Sentir é um ato de coragem.

No fundo, o que a gente precisa mesmo é coragem, né? Pelo menos foi isso que me disseram numa mesa de bar calorosa e querida: coragem, agir com o coração, 20 segundos disso e você não precisa de mais nada.

Guardei isso com carinho.

Do nada, em um sábado a noite, me veio a frase que uma das minhas melhores amigas repete desde que eu fiz uns 16 anos: “Vai. Tá com medo? Vai com medo mesmo.”

Combinei os pensamentos.

Ir com medo nunca significou ir sem coragem. Eu sei, parece contraditório quando imaginamos que coragem é sinônimo de confiança, mas defendo fielmente que não devemos fazer isso. Confiança tem a ver com acreditar plenamente e, de fato, como confiar estando absurdamente ansioso? Como acreditar de olhos fechados enquanto você está inquieto? Isso é bem difícil. Entretanto, a partir do momento que, para agirmos de forma corajosa só precisamos cumprir a missão de desempenharmos nossas atividades com toda a pureza do coração, consigo facilmente imaginar uma medrosa que nunca age sem consultar seu próprio coração. Ou seja, com coragem. Eu.

Só Deus sabe quantas vezes eu tive medo. Aliás, eu não posso negar que até hoje sou uma das pessoas mais medrosas que eu já conheci. A intuição certeira vem com uma boa dose de receio, afinal, aos olhos de uma pessoa intuitiva o mundo é bem menos imprevisível e, com certeza, não é tão seguro quanto aos olhos de alguém que não tem a menor ideia do que esperar. Só que isso não é ruim, inclusive, a má interpretação do medo me deixa um tanto quanto angustiada. Ele me protegeu sabiamente todas as vezes em que não deixei de ouvir meu coração por senti-lo.

A lógica é simples: você precisa ouvir seu coração e agir conforme ele dita, mas levar em consideração todas as reflexões que o medo te trouxe. Senti-lo – não fugir dele – e desconstruí-lo, porque finalmente, depois disso tudo, agirá não somente com coragem, mas com confiança. Não mais com temores, mas com todo o seu interior em harmonia.

Ouso dizer que talvez esse seja um dos segredos da vida, sabe? Seguir seu coração e aceitar que o medo não é seu inimigo, mas um ingrediente interessante que vai te fazer pensar duas vezes, sempre. Vai te tirar a paz, mas momentaneamente: nem só de calmaria viverá o homem. Os oceanos agitados nos trazem aprendizados inacreditáveis, com o medo e a coragem igualmente ou quase igualmente balanceados.

Eu nem sempre fui confiante, e na realidade nem posso dizer que sou. Tenho uma dificuldade enorrrrrrme com isso de auto-estima e etc. Não me levem a mal, mas as críticas destrutivas não foram necessariamente fáceis de apagar. Com isso, apesar de agir com coragem, muitas vezes não desconstruo o medo completamente. O resultado é interessante: eu faço e dez minutos depois fico rindo de mim, tentando entender como, porque e até quando vou me surpreender dessa forma comigo mesma.

Foi exatamente assim quando eu entrei na faculdade e comecei a discordar dos meus professores. Eu não sabia como me impor. Meu coração dizia: “fale”, e eu sentia o medo me esmagar e machucar minhas costelas. Não falava, preferia não agir com coragem até a confiança surgir. Resultado? Eu, que nem sempre fui boa em desconstruir sentimentos, muito menos o medo, ficava calada e me sentindo péssima. Com o tempo, comecei a ficar entediada com a frustração e ousei agir com coragem e sem confiança. Notei algumas formas de fazer isso de uma maneira mais discreta, talvez mudando a entonação da voz e indo com mais humildade ao invés de empolgação: deu certo. Nunca deu errado. Me empoderei o suficiente para resolver esse problema: hoje, pergunto com confiança, coragem e o medo desapareceu.

Mas deixa eu adivinhar, soou bobo, né? Principalmente aos que nunca tiveram problemas em falar ao público.

Bom, eu posso dizer que não costumo agir com coragem no que diz respeito aos meus entraves familiares. Assuntos mal resolvidos, sabe? Dúvidas nunca retiradas, relações disfuncionais e etc. Eu nunca ousei nem mesmo pensar com coragem, ou seja, com o coração. Sempre racionalizei ao máximo para tentar diminuir a situação e empurrar com a barriga o quanto desse. Infelizmente, não vou trazer ao fim do parágrafo nenhuma conclusão maravilhosa. Eu só posso dizer que eu não conseguia nem mesmo falar sem gaguejar sobre o que eu pensava ou sentia até refletir sobre os meus medos e sobre como eu encarava essa situação inteira.

Primeiro, eu achava que precisava de confiança e algo que não tinha absolutamente nada a ver com o coração, mas com posses, resoluções e avanços profissionais. Achei que quando fosse, de fato, bem sucedida, teria a segunda lacuna preenchida e, com o fato de ser adulta, resolveria todos os buracos juvenis em um passe de mágica.

Parece idiota, mas não é um raciocínio lógico? Eu era uma adolescente que se via impotente diante de tudo que não entendia e não podia resolver. Logo, quando fosse mais velha, eu ia solucionar tudo com uma vida bem sucedida, presentes e um diploma bonito na mão.

