Estar apaixonada: faca de dois gumes.

Ter a certeza de que está apaixonada é a melhor e a pior coisa.
Acostuma-se a sentir o estômago esfriar, surge uma preocupação muito sincera com o que falar e o que deixar pra lá, os momentos da protagonista dos filmes mais bobos possíveis passam a ecoar na sua mente. Entende o que eu quero dizer? Antes, você morria de rir da personagem apaixonada que, dessa vez, tinha cer-te-za que tudo daria certo com o cara que aterrissou na vida dela, mas a coitada se atrapalhava completamente ao repetir os antigos erros e ao criar novos. Agora, você morre de medo por correr sérios riscos de estar a interpretando sem nem notar. Eu juro que me bateu um desespero muito sincero quando assisti uma cena de uma série onde a mulher é doida, insegura, cômica, meio burra e ingênua demais, porque ela e os problemas dela podem só existir na televisão, mas uma identificação bem genuína nasceu na minha mente fértil.
Quero dizer, estar apaixonada é um pouco disso. Antes de pegar o jeito, a gente fala demais, fala de menos, desvaloriza ou valoriza em excesso, surta e perde a cabeça, desiste e volta com um ritmo ainda mais insano, faz de tudo pra acertar e erra nas coisas mais estúpidas.
Só que… Uma hora tudo se acerta, né?
De repente, a gente para e nota como as mãos se encaixam automaticamente, assim como as respostas para as perguntas saem com mais confiança, ou nem saem, porque os olhares passam a ser lidos como se fossem um anúncio gigante em um outdoor: nós deciframos querendo ou não. As vezes seria até melhor que não lêssemos, mas é inevitável. Mesmo depois que tudo se torna naturalmente fácil, a dificuldade consiste no fato de que magoamos mesmo as pessoas que mais amamos. Acontece na mesma proporção, eu diria. As pessoas que mais nos fazem felizes são as que mais potencialmente nos machucam, e vice-versa, exatamente pela lei de que amar é se colocar em uma posição vulnerável.
Essa é a parte boa e ruim ao mesmo tempo.
Depois de tantas feridas, de tantos medos e maus exemplos, novamente nos colocamos à disposição e saímos da escuridão que outrora nos acolheu e curou. A luz que vem da pessoa quase nos cega, machuca até o momento em que nos acostumamos e expõe das nossas partes mais bonitas às mais feias.
Entretanto, quando vira um hábito e finalmente abrimos os olhos depois de tanto tempo acostumados com o escuro, enxergamos o mundo de uma forma completamente diferente. A rotina soa nova, os lugares que antes eram tão previsíveis tornam-se palcos das histórias mais inacreditáveis, aprendemos a caminhar mais calmamente, o ritmo de vida muda. De fato, tudo continua no mesmo lugar, mas agora as texturas se transformam e aquela pessoa que até o momento era só mais uma voz, ganha corpo.
Sem tantas metáforas, nós passamos a vida inteira muito ligados ao mundo físico, vemos só o que está diretamente na nossa frente, mas se apaixonar é ligar todas as emoções que nos fazem seres com alma, com sonhos, com algo além desse casco que aos poucos vai se decompondo. Não tem coisa melhor do que morrer de amor e continuar vivendo, porque você morre pra tudo que não seja amor, seja o estresse do trânsito, seja a preocupação com as contas, e foca no que mais importa: você não está mais sozinha.

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