Relacionamentos abusivos parte B.

Jogaram no ventilador e cá estamos nós com o último assunto do momento: relacionamentos abusivos. Certo, nós já estamos cansadas de saber o quão trouxa é aquela amiga que troca de roupa porque o namorado disse que ela estava parecendo uma prostituta ou algo do tipo. Inclusive, a dificuldade começa em se relacionar com alguém que tenha coragem de te ofender em prol de si mesmo.

Só que nós estamos muito a frente desse lance de aceitar informações e parar por aí, né? Não é porque disseram x que nós necessariamente acreditamos e copiamos o pensamento imediatamente para o nosso bloquinho de informações. Suspirei quando vi vídeos e li textos sobre o assunto, porque apesar de achar super necessária a reflexão dessas meninas que tem namorados babacas e desses caras que se tornam cachorrinhos por causa de namoradas bonitas, eu não acho que pare por aí.

Relacionamentos abusivos passam pelo setor das amizades, pelos familiares e até mesmo pelos nossos ambientes de trabalho. Pra começar, qualquer pessoa que tente destruir seus sonhos, sua dignidade e suas outras relações não é alguém que manterá algo saudável contigo. Nem se você tentar, se enganar constantemente e acabar por se machucar ainda mais. Experiência própria.
Aquela amiga que não consegue ouvir um desabafo pesado seu sem cair direto em um relato emocionante sobre a vida dela definitivamente não te merece. Sem esquecer de colocar no time o seu pai, que te chantageou para você seguir x profissão, e aquele professor que vive dizendo o quão lixo de aluno você é por não ser nível Alemanha.

Eu sei muito bem como é difícil decidir seu futuro aos 18, julgo profundamente essa necessidade capitalista de correr atrás de uma vida baseada em trabalho forçado e mecânico, mas será que chantagem é a melhor forma de fazer seu filho refletir sobre as dificuldades do mundo atual?
Quando você senta e abre seu coração, mostrando todas as suas preocupações e pensamentos sobre o tópico, demonstra o tal “amor” fraterno que realmente pode fazer com que você ache o curso x uma grande furada. Mas qualquer coisa diferente disso, desde chantagens até imposições violentas, é abuso e muitas vezes passam invisíveis sob fachada de “eu quero o melhor pra ele”. Eu já cansei de ver mães que impediram namoros de filhas porque os “genros” não tinham dinheiro, ou não aceitavam “noras” porque lhes faltavam a mesma religião ou um elemento x injustificável. O quão prejudiciais são essas situações? Só o tempo dirá. Digo, o nome do asilo, né? Ou do anti-depressivo pro filho conseguir chutar a bola pra frente e ignorar todas as suas frustrações por nunca ter tido um pai ou uma mãe que tenha, de fato, expressado amor e não interesse. Aliás, pior ainda é quando além disso tudo, a pessoa joga suas frustrações nos seus próprios filhos. Duas gerações traumatizadas por abusos que poderiam ser solucionados com a simples aceitação: você só vive uma vez, só ama uma vez e se fizer mal feito, o caos é inevitável.

Já o caso acadêmico, clássico, é o que mais acontece e passa despercebido aos olhos das crianças que sentam em sala de aula e aceitam críticas destrutivas como construtivas, coisa que de longe me dá náuseas, porque com estratégias nesse estilo que meninas anoréxicas denigrem seus corpos em busca da “perfeição”. Quando um professor entra em sala e te diz que sua escrita é um lixo e por isso você deve rever suas escolhas de vida, no máximo ele merece que você o deixe falando sozinho e o denuncie a algum superior. O ruim é quando não tem superior, né? Aí fica o paspalho destilando seu veneno sobre como você não chega aos pés do aluno dele da Alemanha que lê 27 livros a mais que você, ao invés de te ensinar algo. Eu me pergunto: se ele é pago para dar as 2 horas de aula, por que diabos passa 1h e 45 minutos refletindo sobre como você não chega aos pés do lattes dele? Incompetência? Honestamente, esse abuso é tão sério quanto o namorado que manda a garota tirar o batom vermelho. Só quem tem uma amiga que chora todos os dias na faculdade sabe como é difícil ver gente cruel brincando com pessoas emocionalmente instáveis. Digo, será que, em pleno século XXI, estamos desmerecendo os efeitos de palavras odiosas contra mentes que estão se formando?

Nada como um elogio e motivação em forma de discursos otimistas, certo? Eu me pergunto que tipo de criação surreal teve o professor que tenta destruir os sonhos e a dignidade de seus alunos, sem nem mesmo se preocupar com o efeito que essas palavras ruins podem gerar. Se a sua vida é uma merda, meu caro acadêmico, não desconte ou tente piorar a de outros. Papel de professor é ensinar, acrescentar, somar. Se é pra subtrair escolha outra ocupação, afinal, os erros de português podem ser aprimorados, mas falhas de caráter são praticamente impossíveis de serem consertadas.

E o que me irrita mais, foco do texto de hoje, é quando o relacionamento abusivo se instala em uma amizade. Vocês são amigas desde crianças, mas ela nunca conseguiu ouvir um desabafo sério. Nem mesmo quando sua avó morreu, ou quando seus pais se separaram. Ela nunca notou como te incomoda ouvir dos vinte mil caras que ela pega enquanto você está no meio de uma confissão sobre sua insegurança diante dos rapazes. Essa garota não é sua amiga, mas qual é o problema de você manter algo assim?

