A vida acontece.

Faz tempo que não venho aqui. Admito não saber se sinto mais saudade de ser a garota que escrevia frequentemente ou se me faz falta o próprio hábito.

Hoje o que me trouxe foi justamente a ausência. As mudanças que fazem com que o presente sempre se transforme em futuro, o fato de que o passado nem sempre vira nostalgia, o sentimento que fica quando você percebe que a vida sempre acontece (até mesmo se fechar os olhos com força e pedir mais cinco minutinhos com voz de choro).

Me veio a sensação de colocar os pés na areia dentro do mar calmo durante a noite, boiar e olhar as estrelas depois de uns goles de vinho. Nunca vi céu tão estrelado, nunca precisei tanto sair da minha própria atmosfera para conseguir respirar como naquele dia. E então, de forma bem masoquista, me vieram como lembrança as conversas que tinha com meu avô sobre a vida. Me veio o cuidado que ele tinha em relação aos meus sentimentos de adolescente da época. Os livros que eram presentes cuidadosos para que eu me transformasse na melhor garota possível, os gritos que revelavam a diferença de idades, de sentimentos, de perspectivas.

A vida não se demora nem mesmo por acaso, né? Ela não esquece do nosso destino e nos permite sentir o gosto apenas do que nos foi reservado. Nem mais, nem menos.

Nessas horas, eu só queria que todos entendessem isso. O mundo teria menos mágoa, menos sofrimento, menos ansiedades.

Hoje eu li sobre como o cérebro é extremamente ansioso e isso significa que ele tem medo de tudo, o tempo todo, para que possamos sobreviver mais e mais. Mas e se a nossa percepção de mundo estiver completamente errada? Não cabe a nós ter esse medo irracional do que nós não temos controle, porque independente do que fizermos, do que sonharmos, do que quisermos, o nosso destino acontecerá. Não cabe a ansiedade de responder aquela mensagem com as palavras perfeitas, ou ele é seu, ou ele é de outra que será muito mais feliz ao lado dele que você. Não cabe a pressão estúpida  que você coloca  em alguém por ela não ter mais tempo para você; cada um precisa viver sua vida e acompanhar cada segundo dos seus próprios acontecimentos e as vezes você não cabe mais ali – e isso não é egoísmo, é timing, é vida.

Eu já fui uma das pessoas mais presentes socialmente que eu já vi alguém conseguir ser, meus pais estão de prova e reclamam dessa minha tendência até hoje. Sempre estive em todos os lugares, cuidando e amando todos. Mas de uns tempos pra cá… Assim como meu tempo com meu avô acabou há 4 anos atrás, meu tempo com muitas pessoas também se mostrou finito. Não pela morte, mas pela vida. Não por tristeza, mas por casualidades que eu sinceramente não consigo lamentar.

Eu tive melhores amigas, incríveis, e que hoje não poderiam estar melhores – mesmo sem mim. Tive amigos também que são os mais incríveis até hoje, cada um do seu jeitinho, cada um da sua forma. Mas a grande questão é que nenhum deles optou por não me ter mais ali, e mesmo que achem que alguém escolheu isso, a vida é bem maior do que isso.

A quantidade de mágoa que eu vejo no coração dos que não conseguem desapegar da ideia de ter o controle de suas próprias vidas é surreal.

Eu fui essa pessoa. Talvez ainda seja em alguns aspectos. Só que a verdade é que ninguém quer magoar ninguém, e definitivamente ninguém escolheria se desfazer de amizades, amores e parentes se pudesse escolher. Mas acontece. E de repente os assuntos se esgotam, os encontros são difíceis, a idade bate na porta. Doenças, batalhas pessoais, propósitos individuais. Cada um com a sua história, cada um com a sua necessidade de ir embora.

Ninguém falou em desfazer amizades, em destruir histórias, mas a gente continua se colocando acima de tudo e de todos.

Eu tive raiva de Deus quando minha bisa e meu avô se foram com alguns meses de diferença. Digo, eu não merecia aquilo, mas minha avó? Ela não poderia passar por isso… Mas passou. E eu também passei. De alguma forma, não tinha a ver com o que nós podíamos aguentar, e sim com o que eles já não conseguiriam.

Se o ser humano consegue questionar o fim da jornada de outra pessoa, que dirá questionar o timing, né?

Quantos namorados não se foram sem fincar estacas em nossos corações com a ideia de que nós preferíamos morrer do que abrir o coração para outro ir embora novamente?

