Calma na alma.

Perder o ônibus é como perder cinco ou quarenta minutos. Se ele for raro, lá se vão quase sessenta minutos se odiando e esperando pelo próximo. Se for mais comum, pelo menos você vai ter um tempo mínimo para refletir e não necessariamente desperdiça-lo, afinal, pra que exagerar? São só 3-5 minutos.

É exatamente assim que eu me sinto quando perco os trilhos em determinadas áreas da minha vida. Nas mais complexas, demoro tanto tempo pra resolver que são pelo menos cinco crises existenciais antes de finalmente me reconhecer no espelho. Nas simples, até gosto de ter que parar e avaliar a vida sob outra perspectiva, por hobbie ou necessidade, tudo é tão leve que me soa um exercício emocional pra lá de agradável.

Sobre essa última, eu só posso dizer que não sei se o problema é simples ou se eu, por acaso, estou cismando de esperar o ônibus certo no ponto errado, ou o ônibus errado no ponto certo. As vezes é tão explícito, né? Mas as vezes não. E nessas, você acha que resolveu pelo menos três vezes e se depara com a sensação esquisita dois segundos depois. É fácil de se enganar, porque no fundo, ninguém aguenta sessenta minutos esperando um ônibus, ninguém aguenta dias seguidos se questionando; se sentindo o corpo estranho no próprio corpo.

Geralmente eu diria que é a TPM, e não é a toa: sem dúvidas, pode ser a TPM. Mas não dá pra negar que pode ser, por exemplo, a conclusão sincera de que eu estou inserida em um meio completamente diferente do que eu quero ser quando crescer. Não quero ter a profissão que meus amados tem, muito menos ter as manias que as pessoas que eu mais amo costumam distribuir por aí.

Não quero repetir os erros dos meus pais. Nem comigo, nem com os que me rodeiam, nem com os que futuramente me serão íntimos. Não quero ser agressiva, grosseira, nem ter complicações para me expressar. Não quero me trancar, literalmente ou não, sempre que tiver um problema. Não quero desmerecer os sentimentos ruins, quero disseca-los e transforma-los. Quero enfrenta-los.

Não quero deixar de acreditar e lembrar da minha essência que outrora foi-me a única bandeira que defendi com unhas e dentes. Não quero ser volúvel, tampouco flexível, no que diz respeito aos meus pensamentos e atitudes. Não quero sentir que estou me perdendo por medo de me perder. Não quero me desperdiçar para dar vazão à cultura alheia. Não quero ter medo de ser julgada. Não quero sequer os holofotes que todos cismam de se interessar. Só quero sombra e água fresca. Quero paz.

Não quero perder o amor da minha vida por ter um medo ofensivo ou sem razão. Não quero abandoná-lo, desprezá-lo, transformá-lo ou assisti-lo acabar. Eu só quero a calma que vem da calma daquele pescador que esconde mistérios inesquecíveis sob o chapéu, sob o olhar perdido no horizonte. Se existe algo que nunca terei por completo demonstrado ou desvendado, esse é o meu amor. O mesmo daquele senhor que muito sabe do mar, pouco sabe da vida. Muito sabe de sonhos, pouco se manifesta com os ganhos. Amar é me considerar apaixonada e deixar o assunto quieto no meu peito, até notar que, sem esse sentimento, eu não estaria na noite de domingo reavaliando tudo e todos, tentando a mínima chance de melhorar e não me perder por qualquer coisa.

Amar é se surpreender com o quanto a vida pode ser boa. Porque os muros desmoronam. Os conceitos se reformam. Os medos te sufocam. Mas aí está você, tendo uma razão pra dormir sorrindo todos os dias antes de dormir: enquanto ele for ele, e você for você, estão seguros da imensidão de piadas sem graças que soa o mundo sem o outro.

Eu não sei se falta dez minutos, se preciso trocar de ponto, ou escolher outro ônibus. Eu sei que de duas coisas eu tenho certeza: eu estou bem acompanhada, e nesse calor, tomara que o ônibus que for, seja de ar condicionado.

Amar é isso: calma na alma mesmo sentada no olho do furacão.

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