Um amor que deu certo.

Na semana passada, dentro de uma das centenas de conversas que tive com uma das minhas amigas mais próximas, trouxemos o tema amoroso para o palco. Entre reflexões e dúvidas, a conclusão foi que a gente só queria mesmo um amor que desse certo. Dito o contexto, peço licença para tomar o papel de protagonista da discussão e colocar em pauta alguns pensamentos que pude construir ao longo desses agitados dias que tem feito meu mês de outubro um dos mais produtivos.

Lá estava eu comendo um pedaço de abacaxi pela primeira vez em 21 anos, quando eu notei que não menti quando disse que queria um amor que desse certo, mas algo precisava ser melhor desenvolvido quanto ao tal “sucesso” especulado. Porque definitivamente não espero aquele comercial de manteiga ou pasta de dente, longe disso. Aliás, quem é que espera? Algo naqueles sorrisos e naquela paz de 20 segundos de comercial me faz ter um rebuliço interno sempre que vejo. Não ligo para o exterior, com o que as pessoas vão assistir do meu relacionamento. Sério, eu definitivamente não consigo gastar mais de um minuto pensando nisso.

Dessa forma, e nesse pulo do gato, comecei a anotar mentalmente o que eu esperava sentir quando um amor desse certo. E até que foi fácil, viu? Aliás, descomplicado. Fácil nunca é. Depois de presenciar amigas sofrendo, pessoas sendo indecisas e mesquinhas, depois de ler tantos textos sobre a modernidade líquida e de me sentir tão diferente de todos e tudo, eu me deparei com uma lista de um único item. A velha, boa e necessária segurança.

Parece bobo, simples, mas não. Não aos meus olhos.

Por exemplo, minha avó comentou que não tinha melhor forma de proteger do que casar com uma pessoa. Diferente de uns coléricos que me cercam, não me senti irritada, o pensamento dela é totalmente coerente com a legislação penal da época que ainda classificava mulheres entre as honestas e as outras. Ela não é tão mutável em suas opiniões quanto eu, que mesmo só tendo vivido 21 anos já me vi com mais de cinco, seis pontos de vista diferentes. Agradeçam ou reclamem ao meu mapa astral.

Bom, como já foi acertado, com essa alma inquieta, segurança não é sinônimo de casamento nem que eu tente. Não é por desconstrução via militância, é só por empiricamente notar que muitas mulheres se casam e são abandonadas diante de todos os problemas  que enfrentam individualmente. É só o marido não ver sentido na situação para que, subitamente, ela comece a acordar, tomar café, almoçar e ir dormir sozinha. Fazer amor sozinha. Quando nós enxergamos um monstro no quarto e o cara do nosso lado cisma em simplesmente ignorar esse fato, não dá para sentir nada além de insegurança, medo, decepção e um pacote que eu tô bem longe de querer comprar.

Vejam bem, eu quase empaquei nesse ponto. A questão é que eu quero me casar. Acredito em um compromisso monogâmico, acredito que no meu caso segurança vai ser sinônimo de casamento. Afinal, sem segurança, eu não caso. Sou nem doida.

Ok? Ok. Corta pro fato de que eu descobri que eu não sou doida de fazer absolutamente nada sem segurança.

Não apresento a minha família com expectativas, não misturo amigos, não escrevo cartas, não abro meu coração, não divido minhas músicas, não dou aquele olhar 43 que dá uma visão em perspectiva da minha alma. Eu nem sequer dou minha sinceridade completa.

Se eu dei, e isso vai soar ridiculamente cheio de segundas intenções, me senti segura. Se eu me senti segura, tive um amor que deu certo.

Isso, meus amigos, foi o que eu chamo de um tiro no escuro. Só ouvi o barulho, vi o clarão, não sei de onde veio, mas aceitei.

Eu estava reclamando com essa minha amiga que eu só queria um amor que desse certo, como se um dia fosse receber uma confirmação divina: “ei, seu amor deu certo, meus parabéns, toma o selo do amor colgate”, mas fui induzida a esquecer há uns meses – por força do hábito de ser uma garota escaldada – o quão segura eu estou.

Senti ansiedade, tristeza, botei o carro na frente dos bois, mas esqueci que segurança tem a ver com o quanto ele me escuta quando minhas crises vem na madrugada, e não com o que eu acho que ele pensa de determinada pessoa. Segurança é saber que se eu precisar a ponto de falar, ele vai estar lá, e não com o quanto ele vai adivinhar meus pensamentos. Segurança não é o ato de não errar, mas saber que independentemente da quantidade de erros, nós vamos recomeçar, e eu nunca vou estar sozinha num beco sem saída.

Ele nunca vai me deixar sozinha com o monstro. Ele vai me mostrar que o bicho não existe, vai rir, vai descontrair, vai me lembrar quantas vezes eu precisar, de diferentes formas. Ou vai mata-lo junto comigo, caso a existência for comprovada. Sozinha, não vou ficar. Aliás, sozinha nunca fiquei.

