Morte, amor e uma madrugada boa.

A morte é uma coisa engraçada, né? Quase ridícula. Alguns nascem e evitam crer nela durante a vida inteira, até que em algum momento, seja por doenças ou vias naturais, se encontram frente a frente e são obrigados a aceita-la de bom grado. Outros, passam a vida inteira se preparando para o momento final. Nesse grupo, eu me encaixo. Desde que me dei conta da minha finitude, perco um significativo tempo com dores de estômago e uma agonia interna que me faz ficar silenciosamente escandalosa. Não fujo do fato: morrerei. Entretanto, não tenho a menor ideia do que fazer com essa informação. Não hoje. Em dias normais, penso que a melhor forma de me adaptar à mortalidade é entende-la e absorver lições que me farão calma e sublime diante desse assunto. Mas hoje… Hoje eu olho para dentro e penso: por que faz sentido viver uma vida na preparação para o fim dela? Não. Nós deveríamos nos preocupar em aproveitar a vida, sim, mas não porque ela tem um fim e sim porque ela começou com um propósito. Ela teve seu início para que cumpríssemos uma jornada que não poderá ser completada por ninguém além de nós.

Eu fico com essa ideia engasgada na garganta: you only live once. Ironicamente, não me vem a vontade de dar a louca, repetir os clichês, me divertir com os panos já usados por milhares de outras pessoas que, no fundo, isso tudo aos meus olhos soam mais como jovens eternamente iludidos. Medrosos. E se tem uma coisa que eu não acho que engrandeça um ser humano é se tornar covarde. Quando crianças, perguntamos o que ninguém com mais de um metro e meio tem coragem de trazer a tona. Falamos com desconhecidos sem julgamentos, sorrimos com a alma, enxergamos além da casca e nos permitimos. Nós sentimos o que tiver que ser sentido, choramos em quantidades astronômicas e rimos também. Nós fazemos birra por coisas pequenas, e nem sequer cogitamos a impossibilidade ser algo real. O que sonhamos é completamente possível, absurdamente cabível de se pedir ao papai noel no natal e ponto final, sem vírgulas.

É inevitável, não? Voltar a alma à infância para conseguir escrever algumas linhas sobre a morte. Afinal, lá, quando nós não tínhamos consciência ou não costumávamos ter tanto medo, as respostas apareciam e nossas noites de sono eram tranquilas. Não precisávamos de remédios, manias ou artificialidades. Uma história, uma oração, um carinho nas costas ou um cafuné, a fórmula era orgânica e extremamente satisfatória. O segredo basicamente era ser sincero.

Sinceramente, tento procurar em mim a garotinha corajosa que costumava ser, desbravadora de mundos e fundos, e só consigo rir. Fato ridículo ou não, hoje choro com insetos e gaguejo ao falar no microfone. Hoje ainda não consigo impor minha vontade acima dos achismos alheios, não me libertei das inseguranças que a pré adolescência me reservou.

Quem me dera, eu penso todo santo dia, que um dia eu acorde e encontre no reflexo do espelho 50% da força e da pré disposição para aventuras que a gordinha de cabelos cacheados tinha. Quem me dera, eu penso, que a ponte entre ela e eu, textos como esse, nunca deixem de existir. Porque traçando essas linhas, eu enxergo toda disponibilidade e coragem que eu tinha e só consigo dizer uma coisa: que a jornada aconteça. Mesmo com tudo que ela possa oferecer, mesmo que nem sempre eu sorria no fim da noite, eu acredito nas manhãs ensolaradas. Acredito que, assim como a mini eu, esquecerei as dores assim que acordar com um “bom dia” amoroso e tomar um café da manhã reforçado. Afinal, se uma criança enfrentou as vacinas, e a convivência com dezenas de adultos que juravam saber mais do que ela, sem desistir em nenhum momento, por que eu, adulta, tenho que achar impossível passar por isso?

Não, se a mini eu conseguiu absorver o alfabeto, os cadernos de caligrafia, as críticas nem sempre construtivas e as discussões sem eira nem beira dos mais velhos, eu só posso dizer que jamais recusaria um convite para continuar recusando todos os rastros de covardia que tantos seres humanos aceitam como perfume.

Comigo, o orgânico sempre vai vencer o artificial. O sentimento vai guiar o racional. Os sorrisos preencherão as lacunas.

É normal não saber o que sentir quanto a morrer, afinal, é difícil pensar no que fazer com todo o amor que a gente guarda uma vida inteira. Entretanto, sentir medo desse momento ou ter a impressão de que iremos sozinhos, não, isso nós podemos evitar. Meu avô levou um pedaço do meu coração, invisível aos olhos assim como a maravilhosa alma que ele tinha, e onde quer que ele esteja, eu sei que não foi em vão e ele também sabe. Mesmo que acabe ali, naquele último suspiro, ele sabia e eu sei que o amor é o começo e o fim, e se a gente se amava, então não tinha problema nenhum. Apenas mais um fim de jornada, apenas mais uma continuação de outra, apenas… Amor. Porque o amor não acaba, mas pode começar e a gente precisa entender que, se ele é a única coisa que faz sentido nesse mundo, devemos ser gratos só pelo fato de existirmos para senti-lo e vê-lo em ação.

Enquanto tudo que não é amor destrói ou corrói, ele surge e nos ensina, nos corrige, nos adapta, nos dá coragem, nos inspira, nos motiva e nos capacita. O amor é tudo, e eu ouso dizer que tudo que não o é, seja nada.

Pelo menos é isso que o meu coração disse hoje.

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