Sticky fingers.

E sempre que você se sentir um pouco abatido, sente-se e encha-se de todos que ama. Conversas de meia boca podem preencher vazios que nós nem imaginamos existir. Lá estava eu, na beira do não-saber de um sábado azul, quando optei por duas primas e três amigas divertidíssimas. O garçom, Moisés, serviu como assunto, assim como o passado recente. Aliás, tudo que não estava ali, transcendendo naquele momento, se tornou passado e daí tirei a leveza com a qual caminhei até a porta de casa. Apesar de bonito, intenso, tentador, o problema que te amola sempre pode se transformar em pó assim que você decidir a hora certa. Sério, as pessoas passam dias e dias encucadas e decididas a sofrer por vírgulas que, aos meus olhos, poderiam ser pontos finais e indícios de belos parágrafos diferentes.
O melhor de ter entendido que só quem te ama pode te roubar horas de sono é o fato de que esse grupo consegue ser menor do que a torcida do botafogo e, com isso, sobram noites descansadas e manhãs iluminadas para gerar mais e mais vontade de viver. Sentir-se abatido é tão normal quanto sentir-se feliz, o que muda é a cura. Felicidade, se cura com “A culpa é das estrelas” ou “A vida é bela”, já a tristeza… Essa, você já sabe: amigas, um garçom engraçado e um pouquinho de sorte na hora de lembrar que nossa vida é muito mais do que um problema, uma pessoa que não te ama ou um frapuccino sem chantilly. Aliás, não, se o seu frapuccino vier sem chantilly… Devolve e pede outro. Isso, ninguém vai conseguir compensar.

Happy endings.

