20 invernos.

Era parcialmente simples: eu não queria fazer 20 anos. Facilmente poderíamos compreender se caminhássemos com o consenso comum de que envelhecer é uma bosta, afinal, não somos para sempre tão jovens quanto éramos ontem. E como é bom ser jovem, né? Mesmo quando é uma droga, a juventude tem uma anestesia implícita em todas as suas infinitas possibilidades.
Mas sendo honesta, direta e ansiosa como me acostumei a ser desde que me entendo por gente: não era só isso.

Eu gosto de brincar que as coisas aqui dentro só acontecem quando a peça responsável por isso, pelo tal acontecer, “gira” e eu ouço um clique interno. A partir disso é impossível não me mexer. Impossível algo não mudar. Isso já foi péssimo no passado porque assim que a peça girou as coisas mudaram bruscamente e pessoas, com expectativas contrárias, se surpreenderam e foram magoadas. Isso já foi ótimo porque não demorei muito para tomar decisões depois que esse mecanismo reagiu, me livrando de mimimis. É quase mecânico. Entretanto, quando demora… Quando chega a época em que a peça está acostumada a girar e nada acontece, eu entro em um estado de observação interna. Meu rosto se fecha, assim como o meu coração e meu humor entra em um estado automático, tendendo à verdade nua e crua. A parte mais preocupada surge e eu não consigo lidar como se nada estivesse errado.
De maneira imprevisível, cá estava eu, esperando a peça girar e nada. 20 anos a serem completados, um ano novo chegando, promessas e reavaliações a serem feitas e absolutamente nada. Tive vontade de chutar minha própria cara. Por que? Sério, por que diabos a peça não girava? Por que eu não me sentia alguém diferente? Eu sempre me sinto alguém diferente em começos de ciclos.
As cortinas fecharam e a manutenção começou.
Pensei nos meus relacionamentos e detonei todos com críticas, centenas de coisas a serem mudadas, aprimoradas, transformadas. Direcionei tudo somente à minha parte. O que é completamente novo, visto que sempre tive dificuldade de admitir meus erros. Eles me doem tanto que é difícil lidar até mesmo com as suas existências. Pensei na minha vida profissional e pontuei sonho por sonho, passo por passo. Eu já sabia o que fazer, só faltava a peça girar.
Nada.
De novo, o silêncio reinava e eu chorei. Explodi. De desespero, de ansiedade, de medo. Enxerguei. Eu só queria que tudo continuasse perfeito, tudo continuasse bom, nada mudasse. Eu mesma estava impedindo a peça de girar porque eu sei que toda ação tem uma reação e se eu mudar, tudo ao meu redor pode automaticamente dançar conforme a nova música. E se eu não gostar? Ou, se eu gostar ainda mais? Acho que sou a única pessoa do universo que tem medo de gostar demais de alguém, de algo ou simplesmente gostar demais. Eu que era acostumada com a intensidade, hoje me vejo sendo receosa e preocupada. Quanto mais alto o vôo, mais alta a queda.
Desisti disso.
Depois de muitas horas, muitos poemas pela metade e muito ar puro… Cá estou eu. A peça girou. Não doeu.
Começar esse ano novo foi encarar minhas partes defeituosas e decidir que a hora delas foi contada, recontada e finalizada. Eu não tenho mais tempo para postergar melhorias e me libertar. Não tenho mais forças para olhar diariamente pros meus medos e saber que nunca tentei verdadeiramente superá-los. Eu já não sou a garota que era frágil, medrosa e limitada. Eu me tornei alguém que sabe o que quer, e mesmo que tenha dúvidas, eu sou a pessoa que sabe o que não quer e definitivamente eu não aceito mais ser a insegura. Não aceito ser incoerente.
Se eu conheço minha essência, como não conhecia antes, por que diabos aceitar sentimentos ruins que só me colocam pra baixo? Que só cortam minha produtividade, meu potencial e minhas oportunidades?
Aos 20, me veio a lição de que em duas décadas eu matei um monstro por dia e que eu preciso ser recompensada por isso. Eu preciso me dar o crédito. Eu preciso acreditar que isso tem algum valor. Se eu não vir graça ou mérito nisso, quem vai achar?
Eu posso não ser a que nasceu dentro do padrão europeu estético de beleza, mas diariamente eu libertei dezenas de amigas que também não se encaixavam, e se eu não me basear nisso para conseguir minha alforria… Jamais conseguirei. Se eu não usar dos meus olhos, produtivos e generosos, comigo mesma, ninguém vai usar. Ou pelo menos eu nunca vou perceber.
Eu posso não ser a pessoa mais dentro do padrão, seja no estético, no intelectual, no profissional, no pessoal, mas e daí? E daí? Eu não posso me rebaixar por um argumento tão sem pé nem cabeça como esse.
Pra chegar até aqui, batalhei e todos os dias foram vitórias, mesmo que a longo prazo. Pra chegar até aqui, bastou-me acreditar e pra superar obstáculos você só precisa exatamente disso.
Aos 20, percebi que tem algo entre a mulher que eu sou e a mulher que eu quero ser. Elas não se fundem porque eu ainda não contornei, ou passei por cima, de problemas elementares que hoje deveriam me fazer rir. E toda a minha dificuldade de completar mais um ano e girar a peça teve em sua essência o medo de não conseguir.

Mais fácil assim, né? Admitindo. Mas, mais fácil ainda, é começar a me enxergar como alguém diferente… E esse é o meu amplo desafio das duas dezenas. Sorrio, finalmente, porque dentro dele tem tantos detalhes, mas e daí? Eu já cheguei até aqui e na vida nada retrocede, só avança. Sabendo o caminho, como agora eu sei, acho que conseguimos fazer qualquer coisa.

Tomara.

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