Vale a pena sentir? Agora, in personal.

Ok, são três da manhã e meu sono finalmente chegou. Entretanto, lembrei do texto que supostamente postaria hoje e meu estômago me avisou: não será dessa vez. Depois de um dia inteirinho sendo paranoica, preocupada e ansiosa com umas questões relacionadas ao “amor”, parei para pensar na essência do texto que publicaria: “Vale a pena sentir?”. Sanando suas dúvidas, minha conclusão foi positiva e eu usei mais de mil palavras em um raciocínio sincero onde eu apostei todas as minhas fichas no ato de sentir mesmo que pareça uma maluquice se dispor ao caos do “não deu certo” como uma das possibilidades do final.

Cá entre nós, o texto não era um dos piores. Só que depois de ter aquela reflexão rotineira da madrugada, concluí que se eu falasse de forma impessoal sobre o amor que faz com que eu seja mais do que tolerada nos meus piores momentos, e sim compreendida e cuidada, eu seria no mínimo uma idiota. Logo em um dia onde eu vi com meus próprios olhos como paixão não basta, tornando-se essencial o humor, a paciência e principalmente: a fé. Captou? Só depois de colocar na passarela sua pior versão de si mesma que você entende de verdade como o amor é o cara que tudo supera, tudo crê, tudo sofre e tudo suporta; e definitivamente, como você é grata por ele existir. Nenhum texto antes desse diria o que anseio tanto por dizer, então, rufem os tambores.

Bom, eu tinha uns 12 anos quando parei para notar como os casais a minha volta eram extremamente estruturados e pareciam felizes, estilo contos de fadas. Lá pros 15, entendi que na verdade tudo é uma grande ilusão. Ninguém é feliz o tempo inteiro, muito menos duas pessoas juntas. Ninguém nasceu para outra pessoa, ninguém nem mesmo consegue se adaptar totalmente à outra. Nós aparamos nossas arestas com a certeza de que algumas ficarão e torcemos, todos os segundos diariamente, para que isso não termine em um precipício.

Apesar das desilusões de debutante, lidei bem com a situação e resolvi: eu só quero estar satisfeita. Como hiperativa de carteirinha, até mesmo as minhas vontades mudavam constantemente, e o medo de nunca querer alguém por mais de seis meses me perturbava mais do que eu consigo expressar nesse parágrafo. Consulte quem você quiser: eu tinha um recorde e não saía dele nem com toda a boa vontade do mundo. Quando uma canceriana com ascendente em capricórnio mete na cabeça que não quer algo, nem mesmo o Papa a convence do contrário. Até que depois de um tempo comecei a entender que na vida a gente nunca faz algo apenas porque decidiu faze-lo. Não, tem sempre um ingrediente a mais que te faz estar completamente sem o controle da situação.

Sem a possibilidade de ser controladora, lidei bem com o fato de que o destino está aí para ser cumprido. O desafio foi a vulnerabilidade subentendida nessa atmosfera incerta. E quem é que nunca associou a própria fragilidade com fraqueza ou defeito? Jogue-me a primeira pedra, por favor, porque eu mereci. Apesar da situação ser, de fato, desconfortante no começo, aos poucos passei a entender que o que te faz realmente ficar é a maravilhosa (e constrangedora) exposição.

“Fique com alguém que te faça sentir a vontade”, né? Mas por que?

Porque só nos tornando vulneráveis nos braços de alguém que nos conhecemos de verdade, encaramos o que quer que o destino nos tenha reservado e entramos de cabeça na tal “felicidade”. Não é como se nós nos sentíssemos felizes o tempo inteiro, porque as vezes tudo que nós queremos é arrancar a cabeça dele, chutar a canela e arrancar alguns fios de cabelo, mas nós temos a plenitude de estarmos satisfeitos e é aí que eu homenageio a garota de 15 anos que escolheu bem o pedido. De fato, pra que dinheiro? Pra que filhos perfeitos, casa no campo e na praia, pra que um marido gato e fiel, se corremos o risco de um dia considerarmos tudo isso insuficiente?

Eu aprendi que a única coisa que pode me fazer ficar é o fato de que ele sabe que eu sou completamente doida e não aparenta ter medo disso. Posso rir feito uma retardada, confessar histórias embaraçosas, admitir fantasias esquisitas, eu posso qualquer coisa que esteja diretamente ligada à minha personalidade e é exatamente por isso que eu fico a vontade mesmo que nós estejamos brigados, mesmo que esteja sentada em um pequeno monte de inseguranças.
Não me calo, não choro sozinha, nem sequer cogito a possibilidade de colocar em prática algum joguinho para “ficar por cima”. Ao ama-lo eu me liberto de tudo que só foi inventado para aprisionar e transfigurar nossas essências. A consequência disso é imediata: satisfação. Pra que outro, pra que sonhar em sair desse ninho, se aqui é o único lugar do mundo em que eu não preciso ajeitar meu cabelo (imediatamente) após bagunça-lo?

Uma vez de alma desnuda e aceita, já não cabe sair correndo ou inventar uma DR boba. Eu jamais abriria mão de uma pessoa que me fez ver sentido na frase “Home is wherever I’m with you”. Quando eu escrevi o outro texto, pensando que vale a pena sentir, eu não tinha capturado a essência do amor que hoje tive a honra de ter em perspectiva: nós sentimos e nos apaixonamos em busca de encontrarmos nosso lar.
Aquele onde nós podemos ficar de sapato, ou retira-los na porta, tanto faz, depende do que a gente decidir. Assim como está sob o nosso controle se queremos dormir no sofá ou na cama, ou se o quadro está torto ou está perfeitamente bem colocado. Quando nós amamos, nós encontramos um conforto que é completamente único e que jamais, nem mesmo em um milhão de anos, pode ser copiado ou forçado.

Eu agradeci milhares de vezes, mas agradeço de novo: obrigada, amor. Tanto ao amado quanto ao próprio sentimento, que regra nossas vidas com tanta sutileza e sabedoria.

Obrigada por me ensinar a falar a verdade, a beber água com frequência, a enfrentar meus próprios medos e a cometer loucuras de vez em quando. Obrigada principalmente por me entender antes que eu precise dizer uma palavra, e a achar bonitinho quando eu me empolgo e me enrolo toda. Ah, sem contar a paciência para lidar com minha memória seletiva, ou com minha abrupta mudança de assunto/ideia constante. Eu só queria me sentir satisfeita, mas além disso, você faz com que eu me veja como a melhor versão de mim, todos os dias antes de dormir. Espero fazer o mesmo, porque sinceramente não tem nenhuma versão sua que eu não considere a pessoa mais linda do mundo.

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