Iris.

Eu concordo que é difícil você conhecer alguém. Dá trabalho, sabe? Falta tempo, disposição, falta até mesmo fé. Pelo menos aos meus olhos, cada dia que passa é mais complicado crer que existem pessoas interessantes e que valem a pena por aí. Só que, admito, quanto mais eu me conheço, mais eu quero dividir tudo isso com alguém.

Quero dividir minhas dúvidas, meus sonhos, meus devaneios. Quero tagarelar sem parar e morrer de rir, sabendo que, pela primeira vez na vida, não importa o sentido do que eu for inventar; a apreciação do expectador é garantida. Quero deitar minha cabeça no colo de alguém e olhar fundo em seus olhos, numa conversa silenciosa e tranquila. Quero fazer tudo aquilo que, se não fiz antes, foi por falta de confiança, foi por falta de “timing”. Quero ser eu mesma e entrar em todos os clichês possíveis, até o momento em que não existir solução além de viver coisas inexploradas.

Nunca é fácil abrir as portas. Nunca é fácil querer entrar em portas novas. Entretanto, o brilho no olhar de quem já fez isso parece confirmar que é impossível não confiar que essa pode ser uma das melhores sensações do universo.

Sentir-se completo, sentir-se presente. Sentir a liberdade de voar, não mais sozinho, mas com um cúmplice. Ter para si que nada é tão ruim, porque a união faz, de fato, a força. Não ter medo da morte, nem de nada. Sonhar com o futuro e se aconchegar no presente, fazendo do passado um remédio para todas as recaídas e inseguranças. Nada melhor como incentivo para encarar o resto da estrada, do que tudo que já foi ultrapassado, com amor e carinho, com fé e sabedoria.

Então, eu realmente não me sinto disposta para nada que tenha a ver com pessoas. Depois de 19 anos de desilusões, é um saco ficar deixando pessoas entrar, quando há quase a certeza de que logo irão embora. Todavia, o “quase” faz toda a diferença e é nele que se encontra minha força mais secreta, e mais verdadeira. Eu estou mais preguiçosa do que era, menos esperançosa, mais desprendida, mais livre, mas nada disso consegue compensar o que vai acontecer quando “A” pessoa entrar. O tal “the one”.

O chocolate quente que tomaremos no dia mais frio, enquanto assistimos filme por filme, até cair no sono nos braços um do outro. A rotina que vai desde o “regar as plantas” até dobrar as roupas espalhadas quando chegar o fim da semana, sempre sendo preenchida por beijos cada vez mais sinceros, cada vez mais familiares. As noites observando a lua, deitados em uma rede na pousada na beira da praia. Os toques que carregarão cada vez mais memórias, cada vez mais intimidade. Os cuidados, os conselhos diários sobre nossos problemas individuais. As risadas, os passeios, as viagens. As mudanças, os desapegos, mas acima de tudo… O fortalecimento das certezas.

Agora, eu vejo tudo em espelhos obscuros. Lá, vai ser face a face. Lá, vai ser tudo claro, leve e com um gosto inegável de verdadeiro. Lá, vai ser uma tarde com um céu alaranjado, duas cadeiras e um coqueiro.

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