Depois disso, até me deu vontade de fazer de novo o Enem. Enem que a vaca tussa.

Não somos perfeitos. Vivemos de dias ruins e outros, em que a felicidade – os tais dos suspiros e sorrisos – surge e não cessa. Meu grande defeito é querer ficar leve, livre e solta sempre, desconsiderando, com isso, que sou humana e mereço meus momentos mais difíceis. Mereço ficar de mal com o mundo e não me julgar internamente por isso. Mereço ter um lado feio e não ignorá-lo. Esse século e seus “avanços” fizeram uma baita maldade com a gente, perceba, porque nos acostumamos a pensar que essas cores mais escuras e densas são somente nossas e por isso causam tanta estranheza.

Afinal, o que nós vemos em todas as aparições virtuais de nossos conhecidos? Amarelo, rosa, vermelho, roxo… O verde musgo não aparece nem que a vaca tussa. Até mesmo o catarro da vaca é um lilás bem feliz. A realidade não é essa, meu caro. E me soa até bobeira ter que comentar, mas tanta gente parece realmente não saber que sinto-me confusa. Até quando nos esqueceremos que somos únicos, sim, mas não tanto? Há um grande conjunto interseção, lá estão todas as cores dispostas das mais variadas formas. Existe, sem dúvida, uma cópia até mesmo daquele seu lápis prateado-triangular-maravilhoso-com-borracha-na-ponta.

Sendo assim, vim atestar que não sou perfeita e me lembrar disso. Deixo as roupas jogadas pelo quarto, grito com as pessoas erradas e sinto um mau humor terrível quando fico inquieta. Toco violão mesmo sabendo que o vizinho pode reclamar, não suporto a prisão em que me noto as vezes e sei que sou culpada por todos os pensamentos negativos que minha membrana mental deixa passar. Meu verde musgo me faz imperfeita, mas eu juro que tento melhorar. Juro que tento reservar esses dias para os de estresse mais profundo. Tento sentir-me dessa forma apenas quando é isso ou um buraco ainda mais embaixo.

Sim, porque mesmo sendo da nossa natureza, a vida é tão curta que acaba sendo uma desvantagem deixar o arco íris ficar tão escuro. A claridade te faz enxergar melhor, então, as cores mais suaves te ajudam a ver detalhes que o musgo jamais te permitiria. Queira ver os detalhes. Não tem a mínima graça passar e não perceber os sorrisos, os olhares e as gentilezas. Não tem a mínima graça não ouvir as risadas mais sinceras e os suspiros inesperados.

Faz parte de não ser perfeita o tal do “tentar melhorar”. É impossível chegar lá, mas por que não tentar o seu máximo? A vida é como uma prova do ENEM. Acerte tudo e não tirará mil, mas que beleza é essa de gabaritar, hein? Atesto então, que hoje foi um dia complicado. O musgo ganhou, mas já começo sentir a claridade da nova manhã – junto com um rosa bebê e um amarelo girassol – me mostrando que pelo menos um texto novo eu já fiz. Um detalhe por passo, um passo por vez,  não só dessa vez.

22 vezes você.

A grande impressão que tenho, nesses invernos dentro das minhas madrugadas, é que me falta um componente. Ou, pelo menos, que passei a vida inteira buscando tal coisa que nunca soube identificar.

Apesar dos pesares, faço reflexões em cima de pequenas premissas e vejo os minutos passarem. É mais claro, talvez pelo silêncio, que não preciso de um psicólogo para viver mais calma, mas de momentos assim. Entender-me é tarefa para alguém que queira, já me abstive disso faz tempo. Entretanto, é bom conviver comigo mesma. É reconfortante perceber que posso fazer um drama enorme, achar que me perco em cada esquina que passo todos os dias, mas perceber-me inteira e até mesmo transbordante disso que chamam de essência. Contraditório, eu sei, a possibilidade de estar cheia e ao mesmo tempo sentir uma ausência peculiar.

Nessas horas, entendo a complexidade do ser humano ou até mesmo o sentido de vivermos uma jornada. Se eu estivesse completa, qual seria o sentido de viver mais um ano? O tédio predominaria de forma a tornar-me vazia – corroendo sem cessar – ou até mesmo morta. Entretanto, se estou em busca de um amadurecimento, de uma luz no fim do túnel, tudo se estabiliza de forma mais interessante. Afinal, agora posso pintar que esse sentimento de satisfação pessoal é na verdade estar preparada para a próxima fase. Sim, a essência transborda, mas isso só significa que precisarei de cada milímetro para o nível que me espera. A ausência tem validade. Sinceramente, não me aborrecerei se esse momento for postergado pelo universo, mas antes tarde do que nunca. Afinal, que agonia! Que agonia, mexer em revistas, olhar para o celular, caminhar pela rua, abraçar minha mãe, respirar fundo – e corretamente como ensinam por aí -, lavar as mãos, abrir o notebook, comentar alguma baboseira no twitter e no final de tudo… Cri, cri, cri, ainda sentir um espacinho faltando. Não, não é a tal da falta, não é depressão, não é dor, não é amor não correspondido, é algo mais individual e ao mesmo tempo universal. É viver. É aprender. (Hakuna Matata)

 

Pessoas são tudo.

