Relacionamentos abusivos parte B.

Jogaram no ventilador e cá estamos nós com o último assunto do momento: relacionamentos abusivos. Certo, nós já estamos cansadas de saber o quão trouxa é aquela amiga que troca de roupa porque o namorado disse que ela estava parecendo uma prostituta ou algo do tipo. Inclusive, a dificuldade começa em se relacionar com alguém que tenha coragem de te ofender em prol de si mesmo.

Só que nós estamos muito a frente desse lance de aceitar informações e parar por aí, né? Não é porque disseram x que nós necessariamente acreditamos e copiamos o pensamento imediatamente para o nosso bloquinho de informações. Suspirei quando vi vídeos e li textos sobre o assunto, porque apesar de achar super necessária a reflexão dessas meninas que tem namorados babacas e desses caras que se tornam cachorrinhos por causa de namoradas bonitas, eu não acho que pare por aí.

Relacionamentos abusivos passam pelo setor das amizades, pelos familiares e até mesmo pelos nossos ambientes de trabalho. Pra começar, qualquer pessoa que tente destruir seus sonhos, sua dignidade e suas outras relações não é alguém que manterá algo saudável contigo. Nem se você tentar, se enganar constantemente e acabar por se machucar ainda mais. Experiência própria.
Aquela amiga que não consegue ouvir um desabafo pesado seu sem cair direto em um relato emocionante sobre a vida dela definitivamente não te merece. Sem esquecer de colocar no time o seu pai, que te chantageou para você seguir x profissão, e aquele professor que vive dizendo o quão lixo de aluno você é por não ser nível Alemanha.

Eu sei muito bem como é difícil decidir seu futuro aos 18, julgo profundamente essa necessidade capitalista de correr atrás de uma vida baseada em trabalho forçado e mecânico, mas será que chantagem é a melhor forma de fazer seu filho refletir sobre as dificuldades do mundo atual?
Quando você senta e abre seu coração, mostrando todas as suas preocupações e pensamentos sobre o tópico, demonstra o tal “amor” fraterno que realmente pode fazer com que você ache o curso x uma grande furada. Mas qualquer coisa diferente disso, desde chantagens até imposições violentas, é abuso e muitas vezes passam invisíveis sob fachada de “eu quero o melhor pra ele”. Eu já cansei de ver mães que impediram namoros de filhas porque os “genros” não tinham dinheiro, ou não aceitavam “noras” porque lhes faltavam a mesma religião ou um elemento x injustificável. O quão prejudiciais são essas situações? Só o tempo dirá. Digo, o nome do asilo, né? Ou do anti-depressivo pro filho conseguir chutar a bola pra frente e ignorar todas as suas frustrações por nunca ter tido um pai ou uma mãe que tenha, de fato, expressado amor e não interesse. Aliás, pior ainda é quando além disso tudo, a pessoa joga suas frustrações nos seus próprios filhos. Duas gerações traumatizadas por abusos que poderiam ser solucionados com a simples aceitação: você só vive uma vez, só ama uma vez e se fizer mal feito, o caos é inevitável.

Já o caso acadêmico, clássico, é o que mais acontece e passa despercebido aos olhos das crianças que sentam em sala de aula e aceitam críticas destrutivas como construtivas, coisa que de longe me dá náuseas, porque com estratégias nesse estilo que meninas anoréxicas denigrem seus corpos em busca da “perfeição”. Quando um professor entra em sala e te diz que sua escrita é um lixo e por isso você deve rever suas escolhas de vida, no máximo ele merece que você o deixe falando sozinho e o denuncie a algum superior. O ruim é quando não tem superior, né? Aí fica o paspalho destilando seu veneno sobre como você não chega aos pés do aluno dele da Alemanha que lê 27 livros a mais que você, ao invés de te ensinar algo. Eu me pergunto: se ele é pago para dar as 2 horas de aula, por que diabos passa 1h e 45 minutos refletindo sobre como você não chega aos pés do lattes dele? Incompetência? Honestamente, esse abuso é tão sério quanto o namorado que manda a garota tirar o batom vermelho. Só quem tem uma amiga que chora todos os dias na faculdade sabe como é difícil ver gente cruel brincando com pessoas emocionalmente instáveis. Digo, será que, em pleno século XXI, estamos desmerecendo os efeitos de palavras odiosas contra mentes que estão se formando?

Nada como um elogio e motivação em forma de discursos otimistas, certo? Eu me pergunto que tipo de criação surreal teve o professor que tenta destruir os sonhos e a dignidade de seus alunos, sem nem mesmo se preocupar com o efeito que essas palavras ruins podem gerar. Se a sua vida é uma merda, meu caro acadêmico, não desconte ou tente piorar a de outros. Papel de professor é ensinar, acrescentar, somar. Se é pra subtrair escolha outra ocupação, afinal, os erros de português podem ser aprimorados, mas falhas de caráter são praticamente impossíveis de serem consertadas.

E o que me irrita mais, foco do texto de hoje, é quando o relacionamento abusivo se instala em uma amizade. Vocês são amigas desde crianças, mas ela nunca conseguiu ouvir um desabafo sério. Nem mesmo quando sua avó morreu, ou quando seus pais se separaram. Ela nunca notou como te incomoda ouvir dos vinte mil caras que ela pega enquanto você está no meio de uma confissão sobre sua insegurança diante dos rapazes. Essa garota não é sua amiga, mas qual é o problema de você manter algo assim?

Primeiro, você nunca vai descobrir quem realmente é se ficar cercada de pessoas que nunca tentaram te conhecer, e nem te incentivam a fazer isso. Amizades servem para te edificar. Chamar todos de amigos é tão errado quanto não chamar ninguém. Nós precisamos de pessoas, mas não para serem enfeites e ganhar curtidas em redes sociais. Nós precisamos ser observados, analisados e amados por alguém, para termos o que ouvir quando surgirem as dúvidas sobre o sentido da vida, ou ainda, quando os nossos erros começarem a se tornar repetitivos.
Quando você tem uma amiga que não sabe, por exemplo, que você não gosta de se olhar no espelho, no mínimo você precisa se questionar sobre os motivos para a proximidade ter acontecido. Amizades não são portos seguros? Por que tolerar pessoas que só nos afogam em críticas ou monólogos sobre suas próprias vidas?