Meu amor que deu certo é o meu amor, pelo simples fato de que eu nunca teria chamado ele de meu amor e dado todo o meu coração de bandeja se ele não realmente fosse meu abrigo, meu porto seguro e meu tudo. Sem receber confirmações posteriores, sem me perguntar diariamente diante de tragédias alheias, as vezes a gente fica cega e não enxerga a nobreza dos próprios sentimentos.

Quem fica, ouve, chora, sorri e ri, ama. Amou, tá amado. Sem mais. Sem menos.

 

 

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Cheeseburger sem molho.

Entre suspiros e devaneios, admito: já não sei ser tão comercial. Não sei fantasiar ao ponto de transformar meus sentimentos em algo que qualquer zé da esquina se identificaria. Deixei o ato de tentar encaixar o mundo em tudo que sentia, finalmente me vejo limitada somente à mim mesma. Meu próprio infinito se impôs e me fez rejeitar a ideia de abandonar minha singularidade.

Já faz tempo que eu não sei o que é ouvir que eles me entendem, ou que sabem exatamente o que eu estou sentindo. De alguma forma, eu sou a pessoa que consegue entender todos, inclusive a mim mesma, mas que é mal interpretada quase todos os dias. Aos poucos me vi desistindo de buscar alívio em conselhos, passei a me agarrar ao fato de que se eu pudesse ajudar, se eu pudesse estar ali pelo menos para que eles se sentissem menos sozinhos, eu me sentiria por tabela.

Mesmo que, no fundo, eu seja um cheeseburger sem molho do Mcdonalds. Mesmo que eu destoe da normalidade. Mesmo que eu sinta insatisfações do mais súbito nada, mesmo que eu precise ficar sozinha, mesmo que eu me canse de todos e de tudo com uma rapidez maior do que o saudável. Preciso cortar o cabelo, preciso pintar o cabelo, preciso ver lugares novos, preciso ler coisas diferentes, preciso estar em contato com o quanto o mundo é maior do que o meu cotidiano constantemente sufocante.

Com o tempo notei que não adianta eu escrever textos fofos e me parecer tanto com eles se eu terei essas noites em que eu não vou me distrair com nada, não vou querer ninguém, não vou estar pronta, e na verdade eu só vou querer encarar essas letras e desabafar sobre como é ser alguém que não tem o que é preciso para ser completamente normal. Não que eu não seja fofa, eu sou. Mas eu sou mais do que isso. Eu extrapolo barreiras. Eu ultrapasso os limites. Eu não quero uma história bonita, eu quero não me sentir sozinha quando estiver do lado de quem eu decidir estar. Eu quero o pacote completo da vida, inclusive as madrugadas românticas e jantares fofos, mas preciso com todas as forças dos olhares, aliás, daquele olhar. Do olhar que vai enxergar em mim o quão anormal eu sou, que nunca vai esperar que eu seja diferente do que sou, que vai respeitar meus medos, minhas frustrações, meus sonhos, meus desejos. Eu preciso do olhar que vai me proteger da maldade do mundo, do esquecimento, da ausência. Eu preciso do olhar que vai ver em mim mais do que uma garota potencialmente romântica e profunda, sabe? Eu sou um cheeseburger sem molho do Mcdonalds. Sou um pedido especial. Um ponto fora da curva. Algo não convencional, não tradicional, algo diferente. Eu não consigo engolir a vida muitas e muitas vezes. Eu quero mais do que as pessoas normais querem, e muito menos do que elas pedem também. Eu sou uma contradição. Sou um nó. Sou a garota que demora pra se achar quando se perde, e costuma se perder sempre que precisa. Não fujo de mim, mas as vezes me esqueço. Não consigo descomplicar.

Não consigo traduzir minha própria alma para desconhecidos. Ou você me lê, ou passa reto. Ou você tem o olhar, ou eu não me encaixo e talvez jamais me encaixe.

Eu já fui absurdamente comercial, já fui muito normal para atrair pessoas, não me sentir sozinha de madrugada, ter com quem conversar de vez em quando e etc. Só que hoje, de repente, eu notei como as únicas pessoas que estão na minha vida me chamam de doida desde que eu tenho 10 anos, invocam minhas diferenças com um sorriso no rosto, me fazem lembrar que eles não me entendem de jeito nenhum, mas que… Apesar disso… Por eu conseguir entende-los, por eles conseguirem me aceitar, eles estão aqui quando todos os que esperam meus movimentos robóticos se foram. Eu sorri me sentindo parte daquele grupo hoje. Eles me lembraram que eu posso ser totalmente diferente, mas isso nunca fez eles me amarem menos, pelo contrário. Eles tem o olhar. E de alguma forma, acho que foram eles que me mantiveram aqui dentro, intacta, por tanto tempo. Sem molho, não tradicional, sem tentar me encaixar – pelo menos com eles. E que delícia… Alguma coisa deu certo, e se foi assim, que eu continue tendo força para ser cada vez menos algo que não sou, e cada vez mais o que o mundo inteiro rejeita, mas uma minoria está disposta a abraçar.