte. Precisa entender a diferença entre amor e posse. Precisa dar espaço.

Isso tudo gera desconforto, dói, se o cara não for delicado pode até ferir de verdade. Auto-estima é a coisa mais frágil depois do ego, e olha, ambos vão junto no pacote “tocou na minha imperfeição”.

Não vai ser nada anormal, prejudicial ou cruel. Isso é viver, trocar experiências, evoluir com a ajuda do outro e, as vezes, pela dor. Porque se você cismar de chamar de sensibilidade o que é ser uma garota mimada, você vai sofrer o dobro.

Apesar da linha tênue, porque tudo que magoa é colocado no mesmo pacote, ser objetificada é algo bem menos comum de acontecer se você manter o amor próprio como primeiro amor. E eu falo no feminino, mas serve pros homens também. Já vivi de amigos inseguros que sofriam com namoradas que, sinceramente, precisavam falar tudo que falavam. E também já vi os que eram feitos de idiotas e aceitavam, porque achavam que se eles também fizessem a garota de corna, estavam combinados.

Bom, não. Se você entrar pro bonde que objetifica, o karma cobra e você vai acordar sem absolutamente nada um dia. Infelizmente vai descobrir que se você não tiver sua honra e dignidade, você não é ninguém, e nem tem ninguém.

Eu só queria desabafar e dividir comigo mesma aqui nesse lugar que me acompanha há 2 anos que eu não sou perfeita e sou alguém que PRECISA sair da defensiva. Precisa entender que não vai ser objetificada, mas que pode ter medo disso. O que não pode é exigir não ser magoada, e agir como se a mágoa fosse o fim do relacionamento, e não uma prova de que vocês finalmente estão se lapidando e crescendo juntos.

Eu odeio essas séries de drama onde a galera só observa a realidade e critica sem nada além do choque. Eu escrevo para além da exposição. Quero me ajudar.

Então, primeiro eu reli o texto e senti orgulho de abrir mão de ser uma garota mimada para aceitar que mereço mais liberdade do que o medo pode oferecer. E em seguida lembrei do melhor conselho que eu já recebi: “se feche para o que for ruim. seja forte”.

Se a objetificação e a possibilidade de você ser usada te faz mal, deixa o mês passado e todas as dores que vieram com ele lá no passado. Se fecha para toda influência negativa do trauma. Seja forte. Hoje é outro dia, esse é outro cara. Essa é você, mas uma versão muito mais plena e corajosa. Fecha a porta e dá a chave só para os que valerem a pena. Mas para esse grupo aí, você relaxa e tenta – cada dia mais – agir naturalmente. Ou você confia e dá a chave, ou não.

Deu a chave?

Enfrente seus demônios. Cresça. Deixe os efeitos colaterais do trauma no passado. Aqui é amor. Aqui é futuro. Aqui é liberdade.

A vida acontece.

Faz tempo que não venho aqui. Admito não saber se sinto mais saudade de ser a garota que escrevia frequentemente ou se me faz falta o próprio hábito.

Hoje o que me trouxe foi justamente a ausência. As mudanças que fazem com que o presente sempre se transforme em futuro, o fato de que o passado nem sempre vira nostalgia, o sentimento que fica quando você percebe que a vida sempre acontece (até mesmo se fechar os olhos com força e pedir mais cinco minutinhos com voz de choro).

Me veio a sensação de colocar os pés na areia dentro do mar calmo durante a noite, boiar e olhar as estrelas depois de uns goles de vinho. Nunca vi céu tão estrelado, nunca precisei tanto sair da minha própria atmosfera para conseguir respirar como naquele dia. E então, de forma bem masoquista, me vieram como lembrança as conversas que tinha com meu avô sobre a vida. Me veio o cuidado que ele tinha em relação aos meus sentimentos de adolescente da época. Os livros que eram presentes cuidadosos para que eu me transformasse na melhor garota possível, os gritos que revelavam a diferença de idades, de sentimentos, de perspectivas.

A vida não se demora nem mesmo por acaso, né? Ela não esquece do nosso destino e nos permite sentir o gosto apenas do que nos foi reservado. Nem mais, nem menos.

Nessas horas, eu só queria que todos entendessem isso. O mundo teria menos mágoa, menos sofrimento, menos ansiedades.