Eu estava no meio dessa “busca por respostas” sobre amizades abusivas quando me deparei com duas gurias. Uma pegou o garoto que a outra queria pegar. As duas queriam, a princípio. Entretanto, a que tomou iniciativa é menos tímida e mais segura. Eu já estava tomando nota de que essa garota, que passou por cima da amiga, por ignorar que a outra é vinte vezes mais travada e tal, é totalmente errada e as consequências dos atos dela são as lágrimas dessa que saiu no prejuízo. Qual foi a minha surpresa quando eu vi essa doce e machucada menina começar a destilar comentários racistas, elitistas e totalmente sujos sobre a garota que ela chama de amiga, diz que ama muito e etc? Toda.

Então, em segundo lugar: pare de se enganar. Se você tem uma amizade em que se sente mal e abusada, resolva as vírgulas por você e pela pessoa. Não é por sair sempre perdendo e sendo inviabilizada que você ganha um crédito para destilar veneno pelas costas dela e, puft, em um passe de mágica vocês estão quites.
Não!

Nós, mulheres, precisamos entender que se a amizade não está legal, nunca vai ser ruim de um lado só. Isso, de você agredir quem te agride, e achar que se o placar igualar a amizade está saudável de novo, é pura enganação e perda de tempo. Não é porque ela te fez perder uma amiga que você pode ganhar outra contando algo secreto dela, e definitivamente ninguém sai ganhando quando duas mulheres sorriem uma pra outra, mas no fundo se odeiam ou não se importam de verdade. Nem homens, diga-se de passagem, afinal, cansei de ver casos onde os tais “amigos” dividem cervejas todas as sextas, mas nunca se sentem a vontade para pedir um favor, contar um problema ou confessar que, no fundo, odeia x mania no outro.

Que amizades são essas?????

Que tipo de pessoas nos tornamos????

Ninguém merece ter seu coração pisado por outra pessoa, seus sonhos ridicularizados e outras amizades influenciadas. Ninguém merece comprar um pacote que deveria ser sinônimo de paz e segurança, e ganhar julgamentos e hipocrisia. Muito menos se submeter a algo só porque não sabe o que fazer para mudar a situação. Por que manter perto de você alguém que te faz mal, se tem tantos desconhecidos aí doidos para te fazer bem?

A questão é que se você tem um relacionamento abusivo, e o mantém mesmo diante dos efeitos negativos, tem algo de errado aí dentro. Sem tirar o erro do abusador, mas eu me importo muito mais com a sua propensão para ser pisada, ignorada ou subestimada. De onde nasceu essa insegurança, e para onde ela irá? Por que você se submete a isso?
Nós precisamos ser livres, inclusive dos nossos piores fantasmas, inclusive de nós mesmos. Não é porque você viveu a vida inteira de uma forma que precisa continuar a abaixar a cabeça para pessoas que te manipulam em prol de si mesmas, e definitivamente já não temos espaço para os “errados” serem protagonistas. Segundas chances, que na verdade são quartas ou quintas, podem até acontecer, mas eu diria que agora não. Primeiro você se liberta, se descobre, aprende a se amar e a dar importância a tudo que já foi tão ignorado por alheios. Depois, só depois, você considera se eles ficam ou vão embora definitivamente.

Eu já estive na cadeira dos abusados, e infelizmente tem ambientes em que eu sempre vou estar, mas a questão é a postura que você toma diante do fato. A distância mínima e conciliável, os muros levantados e o tempo diário no empoderamento necessário para passar a se enxergar como alguém que merece sonhar, ter as relações saudáveis que quiser e a certeza de que sua integridade é mantida mesmo que qualquer um tente atacá-la.

Seja feliz com as pessoas, mas primeiro, seja feliz sozinho. No seu quarto, antes de dormir, antes de tomar café, depois de cometer o maior mico de todos. Nunca se veja como alguém frágil que precisa de adestrador ou uma babá que te diga o que fazer, quando fazer e porque fazer. Você já nasceu inteiro, só falta compreender isso. Uma vez consciente, ninguém mais vai ter tanta facilidade para gritar, machucar ou te desvalorizar. Afinal, conhecimento é uma virtude, mas auto-conhecimento é tática de sobrevivência.

Vale a pena sentir? Agora, in personal.

Ok, são três da manhã e meu sono finalmente chegou. Entretanto, lembrei do texto que supostamente postaria hoje e meu estômago me avisou: não será dessa vez. Depois de um dia inteirinho sendo paranoica, preocupada e ansiosa com umas questões relacionadas ao “amor”, parei para pensar na essência do texto que publicaria: “Vale a pena sentir?”. Sanando suas dúvidas, minha conclusão foi positiva e eu usei mais de mil palavras em um raciocínio sincero onde eu apostei todas as minhas fichas no ato de sentir mesmo que pareça uma maluquice se dispor ao caos do “não deu certo” como uma das possibilidades do final.

Cá entre nós, o texto não era um dos piores. Só que depois de ter aquela reflexão rotineira da madrugada, concluí que se eu falasse de forma impessoal sobre o amor que faz com que eu seja mais do que tolerada nos meus piores momentos, e sim compreendida e cuidada, eu seria no mínimo uma idiota. Logo em um dia onde eu vi com meus próprios olhos como paixão não basta, tornando-se essencial o humor, a paciência e principalmente: a fé. Captou? Só depois de colocar na passarela sua pior versão de si mesma que você entende de verdade como o amor é o cara que tudo supera, tudo crê, tudo sofre e tudo suporta; e definitivamente, como você é grata por ele existir. Nenhum texto antes desse diria o que anseio tanto por dizer, então, rufem os tambores.

Bom, eu tinha uns 12 anos quando parei para notar como os casais a minha volta eram extremamente estruturados e pareciam felizes, estilo contos de fadas. Lá pros 15, entendi que na verdade tudo é uma grande ilusão. Ninguém é feliz o tempo inteiro, muito menos duas pessoas juntas. Ninguém nasceu para outra pessoa, ninguém nem mesmo consegue se adaptar totalmente à outra. Nós aparamos nossas arestas com a certeza de que algumas ficarão e torcemos, todos os segundos diariamente, para que isso não termine em um precipício.

