Desabafo.

Antes de tudo, eu só queria dizer que não acho correto reprimir e ignorar reações/sentimentos alheios. Que venham o medo, a raiva e o carrossel acionado pela violência. Isso tudo eu entendo, e sinceramente? Sintam-se livres. Mas agora é a minha hora de reagir às suas frases, “motivadas” ou não, que surgiram no meu feed, nos meus ouvidos, na minha vida. Afinal, viver em sociedade é isso: pensar e deixar que pensem.

Bom, eu sou estágiária do NUSPEN. Convivo com fichas, histórias e estatísticas mentais bem interessantes sobre os presos por coisa tipo furto, roubo e tráfico de drogas. Sim, os migos que te revendem maconha e etc, eles mesmos. Mas relaxa, sempre que eles aparecem me vem à mente o rostinho da burguesia carioca. Eu vi um texto hoje, aplaudido por muitos, que foi duro e forte: roubar é errado e é uma questão de caráter, não de dinheiro. Afinal, se teve pai e mãe pra ensinar, não ouviu e obedeceu porque não quis.

O caso mostrado no jornal, em um dos arrastões, foi de um adolescente que tinha pai e mãe, né? Em todos os casos que eu li nos últimos dias, NENHUM tem pai e mãe. Dos 70, 80, nenhum tem pai. Aborto pra homem é legalizado, incentivado e propagado há séculos nessa terra, né? Mas, continuando, acho muito bacana vocês repetirem que a mídia é manipuladora quando é totalmente exposto e lógico, mas em coisas assim repetir, aplaudir e usar de exemplo. Só que o meu foco não é sobre isso não.

Meu foco é no ódio de vocês por ladrões.

Ui, roubou é diretamente um sem caráter e merece o sistema carcerário brasileiro. Valeu, juízes e juízas. Deixem o diploma de Direito de vocês na minha mesa depois, só pra dar uma checada nas credenciais. Afinal, desculpa, mas me enche a droga do saco ficar lendo um bando de comentaristas sobre leis e cadeias o tempo inteiro, quando nenhum chegou nem perto de entender uma sentença de verdade. Pô, dá uma olhadinha em como a Alemanha lida com furtos e roubos. Ou sei lá, tenta visitar um presídio, bater um papo com presidiários e ver que, sinceramente, são gente como a gente. Eu acho engraçado DEMAIS quando vocês ficam com nojo do mau caratismo desses “pivetes”, mas protegem mamãe e papai que sonegam, priminha(e a antiga você) que entra na balada sem 18 anos, titio que assina que trabalha 8 horas, mas fica por lá só umas 4 e no máximo 5. Afinal, ele precisa de outro emprego, né? A crise, galera, a crise!

Depois de um tempo vendo fichas, conversando com a galera que REALMENTE conhece os presos e que até mesmo já furtou alguma coisa, a gente nota que o mundo é meio ridículo. Nunca é por causa do mau caráter, e sim por questões que ninguém nunca admite. Te incomoda o funk alto que ele coloca no ônibus, né? Ou o jeito dele de te olhar, cobiçando suas coisas, como se estivesse morto de fome.

SIM! Eu ouvi EXATAMENTE isso de um pseudo-intectual-defensor-das-opressões… “Eu odeio esses pivetes malditos, olham pro meu rayban como se estivessem morrendo de fome”. Vontade de rir, de chorar, de pegar a cara desse infeliz e arrastar no asfalto. Viu, gente? Eu entendo vocês. A falta de caráter do outro incomoda demais. Só que se eu tô sendo seletiva, por que diabos vocês não caem na real de que também estão sendo e param de usar, PELO AMOR DE DEUS, esse argumento ridículo pra impedir que negros pobres frequentem as suas belíssimas praias?

Eu acho que o caminho de não relativizar, ou seja, se achar que se errou, tá errado e foi porque quis, é muito duro. Mas, namoral? Se quiserem, sigam! Peguem o barco, remem e só olha pra frente, mas ó: você deixou pra trás a mamãe, o papai, o titio, o namorado, e quase todo mundo. É difícil não ter teto de vidro, né? Mas ó, seu caráter maravilhoso é impecável e não pode se misturar na praia, que dirá no dia a dia. Eca!

Eu tô cansada de explicar que tanto faz se você aprendeu a não roubar e de fato não rouba. Você, fulana, ciclana e beltrano merecem uma estrelinha, afinal, se são brancos, classe média e nunca levaram um esculacho da vida só estão fazendo o que faz mais sentido. Agora, namoral? Eu não ouso virar pro preto, pobre, periférico, que ouve os playboys rindo do seu rayban falso, vê na novela que o jeito deles é ridicularizado e caricaturado, que vê a mãe limpar o teu chão dia e noite e você ainda virar e falar “pô, se eu não sujar, que trabalho ela vai ter?”, e que olha nos seus olhos e já te vê suar frio, trincar os dentes e agarrar o iphone, enfim, eu não ouso virar pra esse cara e dizer: “po, mano, não é nada ético você pegar o meu celular que eu suei tanto pra pagar”.

Será que é ético a gente aceitar essa desigualdade social, essa falta de infraestrutura dada às favelas, essa omissão do Estado dentro dos presídios e dentro de qualquer lugar onde existam pobres precisando de ajuda? Aí, se liga, tem uma criança morrendo a cada três dias no Alemão. Eu não vou virar e falar pro pivete que ele tá errado em sentir ódio, não vou mesmo. Me obriguem. Ele tá é reagindo. Assim como vocês reagem. Só que ele reage porque é pisado, cuspido, esquecido e no mínimo escorregão, toma logo uns meses ou anos no inferno. Você reage porque ele existe e tem ódio de você. Quer uma mudancinha básica? Tenta fazer ele não ter que ter ódio de você. Pede aí o bom caráter dos seus governantes que nunca cumprem metade das drogas de promessas pros que habitam as favelas e precisam do serviço público. Mas pelo amor de Deus, não faça isso com outros objetivos. Ahh! Para de falar mal do SUS só pra ter uma desculpinha pra pedir o Impeatchment. Você nunca foi e nunca vai precisar do SUS, mas se quer mesmo ajudar e mostrar compaixão por essa galera, vê se dá uma moral comprando o amendoim no ônibus, parando de fingir que os pretos jogando no chão da praça Saes Pena não existem, e principalmente: enfraquecendo essa corrente atual que quer trazer o tal do “bom caratismo” ao Brasil por isso ser sinônimo de “fora PT”. Se você quer falar de bom caráter, pelo amor de Deus, começa parando de mentir pros seus pais, pro seu namorado, pra sua namorada, parando de ser um inútil pra sociedade mesmo estudando em faculdade pública, argumentando com seus pais porque eles tem apoiado pessoas como o Bolsonaro, e sei lá, sendo a droga da diferença. Tenho nem dúvidas de que falta bom caratismo no Brasil, só que eu prefiro focar nos que me cercam. Afinal, a vidinha de vocês eu conheço, os passos que vocês deram, as imagens que propagam…

Tudo.

Vocês nunca pararam pra olhar pra periferia. Nunca. Não parem pra olhar agora só pra bancar a polícia do bom caráter. Ou vocês olham definitivamente, ou meias olhadas não são bem vindas.

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