Ser poeta tem dessas de achar graça e cor em qualquer história ou segredo. Não tem nem que fazer poesia, longe disso, só precisa ter esse brilho diferente na hora de entender alguma situação. Então, ela entrou pro convento? Mentira, ela, na verdade, decidiu que sua alma gêmea já tinha morrido em alguma revolução ou guerra civil. Ah, ele a pediu em casamento? Não, ô, que eu saiba ele entendeu que não conseguiria passar um dia a mais sem dormir e acordar sentindo aquelas mãos tão suaves entrelaçando seus cabelos e abruptamente transformando uma manhã tranquila em uma maratona de cosquinhas e cafuné.
Não tem graça esse papo de viver cheia de sentimentos se não for para me tornar alguém incrivelmente doce e otimista. Sem brincadeira, eu sinto um cansaço toda vez que me obrigo a ser pessimista e colocar os pés no chão.
Foi numa situação exatamente dessas, onde tentavam me encher de tralhas para pesar mais e voar baixo, que eu me livrei da marcação e optei por olhar com meus olhos para outra história.
O casal era relativamente novo, um ano e meio juntos, e o intercâmbio finalmente tinha chegado. Primeiro pra ela, Alemanha, e seis meses depois, EUA, para ele. Nunca tinha sido um problema para nenhum dos dois, mas ali… Naquela semi despedida, no jantar com a família dela alguns dias antes da viagem, o teto subitamente caiu. A expressão do rapaz era séria, distante, e ao mesmo tempo dolorida. Ele sentia que ela era o trem, enquanto lhe cabia apenas o papel de estação, e o tal do tempo de embarque finalmente tinha terminado. A guria engoliu em seco o clima pesado. Depois, já na pracinha que ficava na esquina, eles se encararam como se adivinhassem os pensamentos expostos em seus olhares.
De um lado, dor e impotência. De outro, frustração e compreensão. Ela sempre tinha se colocado no papel de entender e cuidar dele apesar de tudo, agora não seria diferente. Assim como no dia em que ele pediu um tempo depois da morte da avó, assim como no dia seguinte, quando ela acordou com uma ligação, um choro incessante e um pedido que era irrecusável. Esse era o máximo que já tinham aguentado separados: um dia, uma noite. Passaram-se alguns minutos até o garoto ter coragem de soltar seus pensamentos em frases bem mais tolas e frias do que seus sentimentos. Isso, por sinal, magoou bastante a garota que só queria ter certeza de que o término era por tudo, qualquer coisinha, menos por falta de amor.
Bom, até aí, morreu Judas. Ninguém discorda de que essa situação é previsível. Então, eu entro e bagunço um pouco as coisas. Dois anos separados. Pode até parecer ruim, mas a partir do momento em que você encontra o amor da sua vida, não surge uma força diferente para desempenhar tarefas acoplada à contraditória preguicinha de fazer qualquer coisa que não tenha a ver com ele? Acho que viagens assim surgem para que não nos acomodemos em achar que a vida humana se resume ao romantismo de ter, de fato, uma alma gêmea. Sem querer parecer o que definitivamente não sou, preciso admitir que é uma tremenda futilidade achar que a grande missão de nossas vidas é achar a pessoa com quem passaremos o resto do nosso tempo na Terra. Quantos milhares de sonhos não haviam sido sonhados para o garoto que, em seis meses, estaria traçando linhas profundas em seu destino? E a mesma coisa para a menina, no interior da Alemanha, que trazia em si tanto potencial que é difícil traduzir em um texto. Porém, de novo pincelo meu ponto de vista, lembrando que em nenhum momento eu ouso pensar que esse acaso que os separou não vai os trazer ainda mais apaixonados depois de dois anos de emails, cartas, ciúmes e encontros fracassados. Gringos tem uma velocidade diferente, gringos tem alguma coisa que faz com que ela vá dormir abraçada na foto do brasileiro predileto dela todos os dias. O sorriso, as piadas, as internas, aquele acampamento que eles inventaram de fazer com quatro meses de namoro, as noites em claro antes das p2’s, que ambos faziam questão de aguentar, as vezes dividindo o sofá, as vezes fazendo caretas via Snapchat. Alguma coisa na distância não era suficiente para apagar as lembranças e as conexões já feitas. Em algum canto de cada um, a verdade brilhava e transcendia: não se encaixariam com mais ninguém. Ele conheceu mulheres lindas, incríveis, engraçadas e inteligentes, inclusive, virou o “amigo gay” da maioria, porque na primeira noite em que uma delas o beijou, ele retribuiu e notou como aquele beijo deveria ser bom, mas foi o pior de toda a sua vida até então. O casal se viu cinco vezes durante esses dois anos. Quando finalmente o dia chegou, sem muito o que esperar, mas ao mesmo tempo, tendo a certeza absoluta de que nada tinha mudado, marcaram um encontro naquela mesma pracinha que marcou a despedida mais silenciosa de todos os tempos.
Ele mudou fisicamente, parecia mais alto e forte, e ela se vestia de uma forma mais clássica. Parecia tão mais profissional, tão mais decidida e encaminhada. O cara não se conteve e a abraçou, em parte pela saudade, em parte para confirmar que tudo aquilo era só roupa e postura europeia. Ela ainda era o bichinho dele, ele ainda era um urso carinhoso e engraçado. O tempo havia passado, sim, e inclusive, ambos tinham avançado em suas carreiras como tinham feito nos primeiros meses de namoro. Estavam mais maduros, mais cheios de certezas. Sabiam do seu potencial, das suas vontades, sonhos e possibilidades próximas. Entretanto, a maior confirmação tem a ver com o carinho que ela fazia toda vez que cheirava o cabelo dele quando acordavam juntos, como fizeram escondidos dos pais em Paris, e com os bilhetes apaixonados/encorajadores que ele deixou espalhados no apartamento em que ela vivia na Alemanha. Agora, tinham em si o maior amor do mundo, daqueles que podem ser testados por qualquer um a qualquer hora, que não se mexe, não se assusta, apenas resiste.
As pessoas me julgam, sabe, por ser tão sonhadora e boba. Só que, cara, por que diabos resumir uma história dessas em: casal que namora há pouco tempo se separa para viver a vida louca no intercâmbio, volta para o Brasil e acaba reatando? Isso é um saco, vai, isso é cortar todas as emoções que são vitais para o começo, meio e fim dessa história. Se a gente passasse mais tempo encarando o mundo com toda a porcentagem disponível de espontaneidade, amor e graça, nós seríamos muito mais felizes. Tem a ver com ser simples, livre e leve. Let it be, let it go… Mas não se esquece, 90% de tudo tem a ver com amor. Seja pelo que já veio, seja pelo que vai chegar.

Olha só, moreno.