Apesar das desilusões de debutante, lidei bem com a situação e resolvi: eu só quero estar satisfeita. Como hiperativa de carteirinha, até mesmo as minhas vontades mudavam constantemente, e o medo de nunca querer alguém por mais de seis meses me perturbava mais do que eu consigo expressar nesse parágrafo. Consulte quem você quiser: eu tinha um recorde e não saía dele nem com toda a boa vontade do mundo. Quando uma canceriana com ascendente em capricórnio mete na cabeça que não quer algo, nem mesmo o Papa a convence do contrário. Até que depois de um tempo comecei a entender que na vida a gente nunca faz algo apenas porque decidiu faze-lo. Não, tem sempre um ingrediente a mais que te faz estar completamente sem o controle da situação.

Sem a possibilidade de ser controladora, lidei bem com o fato de que o destino está aí para ser cumprido. O desafio foi a vulnerabilidade subentendida nessa atmosfera incerta. E quem é que nunca associou a própria fragilidade com fraqueza ou defeito? Jogue-me a primeira pedra, por favor, porque eu mereci. Apesar da situação ser, de fato, desconfortante no começo, aos poucos passei a entender que o que te faz realmente ficar é a maravilhosa (e constrangedora) exposição.

“Fique com alguém que te faça sentir a vontade”, né? Mas por que?

Porque só nos tornando vulneráveis nos braços de alguém que nos conhecemos de verdade, encaramos o que quer que o destino nos tenha reservado e entramos de cabeça na tal “felicidade”. Não é como se nós nos sentíssemos felizes o tempo inteiro, porque as vezes tudo que nós queremos é arrancar a cabeça dele, chutar a canela e arrancar alguns fios de cabelo, mas nós temos a plenitude de estarmos satisfeitos e é aí que eu homenageio a garota de 15 anos que escolheu bem o pedido. De fato, pra que dinheiro? Pra que filhos perfeitos, casa no campo e na praia, pra que um marido gato e fiel, se corremos o risco de um dia considerarmos tudo isso insuficiente?

Eu aprendi que a única coisa que pode me fazer ficar é o fato de que ele sabe que eu sou completamente doida e não aparenta ter medo disso. Posso rir feito uma retardada, confessar histórias embaraçosas, admitir fantasias esquisitas, eu posso qualquer coisa que esteja diretamente ligada à minha personalidade e é exatamente por isso que eu fico a vontade mesmo que nós estejamos brigados, mesmo que esteja sentada em um pequeno monte de inseguranças.
Não me calo, não choro sozinha, nem sequer cogito a possibilidade de colocar em prática algum joguinho para “ficar por cima”. Ao ama-lo eu me liberto de tudo que só foi inventado para aprisionar e transfigurar nossas essências. A consequência disso é imediata: satisfação. Pra que outro, pra que sonhar em sair desse ninho, se aqui é o único lugar do mundo em que eu não preciso ajeitar meu cabelo (imediatamente) após bagunça-lo?

Uma vez de alma desnuda e aceita, já não cabe sair correndo ou inventar uma DR boba. Eu jamais abriria mão de uma pessoa que me fez ver sentido na frase “Home is wherever I’m with you”. Quando eu escrevi o outro texto, pensando que vale a pena sentir, eu não tinha capturado a essência do amor que hoje tive a honra de ter em perspectiva: nós sentimos e nos apaixonamos em busca de encontrarmos nosso lar.
Aquele onde nós podemos ficar de sapato, ou retira-los na porta, tanto faz, depende do que a gente decidir. Assim como está sob o nosso controle se queremos dormir no sofá ou na cama, ou se o quadro está torto ou está perfeitamente bem colocado. Quando nós amamos, nós encontramos um conforto que é completamente único e que jamais, nem mesmo em um milhão de anos, pode ser copiado ou forçado.

Eu agradeci milhares de vezes, mas agradeço de novo: obrigada, amor. Tanto ao amado quanto ao próprio sentimento, que regra nossas vidas com tanta sutileza e sabedoria.

Obrigada por me ensinar a falar a verdade, a beber água com frequência, a enfrentar meus próprios medos e a cometer loucuras de vez em quando. Obrigada principalmente por me entender antes que eu precise dizer uma palavra, e a achar bonitinho quando eu me empolgo e me enrolo toda. Ah, sem contar a paciência para lidar com minha memória seletiva, ou com minha abrupta mudança de assunto/ideia constante. Eu só queria me sentir satisfeita, mas além disso, você faz com que eu me veja como a melhor versão de mim, todos os dias antes de dormir. Espero fazer o mesmo, porque sinceramente não tem nenhuma versão sua que eu não considere a pessoa mais linda do mundo.

Vale a pena?

Será que vale a pena sentir?

Digo, estamos acostumados, pelo menos eu estou, a julgar tantos e tantas que aos meus olhos são extremamente desinteressantes porque descaradamente mostram que não sentem a mínima necessidade de algo mais profundo do que um flerte mal dado. Eu sempre me preocupei em criar uma lista sobre os defeitos que essas pessoas carregam. Afinal, não é para menos: eu nunca vou entender as garotas que não só gostam, como veneram caras que tem como prioridade causar por aí com o boné pro lado, cigarro na mão direita, copo de cerveja na mão esquerda e um andar de quem é mais do que qualquer um no recinto. Mais o que? Mais qualquer coisa. E eu não posso negar: no quesito de ser “qualquer um” ele é mais do que qualquer outro.

Só que não dá para ficar de um lado do campo eternamente, nós precisamos de mudanças e é exatamente por isso que resolvi questionar o outro lado: por que diabos se propor a conhecer alguém, invadi-lo, deixar-se ser invadida e, subitamente, estar vulnerável às casualidades que, realmente, podem acontecer em um belo dia de sol e destruir seu castelo, te deixando soterrada e violada? É uma insanidade.

Eu conheço garotas absurdamente apaixonadas e algumas são tão humilhadas, aliás, elas chegam a ser esquecidas por si mesmas ao viver às custas de um “amor” que é maior do que elas podem suportar. Obviamente, não é toda relação profunda que resulta nesse beco que não tem saída e nem amor próprio, mas uma boa porcentagem pode servir de justificativa para as que fogem e preferem relacionamentos onde o término só vai ser sinônimo de uma caixa de lenços e uma noitada com as melhores amigas.
Depois do momento frio e impessoal do “não dá mais, não é você, sou eu”, lá está ela, toda linda, toda sexy, dançando e sendo feliz com a galera. Enquanto isso, o time das profundas que se envolveram com caras que as exploraram e sumiram está se empanturrando de comida, ou cigarros, ou dando PT em algum canto.

