Cheeseburger sem molho.

Entre suspiros e devaneios, admito: já não sei ser tão comercial. Não sei fantasiar ao ponto de transformar meus sentimentos em algo que qualquer zé da esquina se identificaria. Deixei o ato de tentar encaixar o mundo em tudo que sentia, finalmente me vejo limitada somente à mim mesma. Meu próprio infinito se impôs e me fez rejeitar a ideia de abandonar minha singularidade.

Já faz tempo que eu não sei o que é ouvir que eles me entendem, ou que sabem exatamente o que eu estou sentindo. De alguma forma, eu sou a pessoa que consegue entender todos, inclusive a mim mesma, mas que é mal interpretada quase todos os dias. Aos poucos me vi desistindo de buscar alívio em conselhos, passei a me agarrar ao fato de que se eu pudesse ajudar, se eu pudesse estar ali pelo menos para que eles se sentissem menos sozinhos, eu me sentiria por tabela.

Mesmo que, no fundo, eu seja um cheeseburger sem molho do Mcdonalds. Mesmo que eu destoe da normalidade. Mesmo que eu sinta insatisfações do mais súbito nada, mesmo que eu precise ficar sozinha, mesmo que eu me canse de todos e de tudo com uma rapidez maior do que o saudável. Preciso cortar o cabelo, preciso pintar o cabelo, preciso ver lugares novos, preciso ler coisas diferentes, preciso estar em contato com o quanto o mundo é maior do que o meu cotidiano constantemente sufocante.

Com o tempo notei que não adianta eu escrever textos fofos e me parecer tanto com eles se eu terei essas noites em que eu não vou me distrair com nada, não vou querer ninguém, não vou estar pronta, e na verdade eu só vou querer encarar essas letras e desabafar sobre como é ser alguém que não tem o que é preciso para ser completamente normal. Não que eu não seja fofa, eu sou. Mas eu sou mais do que isso. Eu extrapolo barreiras. Eu ultrapasso os limites. Eu não quero uma história bonita, eu quero não me sentir sozinha quando estiver do lado de quem eu decidir estar. Eu quero o pacote completo da vida, inclusive as madrugadas românticas e jantares fofos, mas preciso com todas as forças dos olhares, aliás, daquele olhar. Do olhar que vai enxergar em mim o quão anormal eu sou, que nunca vai esperar que eu seja diferente do que sou, que vai respeitar meus medos, minhas frustrações, meus sonhos, meus desejos. Eu preciso do olhar que vai me proteger da maldade do mundo, do esquecimento, da ausência. Eu preciso do olhar que vai ver em mim mais do que uma garota potencialmente romântica e profunda, sabe? Eu sou um cheeseburger sem molho do Mcdonalds. Sou um pedido especial. Um ponto fora da curva. Algo não convencional, não tradicional, algo diferente. Eu não consigo engolir a vida muitas e muitas vezes. Eu quero mais do que as pessoas normais querem, e muito menos do que elas pedem também. Eu sou uma contradição. Sou um nó. Sou a garota que demora pra se achar quando se perde, e costuma se perder sempre que precisa. Não fujo de mim, mas as vezes me esqueço. Não consigo descomplicar.

Não consigo traduzir minha própria alma para desconhecidos. Ou você me lê, ou passa reto. Ou você tem o olhar, ou eu não me encaixo e talvez jamais me encaixe.

Eu já fui absurdamente comercial, já fui muito normal para atrair pessoas, não me sentir sozinha de madrugada, ter com quem conversar de vez em quando e etc. Só que hoje, de repente, eu notei como as únicas pessoas que estão na minha vida me chamam de doida desde que eu tenho 10 anos, invocam minhas diferenças com um sorriso no rosto, me fazem lembrar que eles não me entendem de jeito nenhum, mas que… Apesar disso… Por eu conseguir entende-los, por eles conseguirem me aceitar, eles estão aqui quando todos os que esperam meus movimentos robóticos se foram. Eu sorri me sentindo parte daquele grupo hoje. Eles me lembraram que eu posso ser totalmente diferente, mas isso nunca fez eles me amarem menos, pelo contrário. Eles tem o olhar. E de alguma forma, acho que foram eles que me mantiveram aqui dentro, intacta, por tanto tempo. Sem molho, não tradicional, sem tentar me encaixar – pelo menos com eles. E que delícia… Alguma coisa deu certo, e se foi assim, que eu continue tendo força para ser cada vez menos algo que não sou, e cada vez mais o que o mundo inteiro rejeita, mas uma minoria está disposta a abraçar.

 

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