Então, como é que vai ser? É tão estranho voltar a escrever algo feito com tanto carinho, mas eu quero. Apesar de todos os riscos, eu quero. Você tem alguma coisa escondida nesse sorriso que me deixa com vontade de soltar uma gargalhada e te dar um beijo sincero, te abraçar e não desgrudar nunca mais. Quebrar o ciclo de desconfiança e medo é mais complicado do que parece, mas aí eu lembro de como você me abraça com tanta certeza e cuidado. Quer dizer, obviamente, dez minutos depois lá estão suas palavras me fazendo voltar todos os passos avançados, mas e daí? De alguma forma, vale a pena. Por mais que eu sempre volte algumas centenas de passos, a cada olhar doce que a gente se envia, alguns milhares de km são percorridos. Seus medos são tremendamente irritantes, mas a gente precisa mesmo de um freio, porque se depender de mim a efemeridade toma conta e contigo eu não quero que seja assim. Eu me entristeço, te bato, começo uma DR no meio da madrugada sem motivos aparentes, mas é tudo tão real que não tem como não abrir um sorriso enorme vendo que, apesar dos pesares, lá estamos nós no dia seguinte demonstrando que a vontade de continuar se conhecendo é maior do que a de desistir. Aliás, isso é o que você faz. Quando eu me convenço de que peguei pesado demais na pressão e vou ser trocada, esquecida e apagada, lá vem o senhorito me provando que existe gente louca pra tudo. Até pra gostar de ficar comigo, mesmo com todas as minhas neuras, inseguranças e manias apressadas.
Por enquanto, as coisas ruins tem sido menores que as boas e é exatamente isso que deve alimentar nossa vontade de estar com alguém, certo? Eu já passei por tanta coisa, e dentro dessas confusões emocionais aprendi basicamente isso: coisas ruins, todos vão ter. Só que pouquíssimos vão ter compensações. Aliás, de verdade verdadeira, você foi o único que me mostrou que isso era possível. Então, eu te digo como vai ser.

Tomando as rédeas, só porque é algo literário e poético, eu digo que cê vai continuar me fazendo sentir como se fosse a pessoa mais engraçada do mundo, assim como eu vou tentar sempre mostrar como suas esquisitices te fazem o cara mais legal do universo pra mim. Não é pressa, sabe? É só uma constatação. Como amigos, mais que amigos, inimigos, ainda assim vais me roubar um suspiro e um sorriso de canto de boca. Independente do amanhã, tivemos o hoje, e é exatamente por isso que antes de dormir vou lembrar da música que a gente ouviu e da posição que certamente estava incrivelmente desconfortável pra você, mas foi a minha predileta do dia inteiro. De alguma forma, ali, no seu colo e nos seus braços, mesmo com o fato de estarmos apertados o trajeto inteiro, eu me senti no lugar certo. Não pra sempre, mas naquele momento. Sei lá. Sem problematizar, sem explorar mais do que o necessário, sem racionalizar, eu gostei dos milhares de passos dados hoje. Já voltamos algumas centenas pelo medo de ambos, mas não… Por algum motivo, ainda não consigo ter mais receio do que vontade de te conhecer melhor. Se eu pudesse escrever algo realmente bom sobre nós, seria justa. Acho que perdi esse dom em alguma esquina, então dificilmente daqui sairá algo que preste, mas você me faz querer viver sem editar pensamentos antes de falar. Você me deixa ansiosa e calma ao mesmo tempo. Meu medo aparece quando eu penso na gente, mas só vai embora quando estamos juntos. Isso faz sentido? Não faz o mínimo sentido pra mim… Só que, eu fico aqui pensando, será que eu gostaria se fizesse? A gente passa a vida inteira tentando entender autores, ideias, editais, contratos e etc, isso chega a sufocar, porque nos cobra um poder de compreensão um tanto superficial. Contigo, eu vejo milhares de manias e peculiaridades que não seguem um ritmo, uma sequência, mas me sinto segura como se tivesse lido e decorado, sem erros, um contrato de vinte mil páginas. Não tem nada de superficial em você e é por isso que eu gosto tanto de descobrir coisas novas aí dentro. É bobo, mas te considero uma caixa de bombons. Eu sei que vai sair um bombom, mas qual? Eu sei que vai sair algo que eu vou gostar, mas o que? (Obviamente, uma caixa de bombom selecionadíssima, sem essas coisas ruins de coco e caramelo. É, não curto caramelo. Julgue. De novo.)

Enfim, abrindo mão das rédeas como conscientemente ajo, só te peço pra ter fé nisso. A gente não sabe do futuro e isso é inquestionável, mas eu gostaria que você tentasse. Eu tenho esse vício medroso de desistir dos lances, mas prometo ficar se você me pedir.
Eu sei que o tempo anda difícil, e a vida tropeçando, mas se a gente vai juntinho… Boatos de que vai bem.