Sem querer parecer pessimista, mas diante da probabilidade enorme de um relacionamento aos 20 terminar antes dos 22, eu te pergunto: por que investir e por sua alma nisso? Por que investir, dentro da melhor fase da sua vida, em algo que dará vontade de esquece-la permanentemente? Quer dizer, eu tenho um amigo que está destruído. A culpa não foi dele, nem dela, mas a consequência foi triste: sofrimento e desilusão. Independente do futuro, o passado está intocado e o presente impossibilitado. É inegável: o “amor” não basta. E se o “amor” não basta, por que diabos colocá-lo na conta, afinal, ao faltar qualquer outro elemento necessário você vai pra sarjeta diferentemente dos que preferiram não arriscar.

Bom, após uma imersão total em defesa aos que preferem ser rasos e superficiais, eu volto à mim e te digo: vale a pena sentir.

15 minutos com amor, e todos os outros elementos, valem muito mais do que uma vida daquela solidão acompanhada. Pode dar errado, mas você também pode morrer hoje e não é por isso que você prefere deitar em posição fetal na cama e desistir de viver. Aliás, eu ouso dizer que, se você descobrir que morrerá hoje as 18h, aí que está comprovadíssimo: vai viver como se não houvesse amanhã, porque de fato não tem.

Então, o seu “amor” pode não ser o suficiente para fazer dos seus sonhos realidade, mas esse argumento não é o suficiente para qualquer fuga. O destino, nesse caso, é você quem decide e o velho pensamento de que existem 90 chances em 100 da felicidade duradoura não ser alcançada é balela. Mesmo que tudo não passe de uma utopia juvenil, ao olhar dentro dos olhos de alguém e se apaixonar por sua alma, é impossível resistir ao ato de tentar. Tentar parece e de fato é a única escolha válida.

Uma vez que o casal se disponha a tentar, sabendo que o “amor” nunca será o suficiente, eu me dispus a pensar sobre isso. É difícil, eu sei, ouvir essa afirmação. Afinal, o “amor” é tudo, por que diabos ele não supre qualquer necessidade dentro do relacionamento?
Longe de tentar parecer arrogante e dona da verdade, eu apenas sugiro que enxerguem por esse lado: esse “amor” que cabe até entre essas duas aspas foi mais compactado e simplificado do que deveria. Essa compactação faz com que que hoje em dia esse sentimento tão maravilhoso não consiga com que um namoro dure mais do que seis meses.
Nós estamos acostumados a achar que não cabem reflexões dentro do irracional, da intuição, dos sentimentos; mas é exatamente pela falta de atenção às letras pequenas do contrato de se verdadeiramente amar alguém que acabamos soterrados em sonhos e expectativas.

O amor que as pessoas dizem que tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta, não é instantâneo. Não é um bolo de cinco minutos, e sim aquele de vinte camadas com uma cobertura difícil pra cacete de ficar “no ponto”. É tão simples quanto detalhado. Precisa de tanta atenção quanto o seu ego, ou até mais, e é um trabalho contínuo – e talvez eterno – de aperfeiçoamento.

Não sou a rainha dos conhecimentos amorosos, infelizmente, e mesmo que fosse… Ainda assim estaria tão vulnerável quanto todos, porque o amor é algo que nunca será unilateral. Se é, não é amor, é admiração, carinho, maluquice, paixão platônica, emoção, tesão, qualquer coisa que não comece com “a” e termine com “mor”. E depois, pode ter certeza, vira ódio, raiva, indiferença, qualquer coisa que não tenha um pingo de paz. Quando a gente faz parte de algo que teve amor, dificilmente teremos espaço para mágoas. Quem ama não cobra, na verdade, quem ama entende. Entretanto, a gente tem se dado muito mais amor do que aos nossos respectivos “parceiros”.

Então, nos compreendemos constantemente, sem deixar espaço para enxergar qualquer coerência no atraso dele, no bico dela após aquela piadinha sem graça, na dor que causamos sem querer – mas que causamos e devemos reparar mesmo assim -; ou seja, o problema na verdade é que nós não nos entregamos e queremos ganhar os benefícios de quem o faz.

O amor é entrega. É uma entrega bizarra que faz a gente passar por cima de todos os nossos defeitos, antes tão amados e respeitados, e abraçar outra alma com a mesma quantidade de apego que fazemos com a nossa. E eu honestamente te digo: quem não fizer isso, talvez nunca consiga entender porque os avós passaram por trancos e barrancos e ainda assim estão juntos. Só se entregando que você consegue captar a profundidade desse ato e sua sina de eternidade.

Ah, mas e quanto aos que terminam? E quanto aos que dão errado?

A entrega é sinônimo de companheirismo, paciência, compreensão, cumplicidade, compatibilidade aperfeiçoada dia após dia, atenção, timing, cuidado, sinceridade e muita, mas muita mesmo, vontade. Soa completamente cabível que a maioria não consiga juntar todos esses ingredientes em “qualquer” tentativa de relacionamento, porque nós temos uma dificuldade enorme de amadurecermos a ponto de captarmos a essência da vida, a nossa própria essência e a do outro. Ou a gente encontra alguém que tenha a mesma visão, e por isso, a facilidade em encontrar coerência mesmo nos nossos erros; ou estamos fadados a chegar no amadurecimento errando, deixando uns corações partidos, inclusive o nosso, para encontrarmos finalmente alguém quando o famoso “timing” estiver na lista.

Minha maior dificuldade com os textos de hoje em dia expostos sobre esse assunto é que eles colocam o “timing” como verdadeiro divisor de águas. Ele é o maioral. Ele é quem dita x ou y. Mas não! Isso é tão simplório que dá dor de cabeça em qualquer admirador do antigo e completo modo de ver as coisas. O timing é só mais um elemento, que costuma aparecer mais, porque as pessoas preferem dizer que foi a “falta de sincronia nos sonhos” do que a falta de vontade de sonhar juntos.

Apesar de sempre existir a exceção, eu não tenho medo de assinar embaixo quando digo: quando tem amor, e não o “amor”, quando surge aquele que carrega e impulsiona milhares de outros sentimentos e atitudes, é completamente impossível de dar errado.
Mesmo que algo diferente dos livros, filmes e séries aconteça… Deu certo. Mesmo que em um belo dia de sol o castelo seja destruído por algum fator x terrível e ligado à nossa vulnerabilidade humana: deu certo.

