“Let’s leave no words unspoken”.

Sempre gostei de descrições. Quando eu era mais nova, ou eu escrevia sobre as minhas infinitas características ou eu refletia sobre como eu não entendia absolutamente nada do que acontecia ao meu redor. Interessante, apesar de tudo, porque eu gastei uma energia vital enorme ao me preocupar insistentemente com o fato de que, se eu encontrasse o amor da minha vida, ele precisava ter o que consultar para descobrir sobre mim. Eu tinha um medo tremendo de não apresentar todos os meus defeitos e qualidades, explicitamente, e algum dia acabar abandonada em uma esquina. Obviamente, a culpa seria minha. Eu que seria a culpada de não ter transparecido o suficiente como eu sou absolutamente confusa, ou como eu tenho medo de escuro.

O tempo passou e eu nunca fui lida por algum cara. Nunca. Nem sequer uma vez. Ok, para ser justa, um amigo do meu ex-namorado adorava ler meu blog de vez em quando. Ele elogiava e eu ficava feliz, mas algo parecia errado. O cara que me levava em casa era o que não se importava se eu estava aflita com o mundo ou se eu estava no meio de uma crise existencial; enquanto o amigo estava lá, quase criando meu fã-clube. Apesar do orgulho ferido, o tempo foi o grande solucionador dessa situação. Quando já não havia mais ninguém, de novo, eu me dispus a escrever de novo. Eu sei que soa loucura, mas se eu não expusesse cada vírgula minha, eu sentia que estava sendo injusta com o mundo. Afinal, lá estava eu, uma bomba atômica com covinhas prestes a entrar na vida de qualquer um, e mais calada do que um baú fechado há mil anos.

Irônico, eu sei, mas de alguma forma contigo foi quase o inverso. Eu não conseguia, e nem consigo, parar de falar ou de te atormentar com as minhas ladainhas. Eu simplesmente me tornei uma criança tagarela que, infelizmente, ainda precisa dividir cada vírgula, cada descoberta. Sejam os nazistas e a Revolução Francesa, seja a minha incapacidade de viver sem ter um guia. Sem ter alguém para admirar. E pensando nisso, na minha mudança de atitudes em equilíbrio com a sina de ter que dividir cada célula minha, concluí que nunca tinha sido tão explícita. Antes não era apenas uma preferência, eu realmente era limitada a escrever em um endereço virtual abandonado. Não havia dentro de mim capacidade para abrir a minha boca e me entregar de bandeja pra qualquer um. Sem desmerecê-los, só não parecia certo. Não era tão simples.
No meio da noite, o assunto correu e eu descobri que algumas – muitas – amigas minhas se sentem assim com seus respectivos namorados. Tem vergonha de ousar, tem dificuldade de falar, tem medo de qualquer exposição. Com elas a simplicidade não aparece, ainda, e a engrenagem não funciona.
Parei no meio da madrugada, coloquei um casaco quentinho e visualizei a minha máquina interna. Respirei fundo, soltei uma risada e mordi o lábio segurando a minha vontade imediata de dividir a minha satisfação contigo.

Eu posso ser absurdamente infantil, medrosa, confusa, irresponsável, controladora, tagarela; eu posso ser absolutamente tudo, porque contigo a engrenagem não só funciona, como a máquina é mais eficiente do que uma fábrica inteira funcionando. Cogitei, por um segundo, estar me enganando ou iludindo. Não me leve a mal, é uma conclusão um tanto significativa para escrever em um parágrafo sem nem mesmo fazer a prova real. Então, como de costume, vasculhei a minha mente. Lembrei-me de como você ainda sabia, lá pelo sexto encontro, a roupa que eu usei no segundo e também voltei até a noite fria em que eu chorei contra o seu peito até que meus fantasmas do passado fossem embora.

Apesar de você ser uma das caixinhas de surpresa mais intensas e distintas que eu já pude conhecer, apesar dos meus pesares, a nossa complexidade se encaixa e torna-se simples. Você pega meus medos com a mão e desmistifica um a um com todo o seu amor, com toda a sua gentileza. Ou até mesmo com o seu pragmatismo. E eu, não menos importante nessa equação, não fujo diante das suas perguntas, ou das suas conclusões. Seus medos, suas fraquezas, suas dores. Tudo é tão seu que se torna meu. Tudo é tão seu que se torna incrivelmente simples aos meus olhos.

Porque diferente dos meus mistificados pesadelos, os seus me soam etapas que a gente encontra e ultrapassa. Os resquícios viram verso de música, mas só. Nada de dor ou solidão. Eu sinto como se soubesse exatamente o que fazer.

Portanto, por mais que eu sinta saudade de fazer uns textos explicando como eu seguro a caneca de Nescau com as duas mãos e tenho uma dificuldade enorme de não subir nos canteiros da minha rua ao ir até a papelaria, hoje a noite eu concluí como eu não poderia estar diante de algo mais bonito. Eu posso te contar, mas não preciso escrever e esperar que você leia caso o destino bata na porta. Eu posso olhar nos seus olhos, falar e rir, sem esperar julgamentos ou traições. Você foi o primeiro cara que me leu e ouviu, e definitivamente o único que desvendou o mistério da garota que adora ficção, tem medos bobos e precisa ser abastecida com esperança diariamente.

PS:
Odiei o lance do garoto ter falado logo essa frase lá no fb…
Gente, dá licença?
Minha fucking música.

PS2:
Os textos que eu costumava fazer:
https://hiperbolei.wordpress.com/2013/11/21/auto-retrato/

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s