Hoje eu li sobre como o cérebro é extremamente ansioso e isso significa que ele tem medo de tudo, o tempo todo, para que possamos sobreviver mais e mais. Mas e se a nossa percepção de mundo estiver completamente errada? Não cabe a nós ter esse medo irracional do que nós não temos controle, porque independente do que fizermos, do que sonharmos, do que quisermos, o nosso destino acontecerá. Não cabe a ansiedade de responder aquela mensagem com as palavras perfeitas, ou ele é seu, ou ele é de outra que será muito mais feliz ao lado dele que você. Não cabe a pressão estúpida  que você coloca  em alguém por ela não ter mais tempo para você; cada um precisa viver sua vida e acompanhar cada segundo dos seus próprios acontecimentos e as vezes você não cabe mais ali – e isso não é egoísmo, é timing, é vida.

Eu já fui uma das pessoas mais presentes socialmente que eu já vi alguém conseguir ser, meus pais estão de prova e reclamam dessa minha tendência até hoje. Sempre estive em todos os lugares, cuidando e amando todos. Mas de uns tempos pra cá… Assim como meu tempo com meu avô acabou há 4 anos atrás, meu tempo com muitas pessoas também se mostrou finito. Não pela morte, mas pela vida. Não por tristeza, mas por casualidades que eu sinceramente não consigo lamentar.

Eu tive melhores amigas, incríveis, e que hoje não poderiam estar melhores – mesmo sem mim. Tive amigos também que são os mais incríveis até hoje, cada um do seu jeitinho, cada um da sua forma. Mas a grande questão é que nenhum deles optou por não me ter mais ali, e mesmo que achem que alguém escolheu isso, a vida é bem maior do que isso.

A quantidade de mágoa que eu vejo no coração dos que não conseguem desapegar da ideia de ter o controle de suas próprias vidas é surreal.

Eu fui essa pessoa. Talvez ainda seja em alguns aspectos. Só que a verdade é que ninguém quer magoar ninguém, e definitivamente ninguém escolheria se desfazer de amizades, amores e parentes se pudesse escolher. Mas acontece. E de repente os assuntos se esgotam, os encontros são difíceis, a idade bate na porta. Doenças, batalhas pessoais, propósitos individuais. Cada um com a sua história, cada um com a sua necessidade de ir embora.

Ninguém falou em desfazer amizades, em destruir histórias, mas a gente continua se colocando acima de tudo e de todos.

Eu tive raiva de Deus quando minha bisa e meu avô se foram com alguns meses de diferença. Digo, eu não merecia aquilo, mas minha avó? Ela não poderia passar por isso… Mas passou. E eu também passei. De alguma forma, não tinha a ver com o que nós podíamos aguentar, e sim com o que eles já não conseguiriam.

Se o ser humano consegue questionar o fim da jornada de outra pessoa, que dirá questionar o timing, né?

Quantos namorados não se foram sem fincar estacas em nossos corações com a ideia de que nós preferíamos morrer do que abrir o coração para outro ir embora novamente?

Tudo parece melhor do que aceitar que a vida tem lições irrevogáveis para nos ensinar com cada um que cruza nossos caminhos. Nosso cérebro super ansioso quer evitar isso. Ele sabe que dependendo da nossa força interna, jamais nos recuperaremos. Sabe muito bem que entrar em contato com a lição é uma coisa,  aprende-la e conseguir ser feliz depois do processo são outros 500.

Só que na minha opinião, a única coisa que nos impede de superar o aprendizado difícil é a ideia de que não conseguiremos porque já falhamos no passado. A insegurança criada por não termos feito aquele cara ficar, ou a nossa mãe não se divorciar, ou nosso ente amado não morrer, enfim, insegurança causada por qualquer ato alheio que nós queríamos impedir.

Mas se você entender que ali não te cabia forçar alguém a se adaptar em um destino que não fosse o reservado para a pessoa, e que você tem o seu, maravilhoso para ser vivido, eu acho que é capaz de absorver e fazer qualquer coisa. Qualquer lição do universo, qualquer. Você vai sobreviver. E lutar. Continuar lutando.

Indo para a minha experiência pessoal…

Eu sou a pessoa mais medrosa que eu já vi, na vida, e por isso eu acho super coerente que eu tenha mil auto-defesas e seja ótima nessa história de evitar sofrimento a todo custo. Só que o que eu mais aprendi nos últimos tempos foi que se você tiver que aprender alguma coisa, seus amigos vão sumir e você vai ligar a televisão no canal mais improvável. Você vai ouvir aquele discurso. Ou sua mãe vai achar que deve te dar aquele sermão. Ou ainda, você vai se deparar com uma pasta cheia de memórias alheias e questionar sobre a qualidade das suas. E isso tudo vai doer. Você vai sofrer. Mesmo que não tenha sido pelas mãos daquele cara, ou pela saudade daquela pessoa. Mesmo que Vênus não esteja retrógrado.