Tem a ver com todos os momentos em que você entro nos olhos dele e conseguiu ver a sua alma. Não a dele, a sua. E a dele também, aliás, misturadas e dançando em sincronia. Sem esquecer da sensação maravilhosa de rir até a barriga doer em uma tarde que com qualquer outra pessoa teria sido awkward ou tediosa. Ou ainda, deu certo por tudo que você aprendeu e pelas coisas que nunca conseguiu, mas que ele tão gentilmente aceitou, porque o aprendizado foi em via de mão dupla. Ao vivermos a experiência de termos como melhor amigo o nosso amor, e não só o amado, você entende que independente do amanhã: deu. Foi. Conseguiu.

A vida pode ser uma merda, mas e daí? Você amou e foi amada.

That’s all, folks!

Apesar dos pesares.

A verdade sempre aparece. Isso desde sempre, para sempre, quando em sempre. E ao encará-la, permaneço firme e questiono-me internamente por quanto tempo aguentarei. Como em um jogo, quem mantém a compostura ganha, e o copo tende a estar vazio. Sem pessimismo, apenas fatos. A verdade é ilimitada, incondicionada, insuportavelmente forte e incapaz de sucumbir. Por outro lado, meus ombros caem dois minutos após o início da competição. Meus olhos enchem de lágrimas, o grito interno fica preso na garganta. É impossível resistir ao poder da realidade.

Encarar a plenitude do seu ser, ou seja, a verdade, é pesado e necessário. O ato de fugir se torna tão falho quanto o de abraçar o momento. Ao se perceber por inteiro é praticamente impossível suportar tamanha reflexão. Sua mente fica em branco, mas seu corpo reage. A dor aparece. Claro, isso no meu caso, onde vivo apostando nos meus sorrisos e nas minhas grandes ideias para fugir do tedioso e monótono dia-a-dia. Apesar disso ser uma das melhores estratégias para viver, perco por passar tanto tempo sem ter contato com meu lado obscuro. Afinal, se eu o visse com mais frequência, talvez o baque diminuísse. Talvez eu ganhasse, não o jogo, mas a resistência que tanto preciso.

Portanto, deixo anotado aqui que após essa terrível experiência, tentarei submeter-me às meditações que preveem tal encontro pessoal com mais frequência.

É tão difícil aceitá-lo. O contraste é absurdo, se observado atentamente. Sem piscar os olhos, esforço-me para lembrar das minhas qualidades. Tento compensar tudo em mim que é mais obscuro do que devia. Afogo-me em mágoas, noto portas trancadas e jamais exploradas, espio pela fechadura e entendo que, independente do que existir do outro lado, nunca valerá a pena deixá-lo escapar. Caminho por erros que viraram hábitos. Tropeço em defeitos que viraram bichos de estimação. Engulo em seco ao notar como a insegurança é muitas vezes utilizada de gasolina essencial para o processo do “ser”. As lágrimas descem. Quando você se enche de coisas boas, seja no exterior ou no interior, acaba por alienar-se mais do que o saudável. Abrir mão da responsabilidade de lidar com seu lado feio e imperfeito não é necessariamente ser um exemplo de pessoa, como tentas ser diariamente. Na verdade, isso te faz um covarde e infelizmente, realmente lamento, mas apesar de todo esforço, ninguém se torna inalcançável.

Respirei fundo e tentei achar o equilíbrio entre meu lado podre e todo o resto. Temi. Temi o olhar de quem me ama exatamente pelo meu sorriso diário ou pelas minhas graças fora de hora. Temi a ausência que aconteceria logo em seguida, após o choque de notar como eu posso soar uma farsa, sendo dona de facetas tão obscuras e falhas.

Quem entenderia, além de mim, que eu sou a personificação do “apesar dos pesares”?
Quem captaria que eu sou amável por ser tudo que sou nos dias bons, mas que eu preciso desse amor principalmente quando entro nesses labirintos mentais onde a minha sósia imperfeita aparece e pinta o cenário com pessimismo, desilusão, medo e insensibilidade? Que eu preciso ser amada não só quando merecer?
Quem…
Quem chegaria perto o suficiente para me ver por inteira e não fugiria, não me abandonaria, não desistiria?

De fato, retomei a compostura quando o pensamento saltou-me aos olhos: o sentido dessa jornada é evoluir. Se cá estamos para aprender algo, para viver plenamente apanhando e ganhando resistência, necessariamente tenho coisas em mim hoje que já não existirão amanhã. Talvez parte da preguiça, talvez um terço da insegurança. Sendo assim, não é tão difícil olhar para as minhas mãos, um tanto grandes e indefinidas – nem gordinhas, nem magrinhas -, e amá-las, é? Amá-las apesar de serem tão indignas de amor ou carinho. E quando exemplifico com as mãos, espero ser lida corretamente: falo da minha alma. Que por vezes falha, por vezes acerta, mas que nunca tem em si a capacidade de desistir. Vontade existe de sobra, mas as possibilidades se esgotam antes mesmo de existir. Não desisto de ninguém, nem mesmo de mim. Mesmo que queira, mesmo que precise falar isso ao vento pelo menos cinco mil vezes, mesmo que desesperadamente chore implorando que a força sobrenatural que nos rege finalmente me permita… Nunca durmo e acordo com o mesmo pensamento. Como se estivéssemos em um universo de video-game, sou resetada e reiniciada. E nada melhor do que uma página em branco para recomeçar, tentar novamente, dar espaço ao olhar esperançoso que ontem a noite só sabia chorar.

Enfim, imersa em reflexões, reparo novamente em meus erros e falhas, minhas imperfeições e obscuridade. Já não parecem tão indignos, poderosos ou fortes. Já não parecem insuperáveis. Apesar do choque necessário de passar um dia inteiro me sentindo um lixo por ser capaz de sentir tantas coisas ruins ou inteligíveis, termino as vinte e quatro horas com um suspiro profundo de paz.

Apesar dos pesares, aponto pra fé e remo.

“Let’s leave no words unspoken”.

Sempre gostei de descrições. Quando eu era mais nova, ou eu escrevia sobre as minhas infinitas características ou eu refletia sobre como eu não entendia absolutamente nada do que acontecia ao meu redor. Interessante, apesar de tudo, porque eu gastei uma energia vital enorme ao me preocupar insistentemente com o fato de que, se eu encontrasse o amor da minha vida, ele precisava ter o que consultar para descobrir sobre mim. Eu tinha um medo tremendo de não apresentar todos os meus defeitos e qualidades, explicitamente, e algum dia acabar abandonada em uma esquina. Obviamente, a culpa seria minha. Eu que seria a culpada de não ter transparecido o suficiente como eu sou absolutamente confusa, ou como eu tenho medo de escuro.

