E o tempo passou.

Ele andava com os olhos fundos, pele ressecada, pés sujos e descalços. Em uma sociedade onde os estoques estão abarrotados, lhe faltava absolutamente tudo, inclusive um óculos para conseguir enxergar rostos ao invés de borrões. Irônico, mas ao menos com essa ausência ele era poupado de ter sua dignidade roubada pelos olhares de medo, raiva, ódio e dúvida que recebia diariamente. Sim, a lógica dessa sociedade é que você é julgado pelo que não tem. Se te falta um tênis, um short, um celular de marca ou um simples óculos, sinta-se bem vindo ao clube dos excluídos. E isso ele sabia perfeitamente, afinal, não era cego.
Percebia os rostos se virando rapidamente, ou os corpos passando mais rápido quando ele se aproximava, mesmo que despretensiosamente. Ele não precisava fazer absolutamente nada: o efeito da sua presença era sempre o mesmo. Quando pequeno, se questionava sobre possíveis diferenças que o faziam ser o garoto que vendia balas e não o garoto do parquinho. Os mais velhos responderam não tão sabiamente: ele nasceu pra isso. A janela foi fechada antes dos 6 anos.
O homem, aos 32, sem um braço, manco, que não tomava um banho há 2 meses e mal conseguia falar após diversos traumas, tinha suas respostas incompletas e injustas como um mantra interno. Ele tinha nascido daquele jeito e não podia reclamar, porque suas cordas vocais estavam prejudicadas, mas cá entre nós: ninguém ouviria mesmo que conseguisse pronunciar suas verdades em cinco mil línguas e dialetos diferentes. Pergunto-me se era a ignorância desse fato que fazia daquele homem um simples homem que não tinha nada. Nem mesmo uma ficha criminal pesada. Uns furtos de vez em quando, mas nada que pudesse trancafia-lo na senzala que eram os presídios.
Ele tinha perdido irmãos para a lei, assim como irmãs e padrinhos. João, um adolescente que o alimentava enquanto ele se recuperava de ter perdido o braço, era cheio de vivacidade e tinha um sorriso bonito. Um sorriso que merecia estar na capa das revistas, mas diante do padrão imposto, jamais teria sua chance. O menino inclusive tinha um orgulho tremendo de sua cor, e ensinou ao nosso homem sem nada (inclusive sem nome) que ser negro é muito mais do que simplesmente ter mais melanina na pele. Ser negro é carregar um fardo e carregar a missão de diária de libertação. Ninguém que não fosse negro poderia entender, apesar de insistirem em falar sobre isso, apesar de insistirem em dizer que a cor não importava. João dizia: “a cor importa sim. A cor me faz ser revistado, e a cor me marginalizou. A cor me impediu de ganhar empregos, de dividir elevadores sociais, de receber flertes ao invés de olhares assustados” e repetia “a cor importa. E já que eles sempre me fizeram entender isso implicitamente, vou deixar isso explícito em tudo que eu fizer, em tudo que eu cantar, em tudo que eu tocar. Sou preto, sou gente, e sou diferente. Viver na minha pele nenhum branco conseguiria, e é exatamente por isso que eu vivo com prazer. Meu maior orgulho é ser preto e continuar vivendo. Continuar resistindo”.
João foi mandado pro presídio por birra de um policial, tão preto quanto ele, mas que não entendia uma palavra sequer que o menino soltava. Um muro os afastava, uma muralha feita de ordens, dinheiro e falácias. Ele foi jogado dentro de uma cela com mais 15, e só saiu quando se lembraram dele. Só quando já era tarde demais.
Ao voltar às ruas, esqueceu-se do nosso homem sem nome, que a essa altura já se virava com doações de senhorinhas na porta da Igreja Católica da praça. Mas definitivamente não foi nada pessoal, porque depois de sair da cadeia João esqueceu-se de absolutamente tudo. Ele tinha sido obrigado a conviver com tantas perversões, falácias odiosas, dor e vingança que já não conseguia absorver nada, além disso. A lobotomia estatal era um sucesso: João era um monstro que não queria mais saber da sua cor, da sua vida, muito menos de resistir. Ele nem sequer queria algo. Apenas reproduzia tudo que tinha sido sua realidade durante anos no exílio infernal que deveria ser responsável por “socializá-lo”.
