Auto retrato.

Ah, falar sobre ela? Eu posso… Tentar.

Cabelo curto, dois olhos, uma boca e um gosto especial pelo verbo “caminhar”. Sentia-se, quase, uma personagem da Jane Austen, mas não tinha uma mãe esbaforida e muitas irmãs. Por sinal, tinha um carinho especial por sua genitora, que era sua melhor amiga, e uma vontade de nunca sair de perto de sua amiga de sangue, com quem compartilhava de uma compreensão maior do que sua própria vida.
Não conseguia andar pelas ruas de seu bairro sem tentar se equilibrar sobre os canteiros vizinhos e não chamava muita atenção nesse aspecto, era apenas uma menina. Suas amigas, por outro lado, vestiam-se como mulheres e agiam como tal. É interessante ser uma observadora dessas transformações, mas ao mesmo tempo um tremendo desconforto, pois sentia-se atrasada e desigual. Estar no meio da multidão camuflada é dez vezes melhor, já dizia um sábio desconhecido, mas nesse caso ela era a garota que estética e emocionalmente não tinha passado pela metamorfose do amadurecimento. Continuava com os vestidos de cores claras, as tranças, os comentários indevidos e a transparência fluida no olhar. Não sabia conter sentimentos, muito menos frases. Por que, afinal, jogar e falar por enigmas? Nada, aos seus olhos, era mais fascinante do que a verdade. Além de, sinceramente, não gostar de perder tempo. Um frio característico habitava seu estômago cada vez que dentro dessas análises tinha medo de nunca mudar.
Tinha uma feição comum, era magra e cantava na frente do espelho. Era feliz. Mesmo triste, preocupada, ansiosa, ela era feliz. Seu pai a ensinou, dentro dos incansáveis e carinhosos sermãos, o quão importantes eram os sonhos pessoais e, sem nem perceber, ela acabara por pegar o gosto de viver nesse ritmo aéreo. De nuvem em nuvem, suas maiores aspirações estavam estampadas em sua alma. Salvar o mundo, viver um grande amor, conseguir ser mais organizada. Entretanto, nem só de desafios vive uma pessoa, então ela passava boa parte do tempo aproveitando a única parte da vida que fazia sentido aos seus sentidos: os relacionamentos. Seja com sua família, seus amigos, seus romeus… Seus dias eram preenchidos de risadas, dramas, preocupações. Por que seria de outra forma? Não se preocupava com o amanhã mais do que com o hoje e adorava dançar, escondendo sua timidez no silêncio da solidão de seu quarto. Ela era livre. Se a liberdade existisse de fato ou fosse o tal mito mais cruel do mundo, no fundo não importava. Ela tinha algo que se parecia o suficiente e compensava qualquer questão. Nossa personagem era cheia de erros, não se engane. Sarcástica, meio chata, implicante e sincera, pode existir combinação mais insuportável? As pessoas que passaram direto por ela dizem que não, mas os que ficaram… Ah! Esses tem consigo os segredos que fazem sua companhia tão querida. Particularmente, era só a protagonista de uma vida que tinha como objetivo alcançar a famosa paz interior, que seria a cura para aceitar pelo menos seus defeitos mais amenos, como não ter a mínima noção de ritmo.
Em uma última ressalva, gostava de comer batata frita e ficar horas vendo filmes com direito a comentários engraçados, sérios, dramáticos e sinceros. Não gostava de ficar calada, isso era um fato. Entretanto, com o tempo e com as observações, havia aprendido que essa qualidade, ou vinha no DNA, ou teria que ser acoplada a ele durante a vida. Tatuaria, se pudesse, “equilíbrio” em algum lugar de seu corpo, como lembrete e lema de vida. Não acreditava em “voltas”, aquele pensamento de que se não serve hoje, pode servir amanhã. Todavia, nutria uma admiração pelo que demora a acontecer, leva um tempo para ficar pronto, o velho “ficar na geladeira”. Aprendera com a experiência a se desvincular do passado, mas ganhara um apego especial por seu ipod e sua playlist. Ela gostava de outras dimensões, onde somente a sua mente comandava o que era e não era verossímil. Tinha um caderno, especial, e um sorriso verdadeiro, apesar de seu espírito crítico e firme. Queria ter um coração cada vez maior, pois no mundo haviam cada vez mais desabrigados. Era livre, feliz e sonhadora, mas tinha um segredo. Se o coração está onde é a sua casa, ela não tinha a menor ideia de onde morava. Ah! Fã de U2.

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