As pessoas são como confissões. Algumas nós deixamos coladas à nós, como se seu dever fosse ficar guardadas eternamente em nossos peitos e almas. Outras, nós jogamos ao vento. Em um tom sincero, ou as vezes com uma certa indiferença, simplesmente falamos mesmo que não tenha ninguém para ouvir. Abrimos mão, sem nem perceber.

Pessoas são segredos. As  vezes, compartilhados. As vezes, desgastados. A prisão de se sentir ligado a alguém independente do tempo – e das circunstâncias – é exatamente como se sentir culpado por saber – e ter que guardar – algo que todos deveriam saber, e não sabem. Entretanto, nem sempre a vontade é de espalhar. Sinto-me honrada por ser na maior parte do tempo uma boa ouvinte, um baú que de tudo um pouco sabe, e é exatamente assim que descrevo minha amizade com a maioria dos que pertencem à minha vida há anos.

Pessoas são apenas pessoas, mas são muito mais do que isso. Elas são pessoais. Quando entram em suas vidas, trazem alegria e sentimentos novos. Aquele arrepio, as vezes aquele calor que é tão bem vindo no inverno, aquele cheirinho novo de carros e livros. Como é bom conhecer gente nova, exatamente porque nada consegue se comparar com uma novidade em meio à rotina.

Entretanto, como toda tristeza nasce de uma pequena felicidade, quando elas saem podem levar tudo que trouxeram e ainda mais: o que plantaram no tempo que ficaram dentro de ti. De repente, o buraco. O vazio. De repente, a claridade de um quarto vazio e com paredes brancas anteriormente ocupadas com quadros chamados carinhosamente de memórias. Sobra o suspiro, a compreensão de entender que a vida é um ciclo e o ser humano é um ser de mudanças. É um ser agitado. É um ser mortal à esse mundo. 70, 80 anos de alguém na sua vida e pode ter certeza que ele partirá, afinal, nós não somos gaiolas para trancafiar ninguém. Eles voam para outras dimensões, geralmente visitando-nos em fotos e recordações, mas nunca retrocedendo. Eles não voltam atrás em suas idas, ninguém deveria.

Pessoas são como palavras. Ditas, guardadas, lançadas como flechas ou como remédio em feridas impossíveis de serem curadas.

Guardo, como um poema ditado com excelência e encanto, minha inspiração para esse texto. Alguém que tinha sempre um olhar que mais parecia um dicionário, uma enciclopédia, mas que não falava demais nunca. Uma bisa, vó, mãe, uma mulher que saiu de um lugar, foi para outro e no fim acabou por deixar um pouco de si com cada um que tenha cruzado seu caminho.

Eu te amo. Te amei. Sempre vou te amar. Bença, bisa.

Quarta feira, ainda?

Trilha sonora.

Sinceramente, a loucura de ser humano as vezes nos pega de surpresa. Por mais acostumada que eu esteja com idas e vindas de bom humor, esperança e ansiedade, essa semana foi uma completa montanha russa e nós só estamos na quarta feira. Queria dizer que sei o que estou fazendo, ou pelo menos que minha cabeça está em ordem, mas não. Respostas, eu não as terei tão cedo. Entretanto, que tal aprender a lidar com a vida sem controlar tudo e todos? Esse sussurro foi mais forte que um grito. Não posso me comportar como uma criança que não tem o que quer e perder tudo, até mesmo o que já tinha, só porque não recebo um raio de sol esclarecedor. 

Diante de tudo… Resta-me apenas um pensamento que tive durante minha volta para casa:

Pareço boazinha. Pareço alguém que não tem muito mais o que fazer. Entretanto, sinto-me justamente o inverso. Sinto-me alguém que tem o mundo nas costas e que muitas vezes não merece nem mesmo o ar que respira. Eu não sou perfeita, nem almejo ser, então isso pode explicar o motivo de ter me sentido tão sufocada com admirações e expectativas acumuladas durante esse ano. A prisão em que me encontro é mais forte que a última, talvez seja eterna. Sinto-me submersa em uma mesmice que beira o que eu sou, o que vocês são e o que eu quero ser. Onde é que está o sentido, o botão pause ou até mesmo o restart?

E então, voltei à mim e refleti sobre o motorista que estava cantarolando “wish you were here”.

