Quem x, faz y.

Desde pequena me acostumei a ler e ouvir conselhos que sempre repetiam a mesma essência: “seja sua melhor amiga”. Afinal, pessoas te decepcionam o tempo inteiro e não tem sensação melhor do que contar consigo mesma. Se por acaso der errado, você pode demonstrar o quão frustrada está e como esperava outro resultado. Se der certo, não tem recompensa melhor depois de tanto esforço, aliás, é engraçado como o sentimento do êxito te acompanha quase que o tempo inteiro(mesmo antes). Como não? Você pode lutar, fazer horas extras, explorar seus limites e saber que, independente do cansaço, você não vai dar pra trás. Dá pra confiar, sabe? A cada dia que passa fica tão difícil exercer a tal da confiança com qualquer um, mas consigo mesma, é fato: você se conhece o suficiente para engatar em qualquer aventura de olhos fechados.

Em contrapartida, outro típico assunto que sempre reinava era o tal do “amar é confiar”. Seguindo esse raciocínio, faz sentido porque compartilhamos tanto das nossas vidas com amigos quase que o tempo inteiro. É um pacto invisível. Mesmo que tenham nascido em outras casas e sejam filhos de outros pais, são eles que se escondem nas araras de roupa com vocês, lá pelos nove anos de idade, enquanto suas mães estão atentamente escolhendo aqueles conjuntinhos bregas que certamente vocês também enfrentarão juntos; assim como são as testemunhas daquela primeira grande burrada, do primeiro grande pt(e do último), do primeiro coração partido e por aí vai. Seríamos muito sangue de barata se conseguíssemos contar apenas com nós mesmos. Entretanto, já passado o obstáculo de sairmos das nossas bolhas individuais, chega o pior de todos: e quando o assunto é confiar na pessoa por quem você se apaixonou? Porque não é aquele cara que te ajudou a pular o muro e viu você se estabacar toda quando tinha uns 13 anos de idade. Agora, já que você está apaixonada, sendo ele a pessoa que te flagrou aos 13 ou não, é o cara que faz seu estômago esfriar completamente só de estar na mesma calçada.

Ah, vai me perdoar, mas a frase ganha um sentido totalmente de auto-ajuda. “Se você não tem plena certeza de que ele te ama e não vai nem cogitar ter uma quedinha pela amiga super linda que é tão simpática quanto você, aí, menina, você não tá apaixonada. Estar apaixonada não é nada disso, sai dessa, vai se curar num retiro espiritual”, quem nunca ouviu um lance assim? E ainda piora: “Você precisa se amar pra ser amada, meu bem”. Oi? Com licença, mas eu me amo e sei perfeitamente que essa história de “se sentir segura é o primeiro passo para uma relação”, só que não é 100% do tempo assim. Nunca vai ser preto no branco. Nunca vai ser “se você se ama, não vai ficar se preocupando se o cara está vulnerável às outras ou não”.

Afinal, num relacionamento nunca tem só amor. Se só tivesse amor, pra começar, nada iria pra frente. Nós não somos seres que se alimentam apenas disso pra sobreviver e – infelizmente – essa é uma realidade muito pouco falada. O objetivo final pode até ser viver apenas amando em sua plenitude, mas o fato é que temos coisas ruins e complexas dentro de nós que precisam ser vistas e – mais do que isso – sentidas.
Pelo menos no meu caso, eu sinto como se julgar ciúme, inseguranças, traumas, luxúria, carências, como coisas impróprias e incabíveis, basicamente fosse me dar um atestado de “você nunca vai ser feliz”. Aliás, é um “você não vai ser feliz tão cedo”. Mas, por que?

Por que é tão difícil sentir uma insegurançazinha e seguir com a bola pro ataque? Por que parece tão impossível marcar um gol sentindo aqueles gases infelizes perto do abdomen? Eu facilito: porque vivem repetindo isso.

Se você tem um trauma e não vai tratá-lo, eita, desiste de viver. Você precisa encará-lo sozinha ou ferrou, pode considerar-se uma infeliz, pé no saco e mal amada. Particularmente, discordo muito disso.
Partindo do princípio que somos todos infinitamente diferentes, adianto logo: eu sou extremamente mais sensível do que uma das minhas melhores amigas. Pra ela, é essencial não tremer na base por ninguém. Ser completamente segura no cara e ponto final, portanto, ou chega-se na fase de acreditar no seu taco ou ainda não está na hora de ter ninguém. O sossego pra ela é a coisa mais importante. Acho que a Clarissa Corrêa também já falou disso, mas ouso vir aqui representar um percentual que pensa um pouco diferente.
Pra começar, acho que no começo, ou ele te tira o sossego, ou você não sente absolutamente nada real. Eu já senti tanta coisa boba, tanta coisa que não era nada além do que fogo de palha, mas ninguém nunca me tirou o sono. Até o cara em questão, eu não sabia o que era chorar por alguém, ou me sentir ansiosa só pela ideia de perdê-lo. Cá estou, completamente medrosa e vulnerável pela primeira vez na vida. Perdi o sossego. Se isso não for indício de amor, eu já adianto: é de algo muito melhor.

