Um quebra-cabeça nunca é formado por peças iguais.

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As diferenças sempre me assustaram. Quando eu tinha unhas curtas e as garotas sempre conseguiam mante-las enormes, quando todas eram festeiras de carteirinha e eu não saía de casa direito, quando todo mundo beijava na boca e eu ainda era a famosa boca virgem. Sem pecar no exagero, eu sempre fui uma pessoa insegura até demais. Irônico, mas o que me tornava a figurinha brilhante do álbum, causava também um desconforto terrível. Se todos eram felizes sendo do jeito x, como que eu ia conseguir um final feliz sendo y?

Eu lembro quando alisei meu cabelo aos 12. Faz um tempão, mas eu nunca esqueci da sensação de me achar bonita pela primeira vez. Triste, mas entrar pro padrão era tudo que eu sonhava na época. No que diz respeito a tentar me padronizar, fui longe e tenho boas histórias. Aliás, boas não. Só engraçadas. Por exemplo: eu queria muito ter a franja de uma menina da minha sala na 4ª série, mas meus pais nunca deixaram, então acabei me ferrando demais tentando fazer sozinha no espelho do banheiro. Aquele cabelo indefinido e pra cima ficou uma bela d’uma porcaria quando a minha mãe decidiu não me levar no salão para consertar, afinal, eu tinha uma lição para aprender. Foram alguns aninhos de fotos constrangedoras que espero nunca mais ver. Dói lembrar o quanto eu era meio boba com as tais diferenças.

Aos 20, admito que achei que tinha superado. Gosto do meu cabelo curto em contraste com a moda dos cabelos compridos, admiro meu jeito extremamente emocional perto da galera meio vazia que me cerca, adoro não ter muitos objetivos definidos – e sim sonhos. Mas no meio das férias, me deparei com uma situação difícil de lidar. Apaixonada, livre, amada, eu estava perfeitamente acomodada no meu potinho de amor, porém a vida nunca é calmaria o tempo inteiro. A onda que veio me pegou em cheio: eu e ele não somos iguais.

Eu sei, isso é completamente normal e não existem pessoas idênticas por aí, aliás, a graça da vida é exatamente essa. Ok. Só que eu não visualizei dessa forma. Uma coisa é ele gostar de sorvete de alpiste e você detestar, mas e quando características diferentes um tanto mais profundas saltam ao seu rosto? E quando uma parte sua caminha para a direção contrária dele?
Quando ele sonha com o amanhã, e você só quer a certeza da noite bem dormida. Quando ele é religioso fervoroso e você é a ateia mais descrente do mundo. Quando ele é aventureiro e você tem medo de quase tudo fora dos muros da cidade.

Amar alguém distinto dessa forma é a melhor experiência que nós poderíamos ter para crescer, definitivamente, mas só se você tiver uma certeza aí dentro: desistir não é uma possibilidade. Veja bem, nesse caso nenhum dos dois é potencialmente perigoso para o outro, aqui só existe um casal que se dá bem em quase tudo. Quase. A beleza dessa palavra é que os seus limites serão testados, ultrapassados e expandidos. A escolha será clara: sua zona de conforto ou os braços dela? Seus medos incoerentes ou o sorriso dele?

Sendo quem sou, não reagi muito bem ao enfrentar a realidade de que, apesar das nossas maravilhosas semelhanças, tinha um lado dele incompatível com tudo que eu já tinha sido até hoje. A insegurança bateu. Será que eu serei sempre o suficiente, ou vou perde-lo aos poucos por não acompanha-lo nisso também? Parece bobeira, mas quem já passou por isso pode confirmar: divergências podem ligar qualquer alarme mais sensível ao caos.

Entretanto, a situação foi resolvida e eu entendi mais uma vez como não teria a mínima graça se eu já tivesse nascido exatamente como ele. Meu lado controlador de ascendente em capricórnio suspirou. Se a gente é amado por alguém, não adianta, podemos até não entender, mas se foi o seu dedinho torto, simplesmente foi e apesar de diferente, foi perfeito.

Mesmo que a voz fraquinha soe forte na sua cabeça e te convença de que os afastamentos emocionais nascem em discordâncias, tente não esquecer do preceito mais básico da vida: diversidade é o que há de melhor. Sejamos fiéis ao amor e tenhamos fé no fato de que tudo se encaixa. O tempo passa calmo e sábio, os sonhos se alinham, os gostos se complementam, os medos se vão e a certeza só fica maior: se a gente ama pelo que a pessoa é(e não pelo que ela poderia ser), nós somos amados exatamente nessa mesma linha de raciocínio.

E só pra relembrar, hein? O amor tudo espera, tudo suporta, tudo sofre e tudo crê.

Agora, fica como presente de mês-aniversário um soneto-poema-treco que eu fiz mesmo sabendo que iria ficar um lixo. O motivo continua interno, mas a essência fica explícita o suficiente.

NÃO TE AMO pelas centenas de livros que leu, filmes estrangeiros que gostou
ou por adorar falar no celular,
te amo pelo Pequeno Vampiro, pelo American Pie e
por nunca ao livre e espontâneo acaso me ligar.

Te amo como todas as mocinhas amam seus respectivos pares,
trocando a dependência cega pela doce cumplicidade,
abrindo mão da tediosa fantasia pela mais emocionante realidade.

Te amo porque se não amasse não sei quem seria,
muito menos o que faria,
aliás, certamente viajaria,
tentando te achar em alguma sorveteria.

Te amo porque contigo posso chorar,
insetos odiar,
meu pé na trilha machucar,
e sem censura ou freios: reclamar.

Te amo porque seus braços são meu abrigo quando preciso me refugiar,
Seus pés meus guias quando não consigo andar,
Seus olhos minha luz quando não posso enxergar,
Seu sorriso minha melhor inspiração mesmo em uma noite de luar.

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