Se você precisar absorver aquela ideia, ela vai estar em todos os outdoors possíveis.

Então, por que diabos culpar todos os caras imbecis que aos meus olhos foram perdas de tempo? Por que diabos culpar aquele que me magoou de uma forma inacreditável e foi a primeira pessoa a me fazer entender que existiam pessoas que não se importavam nem um pouco com o fato de que eu sou especial? Aliás, para eles eu não era especial, nem um pouco. Só que em compensação, foi chorando naquela noite em que eu me senti especial como nunca antes na vida, com uma conversa maravilhosa que está desenhada na minha alma até hoje. Por que culpa-lo por ter ido embora, se a pessoa que tinha que ficar era aquela que me fez ter a melhor madrugada possível?

Eu realmente achei que tinha parado de questionar a vida depois que minha bisa faleceu. Ok, demoraram uns meses. Só sei que acordei um dia e entendi que eu não podia fazer absolutamente se estava escrito que eu teria que me acostumar com a ausência deles. Não podia fazer nada se minha melhor amiga era uma completa estranha depois de uns meses longe.

Mas infelizmente não sou perfeita, e questionei de novo em uma bela noite de inverno. Foi a pior noite da minha vida, e acho que desde então eu realmente parei de questionar. O universo ensina. As vezes com um arco íris, as vezes com um evento traumático que vai te fazer menos mimada, mais corajosa, mais forte.

 

Eu aprendi, sabe? Não podemos controlar nada além das nossas próprias reações. Podemos aceitar ou nos apegar ao que nós desejamos e nunca entender o espaço, a ideia, a necessidade alheia.

Podemos existir plenamente e também podemos existir pela metade, sempre perdendo parte de quem nós somos no desgaste emocional que é lutar contra o universo.

E só para finalizar, eu sei que é bonita a ideia de que nós fazemos o nosso próprio destino. Mas isso não soa muito humano? Não soa aquela velha ideia de que o ser humano é maior e melhor do que tudo, inclusive do que o equilíbrio universal?

Eu acho que a ideia de que nós somos donos do nosso próprio destino é deveras mal interpretada. A verdade é que nós somos donos das nossas reações. De como reagimos, de como interpretamos, do que sentimos após recebermos as famosas “bombas”. Ou até mesmo as flores. Você pode escolher ser feliz e grato, e pode também escolher ser exigente e insatisfeito. Pode escolher se superestimar e achar que a pessoa foi embora da sua vida porque não te valorizou o suficiente, ou pode entender que cada um precisa estar exatamente onde está e nem mesmo muito amor para impedir a vida de acontecer. Não tenha mágoa. Ame. Se é tão importante assim, um dia volta.

Seja para vocês tomarem um milkshake na Lagoa, seja dento de um arco-íris te fazendo sentir paz.

 

2 years.

É engraçado tentar colocar em palavras pelo menos alguns meses de histórias tão complicadas quanto nós mesmos somos. Só que eu não consigo evitar, e se você me conhece deveria entender que é assim que eu absorvo e supero tudo que acontece no mundo.

Quando uma garotinha que eu conhecia morreu uns dois meses antes da Copa, assassinada e estuprada pelo padrasto, escrevi para lidar com a dor. De alguma forma precisei desabafar para superar o quanto me senti amargurada por ter que encontrar a família da garota, as irmãs, e perceber que o Estado era tão ausente para aquelas pessoas e tão presente para as que frequentaram o Maracanã na época.

Quando eu terminei com o Victor, escrevi também. Eu fui tão decidida e forte na frente dele, me senti tão aliviada, mas naquela noite eu não consegui superar o quanto tinha sido fácil me desfazer dele e precisei desabafar para deixar aquilo para trás. Para deixar o medo de nunca me envolver verdadeiramente com alguém.

E por último, quando finalmente veio a saudade aparentemente insuperável, escrevi sobre o meu avô. Sobre a minha bisa. Escrevi e me senti esclarecida, me senti bem resolvida.

Eu funciono assim.

A questão é: por que eu demorei tanto para conseguir vir aqui?

