Happy endings.

Ser poeta tem dessas de achar graça e cor em qualquer história ou segredo. Não tem nem que fazer poesia, longe disso, só precisa ter esse brilho diferente na hora de entender alguma situação. Então, ela entrou pro convento? Mentira, ela, na verdade, decidiu que sua alma gêmea já tinha morrido em alguma revolução ou guerra civil. Ah, ele a pediu em casamento? Não, ô, que eu saiba ele entendeu que não conseguiria passar um dia a mais sem dormir e acordar sentindo aquelas mãos tão suaves entrelaçando seus cabelos e abruptamente transformando uma manhã tranquila em uma maratona de cosquinhas e cafuné.
Não tem graça esse papo de viver cheia de sentimentos se não for para me tornar alguém incrivelmente doce e otimista. Sem brincadeira, eu sinto um cansaço toda vez que me obrigo a ser pessimista e colocar os pés no chão.
Foi numa situação exatamente dessas, onde tentavam me encher de tralhas para pesar mais e voar baixo, que eu me livrei da marcação e optei por olhar com meus olhos para outra história.
O casal era relativamente novo, um ano e meio juntos, e o intercâmbio finalmente tinha chegado. Primeiro pra ela, Alemanha, e seis meses depois, EUA, para ele. Nunca tinha sido um problema para nenhum dos dois, mas ali… Naquela semi despedida, no jantar com a família dela alguns dias antes da viagem, o teto subitamente caiu. A expressão do rapaz era séria, distante, e ao mesmo tempo dolorida. Ele sentia que ela era o trem, enquanto lhe cabia apenas o papel de estação, e o tal do tempo de embarque finalmente tinha terminado. A guria engoliu em seco o clima pesado. Depois, já na pracinha que ficava na esquina, eles se encararam como se adivinhassem os pensamentos expostos em seus olhares.
De um lado, dor e impotência. De outro, frustração e compreensão. Ela sempre tinha se colocado no papel de entender e cuidar dele apesar de tudo, agora não seria diferente. Assim como no dia em que ele pediu um tempo depois da morte da avó, assim como no dia seguinte, quando ela acordou com uma ligação, um choro incessante e um pedido que era irrecusável. Esse era o máximo que já tinham aguentado separados: um dia, uma noite. Passaram-se alguns minutos até o garoto ter coragem de soltar seus pensamentos em frases bem mais tolas e frias do que seus sentimentos. Isso, por sinal, magoou bastante a garota que só queria ter certeza de que o término era por tudo, qualquer coisinha, menos por falta de amor.
Bom, até aí, morreu Judas. Ninguém discorda de que essa situação é previsível. Então, eu entro e bagunço um pouco as coisas. Dois anos separados. Pode até parecer ruim, mas a partir do momento em que você encontra o amor da sua vida, não surge uma força diferente para desempenhar tarefas acoplada à contraditória preguicinha de fazer qualquer coisa que não tenha a ver com ele? Acho que viagens assim surgem para que não nos acomodemos em achar que a vida humana se resume ao romantismo de ter, de fato, uma alma gêmea. Sem querer parecer o que definitivamente não sou, preciso admitir que é uma tremenda futilidade achar que a grande missão de nossas vidas é achar a pessoa com quem passaremos o resto do nosso tempo na Terra. Quantos milhares de sonhos não haviam sido sonhados para o garoto que, em seis meses, estaria traçando linhas profundas em seu destino? E a mesma coisa para a menina, no interior da Alemanha, que trazia em si tanto potencial que é difícil traduzir em um texto. Porém, de novo pincelo meu ponto de vista, lembrando que em nenhum momento eu ouso pensar que esse acaso que os separou não vai os trazer ainda mais apaixonados depois de dois anos de emails, cartas, ciúmes e encontros fracassados. Gringos tem uma velocidade diferente, gringos tem alguma coisa que faz com que ela vá dormir abraçada na foto do brasileiro predileto dela todos os dias. O sorriso, as piadas, as internas, aquele acampamento que eles inventaram de fazer com quatro meses de namoro, as noites em claro antes das p2’s, que ambos faziam questão de aguentar, as vezes dividindo o sofá, as vezes fazendo caretas via Snapchat. Alguma coisa na distância não era suficiente para apagar as lembranças e as conexões já feitas. Em algum canto de cada um, a verdade brilhava e transcendia: não se encaixariam com mais ninguém. Ele conheceu mulheres lindas, incríveis, engraçadas e inteligentes, inclusive, virou o “amigo gay” da maioria, porque na primeira noite em que uma delas o beijou, ele retribuiu e notou como aquele beijo deveria ser bom, mas foi o pior de toda a sua vida até então. O casal se viu cinco vezes durante esses dois anos. Quando finalmente o dia chegou, sem muito o que esperar, mas ao mesmo tempo, tendo a certeza absoluta de que nada tinha mudado, marcaram um encontro naquela mesma pracinha que marcou a despedida mais silenciosa de todos os tempos.
Ele mudou fisicamente, parecia mais alto e forte, e ela se vestia de uma forma mais clássica. Parecia tão mais profissional, tão mais decidida e encaminhada. O cara não se conteve e a abraçou, em parte pela saudade, em parte para confirmar que tudo aquilo era só roupa e postura europeia. Ela ainda era o bichinho dele, ele ainda era um urso carinhoso e engraçado. O tempo havia passado, sim, e inclusive, ambos tinham avançado em suas carreiras como tinham feito nos primeiros meses de namoro. Estavam mais maduros, mais cheios de certezas. Sabiam do seu potencial, das suas vontades, sonhos e possibilidades próximas. Entretanto, a maior confirmação tem a ver com o carinho que ela fazia toda vez que cheirava o cabelo dele quando acordavam juntos, como fizeram escondidos dos pais em Paris, e com os bilhetes apaixonados/encorajadores que ele deixou espalhados no apartamento em que ela vivia na Alemanha. Agora, tinham em si o maior amor do mundo, daqueles que podem ser testados por qualquer um a qualquer hora, que não se mexe, não se assusta, apenas resiste.
As pessoas me julgam, sabe, por ser tão sonhadora e boba. Só que, cara, por que diabos resumir uma história dessas em: casal que namora há pouco tempo se separa para viver a vida louca no intercâmbio, volta para o Brasil e acaba reatando? Isso é um saco, vai, isso é cortar todas as emoções que são vitais para o começo, meio e fim dessa história. Se a gente passasse mais tempo encarando o mundo com toda a porcentagem disponível de espontaneidade, amor e graça, nós seríamos muito mais felizes. Tem a ver com ser simples, livre e leve. Let it be, let it go… Mas não se esquece, 90% de tudo tem a ver com amor. Seja pelo que já veio, seja pelo que vai chegar.

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