O tempo passou e eu nunca fui lida por algum cara. Nunca. Nem sequer uma vez. Ok, para ser justa, um amigo do meu ex-namorado adorava ler meu blog de vez em quando. Ele elogiava e eu ficava feliz, mas algo parecia errado. O cara que me levava em casa era o que não se importava se eu estava aflita com o mundo ou se eu estava no meio de uma crise existencial; enquanto o amigo estava lá, quase criando meu fã-clube. Apesar do orgulho ferido, o tempo foi o grande solucionador dessa situação. Quando já não havia mais ninguém, de novo, eu me dispus a escrever de novo. Eu sei que soa loucura, mas se eu não expusesse cada vírgula minha, eu sentia que estava sendo injusta com o mundo. Afinal, lá estava eu, uma bomba atômica com covinhas prestes a entrar na vida de qualquer um, e mais calada do que um baú fechado há mil anos.

Irônico, eu sei, mas de alguma forma contigo foi quase o inverso. Eu não conseguia, e nem consigo, parar de falar ou de te atormentar com as minhas ladainhas. Eu simplesmente me tornei uma criança tagarela que, infelizmente, ainda precisa dividir cada vírgula, cada descoberta. Sejam os nazistas e a Revolução Francesa, seja a minha incapacidade de viver sem ter um guia. Sem ter alguém para admirar. E pensando nisso, na minha mudança de atitudes em equilíbrio com a sina de ter que dividir cada célula minha, concluí que nunca tinha sido tão explícita. Antes não era apenas uma preferência, eu realmente era limitada a escrever em um endereço virtual abandonado. Não havia dentro de mim capacidade para abrir a minha boca e me entregar de bandeja pra qualquer um. Sem desmerecê-los, só não parecia certo. Não era tão simples.
No meio da noite, o assunto correu e eu descobri que algumas – muitas – amigas minhas se sentem assim com seus respectivos namorados. Tem vergonha de ousar, tem dificuldade de falar, tem medo de qualquer exposição. Com elas a simplicidade não aparece, ainda, e a engrenagem não funciona.
Parei no meio da madrugada, coloquei um casaco quentinho e visualizei a minha máquina interna. Respirei fundo, soltei uma risada e mordi o lábio segurando a minha vontade imediata de dividir a minha satisfação contigo.

Eu posso ser absurdamente infantil, medrosa, confusa, irresponsável, controladora, tagarela; eu posso ser absolutamente tudo, porque contigo a engrenagem não só funciona, como a máquina é mais eficiente do que uma fábrica inteira funcionando. Cogitei, por um segundo, estar me enganando ou iludindo. Não me leve a mal, é uma conclusão um tanto significativa para escrever em um parágrafo sem nem mesmo fazer a prova real. Então, como de costume, vasculhei a minha mente. Lembrei-me de como você ainda sabia, lá pelo sexto encontro, a roupa que eu usei no segundo e também voltei até a noite fria em que eu chorei contra o seu peito até que meus fantasmas do passado fossem embora.

Apesar de você ser uma das caixinhas de surpresa mais intensas e distintas que eu já pude conhecer, apesar dos meus pesares, a nossa complexidade se encaixa e torna-se simples. Você pega meus medos com a mão e desmistifica um a um com todo o seu amor, com toda a sua gentileza. Ou até mesmo com o seu pragmatismo. E eu, não menos importante nessa equação, não fujo diante das suas perguntas, ou das suas conclusões. Seus medos, suas fraquezas, suas dores. Tudo é tão seu que se torna meu. Tudo é tão seu que se torna incrivelmente simples aos meus olhos.

Porque diferente dos meus mistificados pesadelos, os seus me soam etapas que a gente encontra e ultrapassa. Os resquícios viram verso de música, mas só. Nada de dor ou solidão. Eu sinto como se soubesse exatamente o que fazer.

Portanto, por mais que eu sinta saudade de fazer uns textos explicando como eu seguro a caneca de Nescau com as duas mãos e tenho uma dificuldade enorme de não subir nos canteiros da minha rua ao ir até a papelaria, hoje a noite eu concluí como eu não poderia estar diante de algo mais bonito. Eu posso te contar, mas não preciso escrever e esperar que você leia caso o destino bata na porta. Eu posso olhar nos seus olhos, falar e rir, sem esperar julgamentos ou traições. Você foi o primeiro cara que me leu e ouviu, e definitivamente o único que desvendou o mistério da garota que adora ficção, tem medos bobos e precisa ser abastecida com esperança diariamente.

PS:
Odiei o lance do garoto ter falado logo essa frase lá no fb…
Gente, dá licença?
Minha fucking música.

PS2:
Os textos que eu costumava fazer:
https://hiperbolei.wordpress.com/2013/11/21/auto-retrato/

E o tempo passou.

