Primeira madrugada difícil.

Eu nunca fui muito fã de lugares escuros. Alguma coisa no fato de não poder olhar em volta me deixa angustiada, mesmo que eu conheça o lugar. Certa vez, eu e um vizinho estávamos comendo um bolo com chocolate quente na padaria que fica perto da minha casa. Uma chuva torrencial começou e resolvemos esperá-la passar. A conversa correu com facilidade, tanto quanto a chuva, e quando menos podíamos esperar… Um apagão na rua. A água já estava entrando na padaria há uns 15 minutos, mas colocamos os pés em cima da cadeira e esperamos que esse fosse o pior. Bom, além da escuridão lá fora, o dono alegou que queria fechar a padaria para evitar prejuízos e nos expulsou. Engoli em seco. Fomos e ficamos na frente da padaria. A cada raio e trovoada conseguíamos ter uma noção do espaço que tinha em nossa volta. Era assustador. Eu acho que nunca abracei um semi conhecido tão forte. Chorei, obviamente, porque a bateria do celular tinha acabado e minha mãe não fazia ideia de onde eu estava. O garoto deu a ideia de andarmos até a minha casa. Eu o encarei, no escuro, incrédula e choraminguei. Eu não sabia nadar e a água estava no meu tornozelo. De fato, exagerei na possibilidade de morrer afogada, mas e quanto aos fios que em poças podem nos eletrocutar? Respirei fundo, pedi proteção divina e fui de mãos dadas com ele acreditando que tudo podia acontecer. O escuro me corroeu o suficiente para eu chegar desesperada no portão de casa. Ele seguiu até a rua dele. Mal pude pensar na imagem de garota infantil e medrosa passada, mal consegui pensar. A partir daí, notei uma incapacidade ao lidar não apenas com o simples escuro, mas com o fato de estar incomunicável. Sem pontes com o máximo número de pessoas possível. Sozinha comigo mesma de uma forma muito mais profunda e obrigatória do que um retiro espiritual.
Eis que… Em plena quinta-feira, ontem a noite, eu estava no meio de um sonho bom quando notei que o celular vibrou de uma forma esquisita. Era a luz indo e voltando. Sorte ou azar, tirei da tomada e o ventilador parou. Lá se foi a eletricidade, lá se foi a minha capacidade de dormir sem sentir uma falta de ar sistemática me atingir em todos os cantos. Minha respiração se alterou, meu corpo se inquietou, minha mente transtornou cada pensamento que não focasse na obrigatoriedade de ficar comigo, apenas comigo, durante os minutos que o apagão durasse. Mesmo com a minha irmã na sala, a conversa não durou nem 10 minutos, parecia que o momento exigia a solidão.
Sentei na cama, me envolvi na coberta e deixei os pensamentos me invadirem. Me detonarem. Me transformarem. A gente nunca está pronto para ficar completamente sozinho. Nem consigo mesmo, nem com outras pessoas. A tecnologia nos transformou. Em uma caixa escura ou clara, é impossível você ficar com outra pessoa sem ter a certeza de que te esperam fora dali. Seja com informações cotidianas, com conhecimento acumulativo, com esperanças. Nós só conseguimos escapar do destino de sermos nômades graças à tecnologia. Ela nos transporta para todos os lugares possíveis em menos de 30 segundos. Sem ela, jamais aguentaríamos ficar em casa por mais de um dia. Eu admito que não aguento nem algumas horas sem me forçar a dormir e fugir pro inconsciente. Já em contato com a natureza, a situação é diferente, porque a ideia da espiritualidade existente ali, só ali, te deixa anestesiado. Seus demônios nunca falarão mais alto do que a leveza do barulho que a brisa faz ao escorregar pelas plantas.
Deve parecer falho o argumento de que as companhias não compensam a bagunça mental que nós sentimos ao nos tocarmos que estamos trancafiados. Entretanto, entenda que, se a outra pessoa não for um universo completamente interessante para onde você possa viajar, ela vai ser como um móvel. As conversas vazias vão te deixar agoniado. O fato de estar na merda acompanhado não ajuda nem um pouco. Só se vocês viajarem em algum papo, cabeça ou não, e daí a anestesia vai fazer efeito até que tenham força para sair dali ou a luz volte.
Enfim, a escuridão me trouxe vulnerabilidade e me trouxe claridade para ver tudo que eu nunca consegui ver direito. Os meus medos, a minha fraqueza, as dependências. A vida não é tão colorida quanto parece sem as anestesias. Caso fôssemos presos na solitária para sempre, seríamos tão infelizes que possivelmente nos mataríamos. E se fôssemos presos com uma companhia chata ou terrível, mesma possibilidade. Deslegitimei a tecnologia como anestesia saudável. Ela foi criada por nós, e assim como qualquer coisa “made by humans”, ela pode ser destruída e retirada sem nem mesmo um aviso prévio. Nesse caminho, parei para observar o quanto eu mesma já tinha viajado sem a ajuda da tecnologia. O quão livre eu era da loucura de ser oca.
Em seguida, lembrei de todos que nunca sonharam.
De todos que nunca viajaram.
De todos que nunca entraram em universos alheios.
Cogitei uma porcentagem e qualquer número me parecia grande demais.
Mesmo 1% de pessoas, mesmo que seja só 0,0005%, esse número me ofende. Como que tem tanta gente agoniada, perturbada, presa, impedida e nada se faz? Porque essas pessoas, sem a tecnologia, são exatamente tão limitadas quanto as que nunca tiveram acesso a ela.
De fato, dizem que só queremos a liberdade quando nos entendemos como presos. A ignorância nesse caso soa uma benção. Porém, eu discordo e bastante.
Esse tipo de prisão não é ignorado por nada, nem ninguém. A tristeza de se estar preso à tecnologia por não ser nada sem ela me amedronta de uma forma muito mais dolorosa do que eu consigo demonstrar. A falta de ar nasceu no fato de que eu coloquei a senha no meu celular, vi 58% de bateria e pensei:
O que diabos vai acontecer quando ela se for?
O que eu farei?
O que eu pensarei?
Conseguirei sonhar acordada, conversar e viajar?
Ser livre e ter sede por liberdade vai muito além do que eu pensava. E definitivamente eu preciso muito mais disso do que eu julgava. Uma alma nômade, digamos assim, não pode se sentir presa a algo destrutível. Ela não quer ser destrutível, nem limitada.
Ela quer existir.
Mesmo que eu mesma não entenda isso as vezes, a solidão obrigatória nos lembra que por mais que tentemos camuflar nossas essências com consumismo e outras tendências, nada é suficientemente forte. Nada nos faz viver além das viagens. Além dos sonhos. Além dos outros universos.

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