Porra, já escrevi mais de quinhentos textos retratando sentimentos e sentimentos, mas nenhum me tirou tanto o ar e foi tão incrível como esse. Eu não sei se é amor, porque eu ainda não tive coragem de falar a tal frase, nem ele, mas até mesmo isso soa completamente diferente. Alguns julgariam e diriam: claramente vocês são infantis demais e o sentimento está totalmente deturpado. Eu rio na cara do perigo e suspiro: eu sou completamente deturpada pela vida e por tudo que já vi e vivi até hoje. Não sou normal, não penso como a maioria das garotas e o amor digno de Cinderella nem sequer me chama mais a atenção. Ainda não cheguei no nível “o brilho de uma mente sem lembranças”, mas confesso que não tem mais graça se não for completamente imperfeito e cheio de transparências.

Não quero que ele me enxergue como uma princesa bobinha, aliás, tomara que ele consiga ver que eu sou realmente isso. Uma princesa bobinha em pleno século XXI, não uma top model ou uma cocotinha que se preocupa com o estilo. Nah, eu faço o tipo romântica incurável, estabanada e com uma mentalidade muito mais coletiva do que individual. Quero que todos tenham seu final feliz, não só eu, então, quase nunca estou completamente satisfeita e a partir daí nota-se que talvez eu nem goste de me imaginar sossegada.
Em nenhum campo da minha vida existe espaço para o sossego, a calmaria, a tal da respiração profunda o tempo inteiro, então por que diabos o amor da minha vida me traria isso? Pra me mudar? Acho que o cara vai me complementar, sabe, então honestamente acho que a única coisa errada ocorrerá se eu for desse jeito e ele um típico fã de sossego. Se ele não tiver fôlego, ok, eu vejo o tal problema, mas e se eu for a garota insegura, maluca, espontânea, selvagem, deturpada; e ele mesmo assim me quiser? Aí ainda assim não vamos ter futuro nenhum por não nos encaixarmos em respostas de livros de auto-ajuda?

O fato de eu não confiar tanto, hoje, no nosso amor, de repente mora no fato de que eu preciso aprender o bê-a-bá desde o comecinho, ou seja, aprender a confiar primeiro em dormir do lado dele e conseguir fechar os olhos sentindo nossos corpos juntinhos. Depois, quem sabe, partir pra crer nas suas escolhas, como no programa de sábado a noite ou quando ele decidir me trazer em casa de carro quando já for tarde. De pouco em pouco, a ponte vai se firmando e a gente entende que esse verbo aí que vem do latim e tem o “com”(intensificador) mais o “fidere”(crer, que deriva de “fides”=fé), é muito mais do que um manual invariável.
Na verdade, ele muda e se transforma de pessoa pra pessoa.

De acordo com as minhas vivências, preciso falar de absolutamente tudo que passar pela minha mente e conferir, a cada mínimo passo, se ele ainda está lá com aquele sorriso bobo e despreocupado. De acordo com as dele, ele vai caminhar por degraus completamente diferente dos meus, e por isso mesmo, não existe isso de eu ter plena certeza em nada. A dúvida é saudável, é o típico “pé no chão” que nos salva sempre que estamos lidando com seres humanos tão errantes quanto nós.

Entretanto, não me entendam mal. A plena certeza naquilo que a gente não vê, ou seja, nas profundezas do coração do outro, um dia vai chegar. Só não é no primeiro mês ou nos primeiros cem dias. Então, surtos são perfeitamente aceitáveis e não é por isso que você não gosta dele o suficiente. Você gosta, inclusive, gosta até demais e quer que vocês fiquem juntos até a fase um pouco(só um pouco) mais sossegada chegar. E as vezes a gente tem um olhar tão fofinho sobre o cara que nem se liga que, de repente, por mais incrível que ele pareça pra você, o clique/a combinação só rolou contigo mesmo e fim. Ninguém vai passar por ele com uma fantasia de odalisca e captar o coração dele como você aparentemente fez, ninguém precisa te intimidar só por existir, porque essa é a parte que a gente chama de “ciúmes”, mas que quando nós nos conhecemos o suficiente já sabemos que é só “medo de concorrência”. Uma coisa é a garota se jogar no pescoço dele na sua frente, outra é ela apenas existir e estar ali, brincando de ser feliz, sorrindo pra tudo quanto é lado, e automaticamente ligar teu alerta vermelho.
Relaxa.
Aos poucos vai cair a ficha aí dentro que ninguém vai receber e dar carinho como você, ou que seu jeito – esse mesmo – é até fofo, até charmoso, até exatamente o que o deixa feliz de te ter só pra ele. Com equilíbrio entre o que é medo interno e o que é perfeitamente aceitável porque aqui ninguém é estátua, vai dar tudo certo e vai ser fácil alcançar a fase do “ahn? sim, claro, ele tá lá naquela festa e eu tô aqui, estudando pra prova de amanhã, mas tá tudo lindo”. Eu juro. Aliás, eu espero.