Ele andava com os olhos fundos, pele ressecada, pés sujos e descalços. Em uma sociedade onde os estoques estão abarrotados, lhe faltava absolutamente tudo, inclusive um óculos para conseguir enxergar rostos ao invés de borrões. Irônico, mas ao menos com essa ausência ele era poupado de ter sua dignidade roubada pelos olhares de medo, raiva, ódio e dúvida que recebia diariamente. Sim, a lógica dessa sociedade é que você é julgado pelo que não tem. Se te falta um tênis, um short, um celular de marca ou um simples óculos, sinta-se bem vindo ao clube dos excluídos. E isso ele sabia perfeitamente, afinal, não era cego.
Percebia os rostos se virando rapidamente, ou os corpos passando mais rápido quando ele se aproximava, mesmo que despretensiosamente. Ele não precisava fazer absolutamente nada: o efeito da sua presença era sempre o mesmo. Quando pequeno, se questionava sobre possíveis diferenças que o faziam ser o garoto que vendia balas e não o garoto do parquinho. Os mais velhos responderam não tão sabiamente: ele nasceu pra isso. A janela foi fechada antes dos 6 anos.
O homem, aos 32, sem um braço, manco, que não tomava um banho há 2 meses e mal conseguia falar após diversos traumas, tinha suas respostas incompletas e injustas como um mantra interno. Ele tinha nascido daquele jeito e não podia reclamar, porque suas cordas vocais estavam prejudicadas, mas cá entre nós: ninguém ouviria mesmo que conseguisse pronunciar suas verdades em cinco mil línguas e dialetos diferentes. Pergunto-me se era a ignorância desse fato que fazia daquele homem um simples homem que não tinha nada. Nem mesmo uma ficha criminal pesada. Uns furtos de vez em quando, mas nada que pudesse trancafia-lo na senzala que eram os presídios.
Ele tinha perdido irmãos para a lei, assim como irmãs e padrinhos. João, um adolescente que o alimentava enquanto ele se recuperava de ter perdido o braço, era cheio de vivacidade e tinha um sorriso bonito. Um sorriso que merecia estar na capa das revistas, mas diante do padrão imposto, jamais teria sua chance. O menino inclusive tinha um orgulho tremendo de sua cor, e ensinou ao nosso homem sem nada (inclusive sem nome) que ser negro é muito mais do que simplesmente ter mais melanina na pele. Ser negro é carregar um fardo e carregar a missão de diária de libertação. Ninguém que não fosse negro poderia entender, apesar de insistirem em falar sobre isso, apesar de insistirem em dizer que a cor não importava. João dizia: “a cor importa sim. A cor me faz ser revistado, e a cor me marginalizou. A cor me impediu de ganhar empregos, de dividir elevadores sociais, de receber flertes ao invés de olhares assustados” e repetia “a cor importa. E já que eles sempre me fizeram entender isso implicitamente, vou deixar isso explícito em tudo que eu fizer, em tudo que eu cantar, em tudo que eu tocar. Sou preto, sou gente, e sou diferente. Viver na minha pele nenhum branco conseguiria, e é exatamente por isso que eu vivo com prazer. Meu maior orgulho é ser preto e continuar vivendo. Continuar resistindo”.
João foi mandado pro presídio por birra de um policial, tão preto quanto ele, mas que não entendia uma palavra sequer que o menino soltava. Um muro os afastava, uma muralha feita de ordens, dinheiro e falácias. Ele foi jogado dentro de uma cela com mais 15, e só saiu quando se lembraram dele. Só quando já era tarde demais.
Ao voltar às ruas, esqueceu-se do nosso homem sem nome, que a essa altura já se virava com doações de senhorinhas na porta da Igreja Católica da praça. Mas definitivamente não foi nada pessoal, porque depois de sair da cadeia João esqueceu-se de absolutamente tudo. Ele tinha sido obrigado a conviver com tantas perversões, falácias odiosas, dor e vingança que já não conseguia absorver nada, além disso. A lobotomia estatal era um sucesso: João era um monstro que não queria mais saber da sua cor, da sua vida, muito menos de resistir. Ele nem sequer queria algo. Apenas reproduzia tudo que tinha sido sua realidade durante anos no exílio infernal que deveria ser responsável por “socializá-lo”.
O nosso personagem principal sofreu pelo amigo que não foi morto fisicamente, mas poderia ser considerado falecido. Após observar essa história e outras se repetirem, algumas perguntas ficaram sem resposta, mas como você soluciona problemas sem nem mesmo dividi-los com alguém que, possivelmente, sabe mais? Mudo, podia sentir cada dia mais, sua ponte com o restante da população ser queimada e destruída. Entretanto, será que se ele falasse, será que se suas cordas vocais fossem perfeitas, suas questões seriam ouvidas?
Joana dizia que não. Sua única amiga, que parecia enxergá-lo e amá-lo, desaparecia durante a noite, mas sempre trazia pão fresco e um pingado de café da manhã. Dormia até o meio da tarde e depois resmungava alguns comentários sobre o mundo real. Inclusive, dizia que ninguém se importaria caso eles morressem sem ter uma casa, sem ter tido uma carteira de identidade. Respondendo às perguntas que ela nunca escutou, discursava sobre como uma parcela da população precisa morrer no anonimato para que a outra exista e se exiba diariamente em capas de revista. Ali, naquele beco, ela dizia se sentir protegida. Era a casa dela e do Zé, por sinal, esse foi o nome dado ao nosso rapaz. Zé sorria sempre que ela pronunciava seu novo vocativo, mas nunca conseguiu contar o real motivo.
Certo dia, Joana não apareceu. E foi assim durante um tempo, até que lá pela terceira semana, talvez quarta, surgiu timidamente pela manhã. Com leves hematomas pelo rosto, aparentando estar em recuperação, Joana mancava e tinha em sua barriga alguns curativos. Zé não questionou, nem queria; só a abraçou e olhou por tempo suficiente para que só o choro daquela forte mulher rompesse o silêncio. “Sabe quando dizem que a primeira vez a gente nunca esquece, Zé? Eu tinha esquecido a minha, mas sempre tem um infeliz para fazer valer o ditado. Sempre”, Joana tentou falar mais em meio aos soluços, mas o nosso homem a abraçou tão forte que o conforto lhe calou, e foi o suficiente. Depois, com mais calma, relatou tudo que a polícia também soube, mas a diferença de atitudes foi visível: Zé chorou; os policiais zombaram, soltaram farpas e quase pareceram felizes pelas suas dores.
O tempo passou, Joana e Zé se mudaram para um barraco perto do Centro e lá construíram um lar que aos olhos de alguns nunca seria bom o suficiente, mas para eles, que nunca tiveram absolutamente nada, era um pedacinho do céu. Zé agora era alfabetizado; passava parte do dia pedindo esmolas e a outra escrevendo poemas simples, mas profundos.
Questionava se o mundo iria entender que já não existia misericórdia que salvasse os preconceituosos, os duros de coração, os visíveis que achavam necessária a invisibilidade de outros, os que tinham medo de alguém só pela sua cor ou que se achavam intelectuais o suficiente para dormirem bem a noite enquanto sua vizinha era espancada, seu “vendedor de amendoins” no ônibus entrava no tráfico para manter os cinco filhos e a tia da bala exigia que sua neta entrasse para a prostituição se quisesse morar com ela.

Zé terminou o dia comum, que era uma quarta feira, com um poema que deixou ao lado da sopa de ervilha que fez para Joana jantar:

“O mundo não apenas me ignorou,
Ele me maltratou, surrou e sufocou.
Perguntei-me hoje: será que me matou?
Respondi, com um tanto de coragem e voz: tentou,
O mundo apenas tentou,
Mas cá estou, e cá me vou,
Para lidar, amar e cuidar do que de mim restou”.