Pernas cansadas, movimentos mecânicos, suor rotineiro. Olhar cansado, porém otimista. Um aceno com a cabeça diz tudo, ele não está ali. Quem sabe o que é dentro de sua própria cabeça? Quem sabe de quem sente falta quando canta a música mais famosa do Pink Floyd? Seria dele mesmo? Seria de sua cama, mil vezes mais macia do que o volante que agora – entre sinais vermelhos – serve de travesseiro? Seria de sua mulher? Sua amante? Ou, ele nem ao mesmo sabe o significado das palavras que balbucia? Um motorista com cabelos brancos, mãos cheias de calos, braços fortes. Só mais um homem sentindo falta de algo. Só mais um algo sentindo falta de um homem. Só mais um homem algo sentindo.

Sobre a esperança.

Indiscutivelmente, eu precisava vir até aqui e me manifestar sobre o tal do hoje. É apenas uma impressão ou temos sido, de fato, sufocados por uma epidemia de falta de fé aparentemente irreversível? Irônico, até mesmo essa frase foi afetada. Nada é irreversível. Nem mesmo aquela palavra com ortografia errada no meio do seu trabalho.

Alguns culpam o consumo, o capitalismo, a ambição, a natureza humana, enquanto outros não buscam culpados e sim formas de espalhar essa doença. Desacreditar, meus caros, é o primeiro passo para sermos dominados. Desacreditar, é o último passo para dentro de nossas covas. Diante desses dois grupos anteriormente citados, fico com o terceiro. Eu prefiro notar que esse caminho vai para um precipício e tentar desviar o trem. Meu pensamento é infantil, bobo, digno de uma criança de cinco anos, mas será que essa não seria a resposta? Sermos esvaziados de tanta podridão adquirida com o passar do tempo e nos permitirmos enxergar o mundo com os olhos de uma criança?

Não, nunca tive a pretensão de afirmar que a solução seria nos despirmos de nossos aprendizados. Entretanto, não seria uma má ideia apoiarmos uma descomplicação, ou uma abertura de possibilidades. Já notaram como crianças sempre tem um plano B? Elas dificilmente tiram algo de suas mentes quando querem, mas inventam milhares de formas de chegarem até ele. A realidade é que hoje só enxergamos aquilo que está na esquina. Não importa a rua, ou a esquina em paralelo, nós temos uma visão tão fixa que chega a dar uma leve dor de cabeça.

Eu não me refiro apenas à confusão estabelecida na política, na economia, no estilo de vida do brasileiro. Realmente, esses pontos são os que me frearam, mas nada como um acontecimento isolado em nossa rotina para bater o martelo. Não quero pregar algo que deverá ser levado como verdade absoluta, mas hoje matamos sonhos alheios sem perceber. Deixamos nossos sentimentos em relação ao mundo afetar os de outros. Isso é justo? Pergunto-me quantos tentaram parar Einstein, Drummond, Caetano, quantos tentaram impedir seus pais de terem chegado onde estão? Me refiro à uma geração antes da sua propositalmente, afinal, saiba que sem ela você não estaria aí.

Não deixe a fé ser taxada de burra ou nula. Não deixe que outras pessoas forrem seus pensamentos, sentimentos, impressões sobre o mundo. Na realidade, apenas reflita, até onde a esperança te levou? Eu me ocupei disso o suficiente para uma das conclusões mais sinceras da minha vida: sem ela, eu não teria feito absolutamente nada desde… 2005. Quando a ficha real caiu, sobre o mundo em que vivemos, foi difícil levar a bola até a área. Foi difícil crer em um gol meu quando aprendi em sala de aula sobre como a hipocrisia no fundo corrói tudo e todos. Entretanto, em pequenos pontos e olhares, eu achei que tudo um dia faria sentido.

Se a dificuldade imposta nos 90 minutos é essa, a de vencer a hipocrisia e a tendência humana de fazer tudo errado, eu entendo completamente. Você não? A grande esperança não pode morrer, pois sem ela não haverá jogo. A bola nem mesmo será apitada. Se caminharmos ainda mais para esse precipício, nossa vida se baseará em trabalhar para trabalhar e fazer outros trabalharem.

Não critico o trabalho, a ambição, mas sim a falta de pensamentos saudáveis. A tal falta de coração. Porque no fundo, quando enxergamos tudo como uma fábrica e não como um jogo, somos sugados e ficamos subnutridos. Esqueléticos, apenas obedecendo e nunca saindo desses mecanismos fatais. Honestamente, hoje enxergo adultos que tem tudo, outros que tem nada e uma semelhança assustadora entre eles: uma alma fraca e esquecida.

Não permitam, de forma alguma, que te deixem olhar apenas para a esquina. Tenham um plano B. Tenham uma visão além do alcance. Tenham esperança.

Isso é um jogo, você pode ganhar. Não é apenas pelos vinte centavos por dia dessa fábrica inventada por nossos próprios fantasmas.