Tudo parece melhor do que aceitar que a vida tem lições irrevogáveis para nos ensinar com cada um que cruza nossos caminhos. Nosso cérebro super ansioso quer evitar isso. Ele sabe que dependendo da nossa força interna, jamais nos recuperaremos. Sabe muito bem que entrar em contato com a lição é uma coisa,  aprende-la e conseguir ser feliz depois do processo são outros 500.

Só que na minha opinião, a única coisa que nos impede de superar o aprendizado difícil é a ideia de que não conseguiremos porque já falhamos no passado. A insegurança criada por não termos feito aquele cara ficar, ou a nossa mãe não se divorciar, ou nosso ente amado não morrer, enfim, insegurança causada por qualquer ato alheio que nós queríamos impedir.

Mas se você entender que ali não te cabia forçar alguém a se adaptar em um destino que não fosse o reservado para a pessoa, e que você tem o seu, maravilhoso para ser vivido, eu acho que é capaz de absorver e fazer qualquer coisa. Qualquer lição do universo, qualquer. Você vai sobreviver. E lutar. Continuar lutando.

Indo para a minha experiência pessoal…

Eu sou a pessoa mais medrosa que eu já vi, na vida, e por isso eu acho super coerente que eu tenha mil auto-defesas e seja ótima nessa história de evitar sofrimento a todo custo. Só que o que eu mais aprendi nos últimos tempos foi que se você tiver que aprender alguma coisa, seus amigos vão sumir e você vai ligar a televisão no canal mais improvável. Você vai ouvir aquele discurso. Ou sua mãe vai achar que deve te dar aquele sermão. Ou ainda, você vai se deparar com uma pasta cheia de memórias alheias e questionar sobre a qualidade das suas. E isso tudo vai doer. Você vai sofrer. Mesmo que não tenha sido pelas mãos daquele cara, ou pela saudade daquela pessoa. Mesmo que Vênus não esteja retrógrado.

Se você precisar absorver aquela ideia, ela vai estar em todos os outdoors possíveis.

Então, por que diabos culpar todos os caras imbecis que aos meus olhos foram perdas de tempo? Por que diabos culpar aquele que me magoou de uma forma inacreditável e foi a primeira pessoa a me fazer entender que existiam pessoas que não se importavam nem um pouco com o fato de que eu sou especial? Aliás, para eles eu não era especial, nem um pouco. Só que em compensação, foi chorando naquela noite em que eu me senti especial como nunca antes na vida, com uma conversa maravilhosa que está desenhada na minha alma até hoje. Por que culpa-lo por ter ido embora, se a pessoa que tinha que ficar era aquela que me fez ter a melhor madrugada possível?

Eu realmente achei que tinha parado de questionar a vida depois que minha bisa faleceu. Ok, demoraram uns meses. Só sei que acordei um dia e entendi que eu não podia fazer absolutamente se estava escrito que eu teria que me acostumar com a ausência deles. Não podia fazer nada se minha melhor amiga era uma completa estranha depois de uns meses longe.

Mas infelizmente não sou perfeita, e questionei de novo em uma bela noite de inverno. Foi a pior noite da minha vida, e acho que desde então eu realmente parei de questionar. O universo ensina. As vezes com um arco íris, as vezes com um evento traumático que vai te fazer menos mimada, mais corajosa, mais forte.

 

Eu aprendi, sabe? Não podemos controlar nada além das nossas próprias reações. Podemos aceitar ou nos apegar ao que nós desejamos e nunca entender o espaço, a ideia, a necessidade alheia.

Podemos existir plenamente e também podemos existir pela metade, sempre perdendo parte de quem nós somos no desgaste emocional que é lutar contra o universo.

E só para finalizar, eu sei que é bonita a ideia de que nós fazemos o nosso próprio destino. Mas isso não soa muito humano? Não soa aquela velha ideia de que o ser humano é maior e melhor do que tudo, inclusive do que o equilíbrio universal?

Eu acho que a ideia de que nós somos donos do nosso próprio destino é deveras mal interpretada. A verdade é que nós somos donos das nossas reações. De como reagimos, de como interpretamos, do que sentimos após recebermos as famosas “bombas”. Ou até mesmo as flores. Você pode escolher ser feliz e grato, e pode também escolher ser exigente e insatisfeito. Pode escolher se superestimar e achar que a pessoa foi embora da sua vida porque não te valorizou o suficiente, ou pode entender que cada um precisa estar exatamente onde está e nem mesmo muito amor para impedir a vida de acontecer. Não tenha mágoa. Ame. Se é tão importante assim, um dia volta.

Seja para vocês tomarem um milkshake na Lagoa, seja dento de um arco-íris te fazendo sentir paz.

 

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