Love of my life.

Feche a porta quando, depois de tentativas complexas, conseguir espaço para entrar. Aqui, apesar de não parecer, é bem mais difícil de se firmar do que em algum terreno bom, sadio e confiável. Sem querer ser chata, cuidado com o que já está abarrotado pelos cantos. Tudo importa. Tudo me importa. Até as velhas caixas mal cheirosas ou com teias de aranha, porque sem elas eu jamais saberia as respostas que sei para tantas e tantas imperfeições internas.

Eu só queria dizer que é sempre assim. Sempre lotado, tanto de coisas boas quanto ruins, sonhos e passado, pesadelos e segredos. Eu não me caibo mais faz um tempo, e é exatamente por isso que as vezes você pode ter que lidar com caixas caindo na sua cabeça, ou com o chão tremendo o suficiente para que os maiores temores te atormentem. Minhas eternas desculpas por isso. Mas, se essa afirmação valer de algo estimulante, nunca ninguém que tenha optado por ficar se machucou. Acho que com o tempo eu me acostumo e passo a ter um maior controle sobre os acidentes de erupções emocionais. Com a rotina, odiada e necessária, eu tomo jeito.

A quem estou tentando enganar? Logo você?

Nossos maiores inimigos são os nossos maiores ensinadores, já dizia alguém que foi suficientemente sábio para continuar desconhecido. Elogiou os filhos da puta, mas pelo menos não nomeou no jornal. Sem envolver rostos, engrandeceu-os de alguma forma pelo que fizeram. De fato, é isso que eu sinto que faço por manter minhas cicatrizes. Elas estão aqui. Sem nomes. Sem detalhes. Só com a essência do que ficou de cada situação. Reconhecidas nas entrelinhas, nos pormenores.

Porém, nada disso me faz forte para aguentar o tranco de não afastar as possibilidades de novos e mais profundos machucados. De lições, vejo-me farta. Nem sempre é tempo de aprender, nem sempre é tempo de se abrir. E exatamente por isso… Levei ao pé da letra quando me aconselharam, aos 17: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida”. Guardei.

Veja bem(meu bem), sou tão sensível a tudo. Quando era mais ingênua e infinitamente mais corajosa, mesmo o entregador de pizza, que só veio cumprir seu trabalho, foi recebido e deixado eternizado em algum corredor. Pergunto-me constantemente: por que? Por que de aberta e receptiva passei a me sentir tão vulnerável a tudo e todos? Depois de tantos equívocos, tantas pessoas aleatórias que nunca me fizeram importante no mesmo nível que as fiz, me fechei. Entulhei coisas atrás da porta e na sala de visitas. As varandas continuam a dar para o jardim, as fontes continuam inabitadas. A paz ainda existe, sim, em algum lugar mais ao norte. Ou mais ao sul. Entretanto, continuo por preferir a sensação de estar cheia, sempre cheia, porque mantenho a porta fechada com a desculpa da casa estar insuportavelmente sem espaço.

E não, nunca pedi ao sábio mais espaço, porque eu sei que a casa não é apertada. A casa é enorme. Eu que, ao ver a destruição causada nos terrenos já alcançados, não tive coragem de lembrar a mim mesma de como ainda existem campos verdes e cachoeiras a serem exploradas.

Acho que é por isso que fico tanto tempo calada, especialmente sozinha, me divertindo em um universo só meu. Sobra paz, quando não preciso fingir ou esconder.

Os terremotos… Me desculpe por eles. São incontroláveis e não há quem explique porque eu não consigo conter as emoções emocionais que aparecem do nada e somem com certa resistência. Quando as caixas, placas ou, sei lá, lembranças e sentimentos internos se chocam, não há quem consiga me fazer acreditar que o certo é retirar os inocentes e transportá-los pro jardim.

Não há quem me garanta que a minha vida é menos importante do que uma noite ruim.

Eu não me imagino sem aquele pedaço ali, sabe? Aquele pedaço onde ninguém nunca chegou, ninguém nunca tocou, ninguém nunca… Viu. Nem pra rejeitar, nem pra amar. Ali, naquele espaço, ninguém nunca teve poder nenhum sobre mim. Isso é tão raro. Logo eu, que diante de qualquer pressão já explodo e sofro porque, geralmente, onde se agrada um, se pisa em outro.

Eu apenas não sirvo pra isso.

Me desculpe por tudo.

Porque eu sou uma propaganda enganosa. Aliás, talvez não seja. Nem eu sei. Eu sei que sou confusa, explosiva, pessimista e extremamente covarde. Eu não te mereço, porque não me vejo como digna ou honrada. Sou só uma alma perdida nadando num aquário, amortecida, com dores inexplicáveis e medos incontroláveis.

Eu sou um pacote em que está escrito “não pegue, de verdade” e, as vezes, não basta estar no meio de uma crise… Eu ainda paro pra refletir como você não merece uma gota da situação inteira. Você não precisa. Você é mais do que isso. Eu sou tão…

Perdida.

Tão confusa.

Tão insaciável.

Me desculpa.

Não por bobeira, não. Por te amar. Porque você é a fonte que eu preciso que não seque nunca e que, por mais que eu sinta as vezes que preciso te deixar ir, não vou. Nunca. Você me faz sentir entorpecida de uma forma boa.

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