E a resposta talvez seja porque eu não acreditei que poderia superar até hoje. De alguma forma, ainda não tinha respostas ou soluções para a tremenda dor que me dava ao encarar você e não te ver ser 100% do garoto que eu me apaixonei. Eu não sabia o que fazer. Porque por um lado, eu entendia tudo que você dizia e queria te fazer feliz, mudar, e por outro me sentia completamente impotente. Como sair de um buraco que eu nem entendia onde estava, ou do que era composto?

Insegurança é um termo perigosamente genérico.

Você se sente um bosta por não me fazer sentir segura, eu sei disso. Mas nem eu entendia como você conseguiria essa façanha até hoje.

Eu percebi duas coisas: a primeira, eu comecei a sentir que tinha direitos sobre você. E a segunda, que você passou de namorado livre e apaixonante para uma “coisa” que eu amava mais do que qualquer coisa. Eu realmente te amei com tudo que tinha aqui dentro e aí dentro, com as coisas boas e as ruins. Entretanto esse amor foi fraco para me impedir de ser egoísta, até hoje.

Iludidos, achamos que encontraríamos a segurança que tanto queríamos em direitos sobre o outro. Eu sei que não fui só eu que fiz isso. Quando a gente tem medo, se apega de acordo com o laço mais forte que nos cerca: o familiar. E o que é o laço familiar senão direitos e deveres perante o Estado? Meus pais devem me proteger, eu tenho direito a isso até os 18 anos, quando me torno emancipada por lei. Eles tem direito de me dizer quando sair, quando entrar, e aqui em casa até mesmo quando falar.

Eu nunca quis reproduzir algo tão doentio quanto achar que eu tinha algum direito ao te manipular com o meu amor. Com te prender, te limitar, te colocar numa bolha. Só que em alguma situações, principalmente no começo, fui dormir me sentindo segura. Quem nunca?

A partir daí, ladeira foi o que não faltou para que nos jogássemos no abismo que é o desencontro. Você queria voar, e eu também queria, mas tinha medo de com isso me tornar alguém ainda mais insegura. Me magoar. Ser abandonada ou algo do tipo.

Eu te amo, e não estaria escrevendo com tanta honestidade se não amasse. Me desculpa? Porque eu honestamente não acho mais que encontrarei segurança em limitações e cercos, mas um dia eu achei.

O momento em que a ficha caiu foi quando eu li o “Olha só, Moreno” e notei quanto sentimento eu tinha quando disse que me senti segura no seu abraço. É isso. Eu só preciso de você do meu lado, seja no dia seguinte, seja na mesma noite, seja pelo menos na mesma semana. Eu só preciso olhar nos seus olhos e te encontrar. Sentir que estou no meu lar, no conforto do meu amor, do cara que jamais me machucaria ou faria algo que pudesse me quebrar em mil pedaços.

Desculpe por me irritar tanto com as garotas. Eu acho que tudo tenha se intensificado porque nesse ano foram tantos estresses, internos e externos, que nós mesmos ficamos ausentes um do outro.

Eu garanto, Lui, com tudo que tem aqui dentro, que eu só preciso me encontrar aí dentro de novo e preciso demais que você se encontre aqui dentro também. Preciso dos nossos abraços, dos nossos suspiros, da nossa vontade de viver juntos. Só preciso me sentir conectada. Essa foi a segurança que me fez entrar de cabeça nessa paixão, nesse amor, e sinceramente é o que tem faltado e nós dois sabemos disso.

Tente ser tão racional e emocional quanto eu. Você não é uma pedra, muito menos alguém muito diferente de mim. Nós somos complementares e compatíveis. Nós somos um oasis no meio do deserto um pro outro e eu só preciso que você fale na mesma língua que eu para sentir o quebra-cabeça finalmente se encaixando.

Nós somos peças de quebra-cabeça, sempre fomos. Tem textos sobre isso, né? E é por isso que eu digo: eu só preciso do seu abraço, do nosso encaixe. Não preciso te limitar, não preciso ficar zangada por saber ou ver você falando com garotas, não preciso ter medo de novas amigas. Se nós formos mesmo conectados, a minha segurança vai estar no seu abraço e não no fato de que você não fala com garotas por minha causa, sabe?

Eu me enganei. Eu achei que o ciúme podia ser causa da minha dor, e não a consequência. Mas quando a gente se perdeu, ele só aumentou e eu sinceramente acho que eu só preciso que você acorde. Que a faculdade vai ser difícil, que o estágio um dia vai ser impossível de conciliar, mas você vai dar um jeito porque nada é impossível para os que tentam e mesmo que seja, você vai ter um ombro amigo (oi) para te ajudar a levantar e tentar de novo no dia seguinte. Eu te amo. Eu quero estar do seu lado, e não me sentir incrivelmente sozinha só porque você está preocupado. Eu sei que você é tão novo quanto eu, então, o que eu peço nesses 2 anos de namoro é que você acredite na força do seu abraço e do seu olhar compreensivo, do seu olhar que me fez gostar mais de mim, e não dos seus gritos que só me fizeram ficar na defensiva e te atacar de diversas formas.