Não foi tão difícil desconstruir esse pensamento. Ninguém resolve uma relação disfuncional se afastando e se desenvolvendo em um mundo à parte. Entretanto, a outra conclusão foi que ninguém resolve uma relação disfuncional sozinho. Eu posso dizer que estou quase no nível de simplesmente ninguém conseguir mesmo resolver uma relação disfuncional, mas vamos deixar a esperança pra crise dos 30 ser mais previsível.

Ao entender que meu diploma não ajudaria em nada, busquei me auto-conhecer e ressignificar a situação.

Meu caso era sem solução, sim, mas só se eu quisesse efeitos imediatos.

Eu cheguei a conclusão que preciso desconstruir meus medos para, quem sabe um dia, agir baseada somente no meu coração e, talvez, com confiança. Mas, sinceramente? Só o fato de agir com coragem em relação aos meus problemas familiares já seria o suficiente. Tudo que eu tenho em mente é que mesmo que depois de dez minutos me venha a sensação de “nossa, era só isso?” e a surpresa absurda por ter conseguido tomar uma atitude, bom, já será maravilhoso.

Confiança me soa mais aquele luxo que muita gente gosta de ter, mas eu juro que no desespero da impotência, tudo o que me importa é agir com o coração e ignorar o resto, coisa que hoje é impossível. O que me difere da maioria das pessoas à minha volta é exatamente isso: o medo.

Irracional, instável e insuportavelmente forte, esse é o sentimento que me impede de escutar e agir com o meu coração que tem todas as respostas, mas definitivamente não vai ser explorado enquanto eu não colocar meus pingos nos i’s. Enquanto eu não encarar meus sentimentos prioritários, relacionados aos meus receios, e racionaliza-los, nunca conseguirei dar credibilidade ao que a minha alma tem a fazer.

Parece fácil, sabe? Mas é uma caminhada longa, árdua e diária.

Tanto a ressignificação das minhas relações disfuncionais, quanto o de todos os outros buracos que surgirem e que eu tente fingir mesmo que por um segundo que se resolvem com coisas e não com sentimentos.

Não necessariamente pela dificuldade em si, mas pelo mundo exterior viver nos jogando em direções opostas ao auto-conhecimento e ao aprofundamento da sensibilidade nas situações.

Eles me dizem “engole o medo e cresce, se muda e vive a sua vida”. Eu ouço e tento raciocinar, tento lutar contra, mas o que eu estou fazendo? Dando prioridade para a minha vida profissional ao invés de focar em resolver conflitos emocionais.

Cheguei a conclusão, depois de uns meses, que a hora de focar pelo menos alguma parte da minha energia para me entender, conhecer e respeitar, inclusive esse tal medo, é agora. Porque o mundo nunca vai parar de exigir de mim responsabilidades, sonhos, metas alcançadas e outras a serem sonhadas. Ele nunca vai parar e me dar o meu espaço. Eu preciso lutar por ele.

Agir com coragem em relação a tudo precisa ser a nossa prioridade, e enquanto isso não acontece plenamente, precisamos usar o pouco de alma que temos acesso para buscar mais e mais dela e da sua força.

Eu diria que com esse texto eu só queria passar a mensagem de que precisamos ressignificar nossos problemas. Tudo no mundo se resume a você agir ou não com todo o seu coração.

Seja respirando, caminhando no seu bairro, entrando na sua faculdade ou almoçando em família. Todos os problemas que surgem precisam ser enfrentados na esfera emocional profunda também, porque, sinceramente, a gente sabe que eles nos afetam. Por que fugir? Por que pensar que o afastamento soluciona, ou se enganar acreditando no poder de um pedaço de papel que pode ser a escritura do seu futuro apartamento, seu diploma ou sua passagem pra longe?

E já que tudo se resume à harmonia entre seu corpo e sua alma, por que não focar tanto na academia quanto no auto-conhecimento? Por que não se alimentar nos melhores restaurantes e também com o máximo de reflexões possíveis?

Sentir é um ato de coragem.

Sentir é algo que envolve o coração.

Viver sem sentir é assinar embaixo do fato de que a sua vida se resume ao que você enxerga no espelho. Não passa dali.

E, meu caro e minha cara leitora, ninguém consegue lidar com tamanha limitação. Nem mesmo você. Não importa o quanto tentemos, ou exploramos todo o nosso universo, desconstruímos nossos medos e fazemos mais do que simplesmente aceitar o que não entendemos, ou o vazio vai nos fazer sentar num sofá e odiar nossas vidas daqui a 40 anos.

O amanhã a gente faz hoje. Precisamos olhar pra floresta e não para árvore. Precisamos ser mais do que jovens imediatistas, e sim jovens com sentimentos urgentes, mas mentes calmas e intocáveis para esse mundo louco que vai nos fazer acreditar que a nossa alma é bem menos importante do que a nossa conta bancária.

Sintamos. Exploremos. Busquemos respostas.

A gente nem sempre vai resolver um problema que envolve duas pessoas, mas vai dormir com a consciência tranquila de que tudo que você podia ter feito, sentido, vivido, aconteceu. A partir daí, tudo envolve o aprofundamento na sensibilidade da outra pessoa e o máximo que você pode fazer, você já faz, que é ser o exemplo.

Não sei vocês, mas eu tô doida pra ser o exemplo… Enquanto não sou plenamente, pelo menos convido a todos que entrem nessa aventura de viver intensamente junto comigo. Mais vulneráveis? Não. Mais fortes. Um dia após o outro com novas conquistas, avanços e compreensões. Harmonia.

 

 

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