Escrevi isso tudo porque passei a minha vida inteira ouvindo desses conselhos que, as vezes, ficam muito batidos e a gente nem entende o motivo. Sério, são frases realmente boas e com sentido, mas foram tão passadas de boca em boca e generalizadas que agora tem um bando de mulheres/homens por aí sem eira nem beira. Antes de assinar embaixo de algo assim, seja seu melhor amigo e pense o seu lado. Se a gente não curte usar as mesmas roupas, por que diabos teria que usar os mesmos conselhos sem adaptações?

-Quem confia ama.
-Quem cuida ama.
-Quem ama diz que ama.
-Quem aceita ama.
-Quem ama se preocupa.
-Quem ama respeita.
-Quem ama não trai.
-Quem … ama.
Agora, o negócio é: qual a ordem correta entre os termos? Será que tem? I don’t think so. As coisas acontecem no tempo de cada um, ou não acontecem e aí simplesmente não era pra ser. Qualquer coisa, coloca um exaltassamba, um bom indie e vai brincar de ser feliz, mas isso fica pra outro texto.

Estar apaixonada: faca de dois gumes.

Ter a certeza de que está apaixonada é a melhor e a pior coisa.
Acostuma-se a sentir o estômago esfriar, surge uma preocupação muito sincera com o que falar e o que deixar pra lá, os momentos da protagonista dos filmes mais bobos possíveis passam a ecoar na sua mente. Entende o que eu quero dizer? Antes, você morria de rir da personagem apaixonada que, dessa vez, tinha cer-te-za que tudo daria certo com o cara que aterrissou na vida dela, mas a coitada se atrapalhava completamente ao repetir os antigos erros e ao criar novos. Agora, você morre de medo por correr sérios riscos de estar a interpretando sem nem notar. Eu juro que me bateu um desespero muito sincero quando assisti uma cena de uma série onde a mulher é doida, insegura, cômica, meio burra e ingênua demais, porque ela e os problemas dela podem só existir na televisão, mas uma identificação bem genuína nasceu na minha mente fértil.
Quero dizer, estar apaixonada é um pouco disso. Antes de pegar o jeito, a gente fala demais, fala de menos, desvaloriza ou valoriza em excesso, surta e perde a cabeça, desiste e volta com um ritmo ainda mais insano, faz de tudo pra acertar e erra nas coisas mais estúpidas.
Só que… Uma hora tudo se acerta, né?
De repente, a gente para e nota como as mãos se encaixam automaticamente, assim como as respostas para as perguntas saem com mais confiança, ou nem saem, porque os olhares passam a ser lidos como se fossem um anúncio gigante em um outdoor: nós deciframos querendo ou não. As vezes seria até melhor que não lêssemos, mas é inevitável. Mesmo depois que tudo se torna naturalmente fácil, a dificuldade consiste no fato de que magoamos mesmo as pessoas que mais amamos. Acontece na mesma proporção, eu diria. As pessoas que mais nos fazem felizes são as que mais potencialmente nos machucam, e vice-versa, exatamente pela lei de que amar é se colocar em uma posição vulnerável.
Essa é a parte boa e ruim ao mesmo tempo.
Depois de tantas feridas, de tantos medos e maus exemplos, novamente nos colocamos à disposição e saímos da escuridão que outrora nos acolheu e curou. A luz que vem da pessoa quase nos cega, machuca até o momento em que nos acostumamos e expõe das nossas partes mais bonitas às mais feias.
Entretanto, quando vira um hábito e finalmente abrimos os olhos depois de tanto tempo acostumados com o escuro, enxergamos o mundo de uma forma completamente diferente. A rotina soa nova, os lugares que antes eram tão previsíveis tornam-se palcos das histórias mais inacreditáveis, aprendemos a caminhar mais calmamente, o ritmo de vida muda. De fato, tudo continua no mesmo lugar, mas agora as texturas se transformam e aquela pessoa que até o momento era só mais uma voz, ganha corpo.
Sem tantas metáforas, nós passamos a vida inteira muito ligados ao mundo físico, vemos só o que está diretamente na nossa frente, mas se apaixonar é ligar todas as emoções que nos fazem seres com alma, com sonhos, com algo além desse casco que aos poucos vai se decompondo. Não tem coisa melhor do que morrer de amor e continuar vivendo, porque você morre pra tudo que não seja amor, seja o estresse do trânsito, seja a preocupação com as contas, e foca no que mais importa: você não está mais sozinha.