Juro. Meus erros, são meus e eu não vou mais fugir deles, por nós. Porque eu faço isso NA VIDA, e não só com você. É um crescimento pessoal. Mas que a gente entenda que essa não é a causa nem de longe, nem de perto do que aconteceu para acordarmos aqui. A causa nunca é tão óbvia, simples ou unitária.

A gente se perdeu porque viver e equilibrar a faculdade, os amigos, as expectativas, as famílias, as desilusões e o nosso amor, tão rebelde e tão intenso, é uma loucura. A gente só aprende respirando fundo e não desistindo. A gente só aprende quando para de tentar resolver e só observa.

Eu senti falta da segurança que eu tinha no seu abraço, ainda estou sentindo na realidade. Mas a cada dia que passa, tenho mais e mais esperanças. Sinal disso é eu estar escrevendo antes de te dar banoite. Ritual de dias, de meses… E que seja de anos. Porque eu te amo e não quero desistir. Nem de você, nem de mim, nem do nosso amor.

Obrigada por ler. Que esse seja o adubo que o seu coração precisa. O meu só vai andar quando o seu também se mover.

Tinhamo.

Um amor que deu certo.

Na semana passada, dentro de uma das centenas de conversas que tive com uma das minhas amigas mais próximas, trouxemos o tema amoroso para o palco. Entre reflexões e dúvidas, a conclusão foi que a gente só queria mesmo um amor que desse certo. Dito o contexto, peço licença para tomar o papel de protagonista da discussão e colocar em pauta alguns pensamentos que pude construir ao longo desses agitados dias que tem feito meu mês de outubro um dos mais produtivos.

Lá estava eu comendo um pedaço de abacaxi pela primeira vez em 21 anos, quando eu notei que não menti quando disse que queria um amor que desse certo, mas algo precisava ser melhor desenvolvido quanto ao tal “sucesso” especulado. Porque definitivamente não espero aquele comercial de manteiga ou pasta de dente, longe disso. Aliás, quem é que espera? Algo naqueles sorrisos e naquela paz de 20 segundos de comercial me faz ter um rebuliço interno sempre que vejo. Não ligo para o exterior, com o que as pessoas vão assistir do meu relacionamento. Sério, eu definitivamente não consigo gastar mais de um minuto pensando nisso.

Dessa forma, e nesse pulo do gato, comecei a anotar mentalmente o que eu esperava sentir quando um amor desse certo. E até que foi fácil, viu? Aliás, descomplicado. Fácil nunca é. Depois de presenciar amigas sofrendo, pessoas sendo indecisas e mesquinhas, depois de ler tantos textos sobre a modernidade líquida e de me sentir tão diferente de todos e tudo, eu me deparei com uma lista de um único item. A velha, boa e necessária segurança.

Parece bobo, simples, mas não. Não aos meus olhos.

Por exemplo, minha avó comentou que não tinha melhor forma de proteger do que casar com uma pessoa. Diferente de uns coléricos que me cercam, não me senti irritada, o pensamento dela é totalmente coerente com a legislação penal da época que ainda classificava mulheres entre as honestas e as outras. Ela não é tão mutável em suas opiniões quanto eu, que mesmo só tendo vivido 21 anos já me vi com mais de cinco, seis pontos de vista diferentes. Agradeçam ou reclamem ao meu mapa astral.

Bom, como já foi acertado, com essa alma inquieta, segurança não é sinônimo de casamento nem que eu tente. Não é por desconstrução via militância, é só por empiricamente notar que muitas mulheres se casam e são abandonadas diante de todos os problemas  que enfrentam individualmente. É só o marido não ver sentido na situação para que, subitamente, ela comece a acordar, tomar café, almoçar e ir dormir sozinha. Fazer amor sozinha. Quando nós enxergamos um monstro no quarto e o cara do nosso lado cisma em simplesmente ignorar esse fato, não dá para sentir nada além de insegurança, medo, decepção e um pacote que eu tô bem longe de querer comprar.