Primeiro, você nunca vai descobrir quem realmente é se ficar cercada de pessoas que nunca tentaram te conhecer, e nem te incentivam a fazer isso. Amizades servem para te edificar. Chamar todos de amigos é tão errado quanto não chamar ninguém. Nós precisamos de pessoas, mas não para serem enfeites e ganhar curtidas em redes sociais. Nós precisamos ser observados, analisados e amados por alguém, para termos o que ouvir quando surgirem as dúvidas sobre o sentido da vida, ou ainda, quando os nossos erros começarem a se tornar repetitivos.
Quando você tem uma amiga que não sabe, por exemplo, que você não gosta de se olhar no espelho, no mínimo você precisa se questionar sobre os motivos para a proximidade ter acontecido. Amizades não são portos seguros? Por que tolerar pessoas que só nos afogam em críticas ou monólogos sobre suas próprias vidas?

Eu estava no meio dessa “busca por respostas” sobre amizades abusivas quando me deparei com duas gurias. Uma pegou o garoto que a outra queria pegar. As duas queriam, a princípio. Entretanto, a que tomou iniciativa é menos tímida e mais segura. Eu já estava tomando nota de que essa garota, que passou por cima da amiga, por ignorar que a outra é vinte vezes mais travada e tal, é totalmente errada e as consequências dos atos dela são as lágrimas dessa que saiu no prejuízo. Qual foi a minha surpresa quando eu vi essa doce e machucada menina começar a destilar comentários racistas, elitistas e totalmente sujos sobre a garota que ela chama de amiga, diz que ama muito e etc? Toda.

Então, em segundo lugar: pare de se enganar. Se você tem uma amizade em que se sente mal e abusada, resolva as vírgulas por você e pela pessoa. Não é por sair sempre perdendo e sendo inviabilizada que você ganha um crédito para destilar veneno pelas costas dela e, puft, em um passe de mágica vocês estão quites.
Não!

Nós, mulheres, precisamos entender que se a amizade não está legal, nunca vai ser ruim de um lado só. Isso, de você agredir quem te agride, e achar que se o placar igualar a amizade está saudável de novo, é pura enganação e perda de tempo. Não é porque ela te fez perder uma amiga que você pode ganhar outra contando algo secreto dela, e definitivamente ninguém sai ganhando quando duas mulheres sorriem uma pra outra, mas no fundo se odeiam ou não se importam de verdade. Nem homens, diga-se de passagem, afinal, cansei de ver casos onde os tais “amigos” dividem cervejas todas as sextas, mas nunca se sentem a vontade para pedir um favor, contar um problema ou confessar que, no fundo, odeia x mania no outro.

Que amizades são essas?????

Que tipo de pessoas nos tornamos????

Ninguém merece ter seu coração pisado por outra pessoa, seus sonhos ridicularizados e outras amizades influenciadas. Ninguém merece comprar um pacote que deveria ser sinônimo de paz e segurança, e ganhar julgamentos e hipocrisia. Muito menos se submeter a algo só porque não sabe o que fazer para mudar a situação. Por que manter perto de você alguém que te faz mal, se tem tantos desconhecidos aí doidos para te fazer bem?

A questão é que se você tem um relacionamento abusivo, e o mantém mesmo diante dos efeitos negativos, tem algo de errado aí dentro. Sem tirar o erro do abusador, mas eu me importo muito mais com a sua propensão para ser pisada, ignorada ou subestimada. De onde nasceu essa insegurança, e para onde ela irá? Por que você se submete a isso?
Nós precisamos ser livres, inclusive dos nossos piores fantasmas, inclusive de nós mesmos. Não é porque você viveu a vida inteira de uma forma que precisa continuar a abaixar a cabeça para pessoas que te manipulam em prol de si mesmas, e definitivamente já não temos espaço para os “errados” serem protagonistas. Segundas chances, que na verdade são quartas ou quintas, podem até acontecer, mas eu diria que agora não. Primeiro você se liberta, se descobre, aprende a se amar e a dar importância a tudo que já foi tão ignorado por alheios. Depois, só depois, você considera se eles ficam ou vão embora definitivamente.

Eu já estive na cadeira dos abusados, e infelizmente tem ambientes em que eu sempre vou estar, mas a questão é a postura que você toma diante do fato. A distância mínima e conciliável, os muros levantados e o tempo diário no empoderamento necessário para passar a se enxergar como alguém que merece sonhar, ter as relações saudáveis que quiser e a certeza de que sua integridade é mantida mesmo que qualquer um tente atacá-la.

Seja feliz com as pessoas, mas primeiro, seja feliz sozinho. No seu quarto, antes de dormir, antes de tomar café, depois de cometer o maior mico de todos. Nunca se veja como alguém frágil que precisa de adestrador ou uma babá que te diga o que fazer, quando fazer e porque fazer. Você já nasceu inteiro, só falta compreender isso. Uma vez consciente, ninguém mais vai ter tanta facilidade para gritar, machucar ou te desvalorizar. Afinal, conhecimento é uma virtude, mas auto-conhecimento é tática de sobrevivência.

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One thought on “Relacionamentos abusivos parte B.

  1. Acho muito válido abordar esse assunto, Raquel! Relacionamentos abusivos são sempre um problema que deve ser tratado com muita delicadeza para não causar um estrago maior. Uma coisa que vc disse, sobre ser feliz consigo mesmo antes de tudo, acredito que é a chave mágica. Muito daquilo que é aceito nesse tipo de relacionamento é porque a vítima acredita não encontrar outra pessoa que irá “amá-la”, ou porque está muito ligado emocionalmente a seu opressor. A lavagem emocional que a vítima sofre é tanta, que ela acredita veemente que é um zero a esquerda :/

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