Apesar dos pesares.

A verdade sempre aparece. Isso desde sempre, para sempre, quando em sempre. E ao encará-la, permaneço firme e questiono-me internamente por quanto tempo aguentarei. Como em um jogo, quem mantém a compostura ganha, e o copo tende a estar vazio. Sem pessimismo, apenas fatos. A verdade é ilimitada, incondicionada, insuportavelmente forte e incapaz de sucumbir. Por outro lado, meus ombros caem dois minutos após o início da competição. Meus olhos enchem de lágrimas, o grito interno fica preso na garganta. É impossível resistir ao poder da realidade.

Encarar a plenitude do seu ser, ou seja, a verdade, é pesado e necessário. O ato de fugir se torna tão falho quanto o de abraçar o momento. Ao se perceber por inteiro é praticamente impossível suportar tamanha reflexão. Sua mente fica em branco, mas seu corpo reage. A dor aparece. Claro, isso no meu caso, onde vivo apostando nos meus sorrisos e nas minhas grandes ideias para fugir do tedioso e monótono dia-a-dia. Apesar disso ser uma das melhores estratégias para viver, perco por passar tanto tempo sem ter contato com meu lado obscuro. Afinal, se eu o visse com mais frequência, talvez o baque diminuísse. Talvez eu ganhasse, não o jogo, mas a resistência que tanto preciso.

Portanto, deixo anotado aqui que após essa terrível experiência, tentarei submeter-me às meditações que preveem tal encontro pessoal com mais frequência.

É tão difícil aceitá-lo. O contraste é absurdo, se observado atentamente. Sem piscar os olhos, esforço-me para lembrar das minhas qualidades. Tento compensar tudo em mim que é mais obscuro do que devia. Afogo-me em mágoas, noto portas trancadas e jamais exploradas, espio pela fechadura e entendo que, independente do que existir do outro lado, nunca valerá a pena deixá-lo escapar. Caminho por erros que viraram hábitos. Tropeço em defeitos que viraram bichos de estimação. Engulo em seco ao notar como a insegurança é muitas vezes utilizada de gasolina essencial para o processo do “ser”. As lágrimas descem. Quando você se enche de coisas boas, seja no exterior ou no interior, acaba por alienar-se mais do que o saudável. Abrir mão da responsabilidade de lidar com seu lado feio e imperfeito não é necessariamente ser um exemplo de pessoa, como tentas ser diariamente. Na verdade, isso te faz um covarde e infelizmente, realmente lamento, mas apesar de todo esforço, ninguém se torna inalcançável.

Respirei fundo e tentei achar o equilíbrio entre meu lado podre e todo o resto. Temi. Temi o olhar de quem me ama exatamente pelo meu sorriso diário ou pelas minhas graças fora de hora. Temi a ausência que aconteceria logo em seguida, após o choque de notar como eu posso soar uma farsa, sendo dona de facetas tão obscuras e falhas.

Quem entenderia, além de mim, que eu sou a personificação do “apesar dos pesares”?
Quem captaria que eu sou amável por ser tudo que sou nos dias bons, mas que eu preciso desse amor principalmente quando entro nesses labirintos mentais onde a minha sósia imperfeita aparece e pinta o cenário com pessimismo, desilusão, medo e insensibilidade? Que eu preciso ser amada não só quando merecer?
Quem…
Quem chegaria perto o suficiente para me ver por inteira e não fugiria, não me abandonaria, não desistiria?

De fato, retomei a compostura quando o pensamento saltou-me aos olhos: o sentido dessa jornada é evoluir. Se cá estamos para aprender algo, para viver plenamente apanhando e ganhando resistência, necessariamente tenho coisas em mim hoje que já não existirão amanhã. Talvez parte da preguiça, talvez um terço da insegurança. Sendo assim, não é tão difícil olhar para as minhas mãos, um tanto grandes e indefinidas – nem gordinhas, nem magrinhas -, e amá-las, é? Amá-las apesar de serem tão indignas de amor ou carinho. E quando exemplifico com as mãos, espero ser lida corretamente: falo da minha alma. Que por vezes falha, por vezes acerta, mas que nunca tem em si a capacidade de desistir. Vontade existe de sobra, mas as possibilidades se esgotam antes mesmo de existir. Não desisto de ninguém, nem mesmo de mim. Mesmo que queira, mesmo que precise falar isso ao vento pelo menos cinco mil vezes, mesmo que desesperadamente chore implorando que a força sobrenatural que nos rege finalmente me permita… Nunca durmo e acordo com o mesmo pensamento. Como se estivéssemos em um universo de video-game, sou resetada e reiniciada. E nada melhor do que uma página em branco para recomeçar, tentar novamente, dar espaço ao olhar esperançoso que ontem a noite só sabia chorar.

Enfim, imersa em reflexões, reparo novamente em meus erros e falhas, minhas imperfeições e obscuridade. Já não parecem tão indignos, poderosos ou fortes. Já não parecem insuperáveis. Apesar do choque necessário de passar um dia inteiro me sentindo um lixo por ser capaz de sentir tantas coisas ruins ou inteligíveis, termino as vinte e quatro horas com um suspiro profundo de paz.

Apesar dos pesares, aponto pra fé e remo.

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