30/06 parte 2.

Eu só queria te dizer que independente de eu ter palavras bonitas ou não, a parte mais sincera e que eu tenho mais orgulho do meu amor é a que você quase não vê, mas que aparece todos os dias antes de dormir. Todos os dias antes de dormir eu repasso o dia mentalmente e penso na gente, independente de só ter acontecido coisas boas ou não, eu só penso na gente e respiro fundo pensando como eu sou absolutamente sortuda por ter você. Afinal, eu não escrevo coisas maravilhosas sempre, e quase nunca consigo expressar o quão especial o nosso amor é, mas lá, de noite e sozinha, eu sempre consigo chegar na plenitude do que eu sinto e respeitar isso.

Quando eu pedi pra você confiar em mim, há um tempinho atrás, eu não menti. Eu nem sequer coloquei o carro na frente dos bois. Eu fui bem coerente com o que eu senti quando passei o dedo em cima da sua pintinha, ali perto do olho, e não tremi na base como fiz algumas vezes depois daquele dia. Mas não foi o sentimento que estremeceu, e sim tudo que existe aqui dentro fora ele. Porque, você acreditando ou não, tudo aqui se tornou rapidamente acoplado e dependente do seu sorriso e do seu toque. Das suas pequenas perfeições cotidianas que me fazem ficar disfarçadamente encantada mesmo após 8 meses de idas ao rio sul, ao fundão, à FND, ao Starbucks.

Eu só queria dizer que por mais que nem sempre eu consiga falar exatamente o que você quer ouvir, ou de uma forma bonitinha que te emocione, eu tento com frequência. Eu tento e não vou parar de tentar. Porque você é a minha pessoa predileta no mundo inteiro e me esforçar em te fazer feliz e conseguir com que você se sinta amado são atos tão prazerosos quanto o brownie da Duda.

As vezes eu me perco e não consigo escrever um texto com pé e cabeça, porque necessariamente sempre são tantas coisas pra comentar, tantas peculiaridades para ressaltar. Tantos sonhos para ver se você topa sonhar.
Eu nunca tinha encarado o fato de você reler tanto o primeiro texto que eu te fiz como algo preocupante, até hoje. Hoje, eu respirei fundo e pensei: será que ele sente falta do que eu sentia lá naquela época? Será que ele pensa que alguma coisa mudou? Ou piorou? E eu fiquei aflita. Fiquei aflita e me senti motivada a vir aqui escrever, não tão bonito quanto sempre, mas talvez com um conteúdo ainda mais importante.

Não tem uma célula aqui dentro que não te ame. Todos as suas fraquezas, todos os seus progressos, todo o seu potencial, todas as suas dores. Minhas células amam todas as suas células. Não tem nada que passe despercebido, você é como se fosse a coisa mais bonita que eu já vi e que, por acaso, está no meu caminho todos os dias. Eu analiso, detalho, me surpreendo e sempre descubro algo novo. Eu nunca fico entediada do seu lado. Todas as suas perguntas, todos os seus limites, eu amo. Eu amo. Eu te amo, tá?

Mesmo quando o mundo está brincando com a gente, testando até onde nós vamos juntos, mesmo quando todos duvidam. Eu não tenho dúvidas. Eu posso até precisar filosofar pra confirmar e racionalizar, mas não existem dúvidas. Você parece que fez de mim uma pessoa completamente nova. Mais sensível, mais doce, mais sonhadora e mais mulher.

E eu vou sempre estar aqui pra você.
Acho que eu nunca falei isso, mas foi essa a minha conclusão de junho, e com prazer te digo hoje.
Eu sempre vou estar aqui pra você. Mesmo que você não esteja por mim. Eu te amo incondicionalmente, e mesmo que você não me ame mais, eu sempre vou ter o dia 5. Eu nunca vou ter dúvidas de que você foi o amor da minha vida, dessa e da próxima. Você me conquistou de uma forma tão profunda, tão verdadeira, tão real. Eu tenho certeza do quanto é de verdade e pra sempre. Sem pular etapas, eu te amo nessa tanto quanto te amarei na próxima. Não preciso morar contigo ou dormir junto contigo todos os dias pra saber que é isso que eu quero. Não preciso nem mesmo te ver pra saber que você é a melhor companhia de todas. Você não precisa ficar me conquistando todos os dias de novo, porque adivinha só? Surpreendentemente, eu, que sempre fui a favor da eterna conquista, descobri que quando a gente é fisgada… Não tem dia morno que consiga amortecer o amor. Você me conquista só de respirar e de parecer um ursinho panda dormindo. Eu parei pra te observar outro dia e eu só queria ficar ali pra sempre, sabe? Eu só queria aquela perfeição o máximo de tempo possível. Você, sereno, tranquilo, feliz, do meu lado e sendo meu. Você respirando contra a minha respiração e nossos corpos se tocando, me provando que eu estava acordada e não sonhando. Você ali comigo sem ninguém por perto. É exatamente disso que eu lembro antes de dormir e por isso que eu me sinto tão sortuda. Eu não sei se qualquer uma iria dar valor pra isso como eu dou, mas eu dou, e eu me sinto muito sortuda porque foi comigo que as coisas deram certo. Porque foi comigo que você conversou horas e horas, se abriu e foi andar de long na lagoa. Porque foi comigo que você passou uma noite quase inteira conversando, seja na cama ou no play, e foi comigo que você descobriu que as mulheres eram doidas mesmo. Mentira, isso foi com a chatonilda lá. Mas enfim, eu acho que foi comigo que você descobriu o que é amor. E se não foi, pelo menos eu tenho certeza de que foi comigo que você descobriu o que é ser amado sem reservas. Porque você é. Absolutamente.

Você é a minha distração mais eficiente e a minha melhor motivação. Obrigada por ser tudo que eu preciso. Eu te amo e sempre vou te amar. Mesmo que a gente tenha noites ruins, manhãs mais ou menos e tardes morgadas. Esses dias jamais vão roubar o brilho de todos os outros em que a gente gargalhou, filosofou, se divertiu e desabafou juntos. Os momentos ruins nunca vão ser mais fortes do que todos em que a gente descobriu que somos nós dois contra o mundo e podemos tudo se estivermos unidos.