Vejam bem, eu quase empaquei nesse ponto. A questão é que eu quero me casar. Acredito em um compromisso monogâmico, acredito que no meu caso segurança vai ser sinônimo de casamento. Afinal, sem segurança, eu não caso. Sou nem doida.

Ok? Ok. Corta pro fato de que eu descobri que eu não sou doida de fazer absolutamente nada sem segurança.

Não apresento a minha família com expectativas, não misturo amigos, não escrevo cartas, não abro meu coração, não divido minhas músicas, não dou aquele olhar 43 que dá uma visão em perspectiva da minha alma. Eu nem sequer dou minha sinceridade completa.

Se eu dei, e isso vai soar ridiculamente cheio de segundas intenções, me senti segura. Se eu me senti segura, tive um amor que deu certo.

Isso, meus amigos, foi o que eu chamo de um tiro no escuro. Só ouvi o barulho, vi o clarão, não sei de onde veio, mas aceitei.

Eu estava reclamando com essa minha amiga que eu só queria um amor que desse certo, como se um dia fosse receber uma confirmação divina: “ei, seu amor deu certo, meus parabéns, toma o selo do amor colgate”, mas fui induzida a esquecer há uns meses – por força do hábito de ser uma garota escaldada – o quão segura eu estou.

Senti ansiedade, tristeza, botei o carro na frente dos bois, mas esqueci que segurança tem a ver com o quanto ele me escuta quando minhas crises vem na madrugada, e não com o que eu acho que ele pensa de determinada pessoa. Segurança é saber que se eu precisar a ponto de falar, ele vai estar lá, e não com o quanto ele vai adivinhar meus pensamentos. Segurança não é o ato de não errar, mas saber que independentemente da quantidade de erros, nós vamos recomeçar, e eu nunca vou estar sozinha num beco sem saída.

Ele nunca vai me deixar sozinha com o monstro. Ele vai me mostrar que o bicho não existe, vai rir, vai descontrair, vai me lembrar quantas vezes eu precisar, de diferentes formas. Ou vai mata-lo junto comigo, caso a existência for comprovada. Sozinha, não vou ficar. Aliás, sozinha nunca fiquei.

Meu amor que deu certo é o meu amor, pelo simples fato de que eu nunca teria chamado ele de meu amor e dado todo o meu coração de bandeja se ele não realmente fosse meu abrigo, meu porto seguro e meu tudo. Sem receber confirmações posteriores, sem me perguntar diariamente diante de tragédias alheias, as vezes a gente fica cega e não enxerga a nobreza dos próprios sentimentos.

Quem fica, ouve, chora, sorri e ri, ama. Amou, tá amado. Sem mais. Sem menos.

 

 

Cheeseburger sem molho.

Entre suspiros e devaneios, admito: já não sei ser tão comercial. Não sei fantasiar ao ponto de transformar meus sentimentos em algo que qualquer zé da esquina se identificaria. Deixei o ato de tentar encaixar o mundo em tudo que sentia, finalmente me vejo limitada somente à mim mesma. Meu próprio infinito se impôs e me fez rejeitar a ideia de abandonar minha singularidade.

Já faz tempo que eu não sei o que é ouvir que eles me entendem, ou que sabem exatamente o que eu estou sentindo. De alguma forma, eu sou a pessoa que consegue entender todos, inclusive a mim mesma, mas que é mal interpretada quase todos os dias. Aos poucos me vi desistindo de buscar alívio em conselhos, passei a me agarrar ao fato de que se eu pudesse ajudar, se eu pudesse estar ali pelo menos para que eles se sentissem menos sozinhos, eu me sentiria por tabela.

Mesmo que, no fundo, eu seja um cheeseburger sem molho do Mcdonalds. Mesmo que eu destoe da normalidade. Mesmo que eu sinta insatisfações do mais súbito nada, mesmo que eu precise ficar sozinha, mesmo que eu me canse de todos e de tudo com uma rapidez maior do que o saudável. Preciso cortar o cabelo, preciso pintar o cabelo, preciso ver lugares novos, preciso ler coisas diferentes, preciso estar em contato com o quanto o mundo é maior do que o meu cotidiano constantemente sufocante.