O nosso personagem principal sofreu pelo amigo que não foi morto fisicamente, mas poderia ser considerado falecido. Após observar essa história e outras se repetirem, algumas perguntas ficaram sem resposta, mas como você soluciona problemas sem nem mesmo dividi-los com alguém que, possivelmente, sabe mais? Mudo, podia sentir cada dia mais, sua ponte com o restante da população ser queimada e destruída. Entretanto, será que se ele falasse, será que se suas cordas vocais fossem perfeitas, suas questões seriam ouvidas?
Joana dizia que não. Sua única amiga, que parecia enxergá-lo e amá-lo, desaparecia durante a noite, mas sempre trazia pão fresco e um pingado de café da manhã. Dormia até o meio da tarde e depois resmungava alguns comentários sobre o mundo real. Inclusive, dizia que ninguém se importaria caso eles morressem sem ter uma casa, sem ter tido uma carteira de identidade. Respondendo às perguntas que ela nunca escutou, discursava sobre como uma parcela da população precisa morrer no anonimato para que a outra exista e se exiba diariamente em capas de revista. Ali, naquele beco, ela dizia se sentir protegida. Era a casa dela e do Zé, por sinal, esse foi o nome dado ao nosso rapaz. Zé sorria sempre que ela pronunciava seu novo vocativo, mas nunca conseguiu contar o real motivo.
Certo dia, Joana não apareceu. E foi assim durante um tempo, até que lá pela terceira semana, talvez quarta, surgiu timidamente pela manhã. Com leves hematomas pelo rosto, aparentando estar em recuperação, Joana mancava e tinha em sua barriga alguns curativos. Zé não questionou, nem queria; só a abraçou e olhou por tempo suficiente para que só o choro daquela forte mulher rompesse o silêncio. “Sabe quando dizem que a primeira vez a gente nunca esquece, Zé? Eu tinha esquecido a minha, mas sempre tem um infeliz para fazer valer o ditado. Sempre”, Joana tentou falar mais em meio aos soluços, mas o nosso homem a abraçou tão forte que o conforto lhe calou, e foi o suficiente. Depois, com mais calma, relatou tudo que a polícia também soube, mas a diferença de atitudes foi visível: Zé chorou; os policiais zombaram, soltaram farpas e quase pareceram felizes pelas suas dores.
O tempo passou, Joana e Zé se mudaram para um barraco perto do Centro e lá construíram um lar que aos olhos de alguns nunca seria bom o suficiente, mas para eles, que nunca tiveram absolutamente nada, era um pedacinho do céu. Zé agora era alfabetizado; passava parte do dia pedindo esmolas e a outra escrevendo poemas simples, mas profundos.
Questionava se o mundo iria entender que já não existia misericórdia que salvasse os preconceituosos, os duros de coração, os visíveis que achavam necessária a invisibilidade de outros, os que tinham medo de alguém só pela sua cor ou que se achavam intelectuais o suficiente para dormirem bem a noite enquanto sua vizinha era espancada, seu “vendedor de amendoins” no ônibus entrava no tráfico para manter os cinco filhos e a tia da bala exigia que sua neta entrasse para a prostituição se quisesse morar com ela.

Zé terminou o dia comum, que era uma quarta feira, com um poema que deixou ao lado da sopa de ervilha que fez para Joana jantar:

“O mundo não apenas me ignorou,
Ele me maltratou, surrou e sufocou.
Perguntei-me hoje: será que me matou?
Respondi, com um tanto de coragem e voz: tentou,
O mundo apenas tentou,
Mas cá estou, e cá me vou,
Para lidar, amar e cuidar do que de mim restou”.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s