Com o tempo notei que não adianta eu escrever textos fofos e me parecer tanto com eles se eu terei essas noites em que eu não vou me distrair com nada, não vou querer ninguém, não vou estar pronta, e na verdade eu só vou querer encarar essas letras e desabafar sobre como é ser alguém que não tem o que é preciso para ser completamente normal. Não que eu não seja fofa, eu sou. Mas eu sou mais do que isso. Eu extrapolo barreiras. Eu ultrapasso os limites. Eu não quero uma história bonita, eu quero não me sentir sozinha quando estiver do lado de quem eu decidir estar. Eu quero o pacote completo da vida, inclusive as madrugadas românticas e jantares fofos, mas preciso com todas as forças dos olhares, aliás, daquele olhar. Do olhar que vai enxergar em mim o quão anormal eu sou, que nunca vai esperar que eu seja diferente do que sou, que vai respeitar meus medos, minhas frustrações, meus sonhos, meus desejos. Eu preciso do olhar que vai me proteger da maldade do mundo, do esquecimento, da ausência. Eu preciso do olhar que vai ver em mim mais do que uma garota potencialmente romântica e profunda, sabe? Eu sou um cheeseburger sem molho do Mcdonalds. Sou um pedido especial. Um ponto fora da curva. Algo não convencional, não tradicional, algo diferente. Eu não consigo engolir a vida muitas e muitas vezes. Eu quero mais do que as pessoas normais querem, e muito menos do que elas pedem também. Eu sou uma contradição. Sou um nó. Sou a garota que demora pra se achar quando se perde, e costuma se perder sempre que precisa. Não fujo de mim, mas as vezes me esqueço. Não consigo descomplicar.

Não consigo traduzir minha própria alma para desconhecidos. Ou você me lê, ou passa reto. Ou você tem o olhar, ou eu não me encaixo e talvez jamais me encaixe.

Eu já fui absurdamente comercial, já fui muito normal para atrair pessoas, não me sentir sozinha de madrugada, ter com quem conversar de vez em quando e etc. Só que hoje, de repente, eu notei como as únicas pessoas que estão na minha vida me chamam de doida desde que eu tenho 10 anos, invocam minhas diferenças com um sorriso no rosto, me fazem lembrar que eles não me entendem de jeito nenhum, mas que… Apesar disso… Por eu conseguir entende-los, por eles conseguirem me aceitar, eles estão aqui quando todos os que esperam meus movimentos robóticos se foram. Eu sorri me sentindo parte daquele grupo hoje. Eles me lembraram que eu posso ser totalmente diferente, mas isso nunca fez eles me amarem menos, pelo contrário. Eles tem o olhar. E de alguma forma, acho que foram eles que me mantiveram aqui dentro, intacta, por tanto tempo. Sem molho, não tradicional, sem tentar me encaixar – pelo menos com eles. E que delícia… Alguma coisa deu certo, e se foi assim, que eu continue tendo força para ser cada vez menos algo que não sou, e cada vez mais o que o mundo inteiro rejeita, mas uma minoria está disposta a abraçar.

 

Little Hell.

Eu não preciso de muita coisa, sabe? Ouvindo aquela música de novo eu notei uma coisa meio cômica, meio trágica. O difícil aqui dentro tem muito mais do que eu nem sequer tenho noção do que de coisas que eu poderia tentar te avisar.

Só não menospreza, viu? O alertável é bobo, mas ainda faz parte de mim. Por exemplo, odeio gente desanimada quando a noite está só começando, minha síndrome de adolescente eterna. Prefiro ficar de amorzinho do que qualquer outra coisa, mas não tenho muito jeito para gestos afetivos. Não tenho muito de jeitosa, aliás. Dois pés esquerdos, nem o waze me ajuda quanto estou em outro país/cidade, nunca sei se dou doisbeijinhos-umbeijinho-trêsbeijinhos-apertodemão quando conheço alguém. Eu odeio discutir com pessoas mais velhas, odeio discutir sem ter lugar objetivo saudável ou subjetivo doido para chegar. Tenho mania de cantar sozinha, se já cantei pra você, sinta-se especial. Se não, bom, você fica me devendo uma. Sei tocar violão, mas apreciei ontem a noite que mal consigo tocar Jota Quest no ritmo certo. Ah, odeio Jota Quest. Gosto de Guns, gosto de The Kooks, mas se quiser me dar paz, opte por Exaltassamba. Achei que nunca gostaria de FalaMansa, hoje eu escuto todo dia e sempre me faz sorrir. Só as melhores pessoas apreciam um bom xote. Falando em xote, passei da fase dos shots. Descobri isso na antepenúltima vez que saí. O fato de que saí para fazer a mesma coisa duas vezes após a descoberta diz muito sobre mim: dificilmente digo não se vai causar dor de cabeça. Mudar o roteiro de qualquer coisa por mim? Nem que me paguem pra ser chata desse jeito. Se bem que… Se o programa é São Salvador, me pula. Finge que não me viu. Cria de buxixo não tolera aquela fumaceira, desculpa. Desce mais uma torre, que aqui temos uma menina que aprendeu a gostar de cerveja como uma mulher aprende a gostar de vinhos. Sinto que serei uma menina eterna. Eu detesto a ideia de imortalidade tanto quanto detesto a ideia da mortalidade. Complexo? Espere para eu soltar minhas explicações sobre as anormalidades que surgem no dia a dia, tenho um ponto de vista muito abrangente sobre tudo. Minhas hipóteses raramente caem sobre o óbvio, a vida é menos previsível do que achamos.

E sim, apesar de tudo, me considero imprevisível e é exatamente essa característica que sempre me impediu de imaginar algum corajoso que ficasse mais de um aniversário do meu lado. Não adianta, eu sei no fundo do meu coração que nem o primeiro pedaço, nem o desejo ao soprar as velinhas, nem mesmo o sorriso-de-sempre da minha avó segurará alguém caso algo aqui dentro não mude.

Acho que sou imprevisível porque no fundo tenho medo de seguir o óbvio, mesmo inconscientemente, e ficar vulnerável. Se ninguém souber o que vou sentir e querer no mês que vem, quem sabe se torne mais difícil me magoar. Me pegar naquele momento mais apaixonada por ele do que os barrenses pela linha 4 do metrô, e créu! Oportunidade perfeita para me contar que os sonhos dele não se cruzam tanto assim com os meus, hora certa de me falar que conheceu o (outro) amor da vida, chance de me fazer ver que na realidade ele precisa de espaço de tudo e todos. Isso sempre acontece, né? Por que comigo seria diferente se eu não fosse diferente?

E me viciei nisso. Na quebra de expectativa. Mesmo que isso me privasse do verdadeiro amor, mesmo que isso me roubasse o ar em algumas crises de não ver sentido nenhum na existência. Que loucura, né? A gente prefere evitar “a mágoa de amar sozinhos”, mas sai com aqueles amigos de festa mais vazios que o nosso copo na metade da noite. A gente prefere evitar a ferida no coração e por isso enfeita e disfarça o vazio que fica bem mais feio do que uma cicatriz ficaria.

E pensando nisso… Eu engoli em seco no meio da madrugada. Eu sempre fui a adolescente a favor de cicatrizes, apaixonada e sonhadora com a possibilidade de viver um grande amor. Se tivesse cicatriz, e daí? Não tem nada mais bonito do que a prova de que você se arriscou em algo que a maioria das pessoas nunca vai ter nem chance de ver com os próprios olhos.

Eu era essa garota. Juro que era. Procura aí no blog, eu juro que era. Deve ter foto com os brilhin nos olhos.

Sinto muito, eu de 2012. Te decepcionei. Me tornei a ridícula imprevisível que mal se entende, mal se conhece, mal se entrega e é capaz de não conseguir enxergar um palmo a frente do rosto tamanha a falta de prática de parar e dar a cara a tapa. Aprendi a fugir, sei lá com quem, síndrome de personagem dramática. Que pena, porque justamente sempre fui muito mais a garota que olha feio pro babaca que me canta na Central do que a que corre. Sempre fui muito mais corajosa burra do que calculista precavida. Mas hoje… Pelo visto… Sou uma fraude. Minha metamorfose me trouxe aqui: uma garota que sonha em segredo com aquele amor inacreditável, mas que tem uma dificuldade absurda de se entregar.

Veja bem, meu bem, eu não sei exatamente se te ajudo ou te atraso te detalhando especificamente isso sobre mim. Deve dar a impressão de que sou amável, no fundo, quando na verdade eu sou quase impossível mesmo. Eu tenho um passado, tenho meus medos, tenho minhas convicções… Como ultrapassar tudo intacto? Não tem como. Aliás…

É quase impossível me amar de coração inteiro disposto e sonhador, mas é ao quase que eu me agarro todos os dias antes de dormir. Acho que o segredo é que intacto ninguém nasceu para ficar. A gente só precisa saber escolher por quem vai se meter na selva, por quem vai se arriscar a andar sem waze, por quem as cicatrizes valerão a pena quando chegar o tempo da cadeira de balanço no sol das 9h.

Não que eu saiba de alguma coisa. Eu só torço, do fundo do meu quebradiço coração, para que a minha teoria faça sentido e nos livre de um possível Little Hell.