O discurso de Jane.

Eu tive um sonho e gostaria de compartilhá-lo. Sonhei com um enterro, onde uma moça bem velhinha discursava em um altar, acho que em uma igreja… Enfim, ela estava falando e as palavras me marcaram, mesmo em sonho. Dei o nome de Jane, por motivos pessoais. Não sei o que significa sonhar com determinadas coisas, mas sei que eu adoro uma história de amor e não poderia não digitá-la.

Segue o discurso, fofo, que foi pintado em minha mente:

“Nós corremos tanto! De nós, do tempo, da vida. Nós corremos sem freios. E depois de 56 anos, nós nos reencontramos na mesma confeitaria em que nos conhecemos. Seu rosto estava tão compatível com minhas lembranças, seu novo penteado se encaixava com meus novos e assumidos fios brancos. Éramos tão parecidos com um quebra cabeça que até mesmo sua tristeza combinava com a minha. Li teus olhos durante os breves minutos em que nos fitamos, foi a leitura mais difícil que fiz em toda a minha vida. Não pela dificuldade em faze-lo e sim por tudo que pesquei em suas íris. Arrependimento, dor, saudade e amor. Pude, nesse minuto, sentir meu coração bater mais forte e retomar meus 14 anos, nós éramos os melhores amigos mais ligados do universo, e o casal mais bonito do baile.

Naquele dia, você pediu permissão para sentar em minha mesa da mesma forma como pediu para sentar ao meu lado durante as aulas de história. Foi o melhor momento da minha vida até a data vivida. Nós retomamos nossa última conversa, aquela que ficou para o dia seguinte, ali mesmo. De conversa em conversa, no mês seguinte nos casamos. Nossa lua de mel, diferente da convencional, foi a melhor vivida nesse mundo. Nunca esquecerei como Paris nos transportou, como Roma nos conectou e Florença nos tornou sublimes. Eu fui a idosa mais feliz da face da terra, até hoje. Foram cinco anos e seis meses de um amor inacreditável, digno de filmes e livros. Foi a melhor vida que eu sonhei ter um dia. Nós nos apaixonamos há tanto tempo e nosso amor foi algo excepcional. Foram anos de cartas enviadas e não recebidas, ou nem mesmo enviadas. Foram anos de solidão, onde somente a saudade curava. Foram anos que fizeram um completo sentido quando nos vimos naquela tarde. Eu vivi para você, você viveu para mim e como dois românticos incuráveis… Tivemos nosso prêmio. Cinquenta anos em cinco, JK ficaria orgulhoso. A dificuldade de entender porque nós não nos casamos aos 16 faz um completo sentido, visto que eu não me ocupei em contar da parte amarga de nós dois. Teimosos, porém sonhadores, vivemos no singular porque forças externas nos impediram de ficar juntos quando nossa hora estava em cena. Isso não é novidade, na verdade é um clichê forçado, confirmando, infelizmente, o gosto de nossos pais pelo tradicional. Entretanto, também tivemos culpa. Você era um medroso, eu mal tinha certeza sobre meu nome. Não arriscamos. Como consequência, vivemos uma vida inteira solteiros. Suportamos as fases difíceis, de imaginar como seriam nossos filhos, nossa rotina matrimonial, nossos planos se cruzando. Nós até mesmo crescemos em países diferentes! Sua mãe devia mesmo me odiar, afinal ela preferiu te visitar na Suécia do que perto de mim. Entretanto, nosso último encontro na flor da juventude aquece meu coração até mesmo hoje. Talvez essa noite seja o motivo da viagem, mas não sinto nem mesmo uma gota de arrependimento. Poderíamos ter sido mais discretos, inteligentes, mas será? Como eu já disse, fez um completo sentido ter ficado tanto tempo sozinha, mesmo depois de ter perdido seu endereço, para em seguida te reencontrar e entender que nosso amor foi mais forte do que o acaso. Nem mesmo todos as pernas de saias te fizeram me esquecer, assim como todos os engravatados passaram reto em minha casa. Já sinto saudades até de ontem, ríamos coincidentemente sobre a quantidade de carta de admiradoras e admiradores que recebemos ao longo dos 25, 26 anos. Sorrio, sim, ao ter certeza de que se mesmo hoje ninguém teria chance para viver entre nós, imagine naquela época? Onde nossa chama vivia constantemente ardente, mesmo em pensamento. 

Somos esquisitos, meu caro. Somos uma exceção. Você é minha única exceção. Graças a Deus falo tanto que sem dúvidas é a terceira, quarta vez que discurso e cito tudo isso, pois não há dor maior do que palavras engasgadas. E hoje, essas ficariam, pois você já não pode escutá-las. Meus amigos e parentes, muito emocionados pelo que vejo, fazem-me menos sozinha e mereciam ouvir essa declaração por uma primeira e última vez. Agora, sozinha de verdade, saí da bolha e compartilhei nosso amor. Espero que inspire-me. Ou inspire alguém. Apesar dessa saudade arder, sinto que preciso ser sincera ao expressar minha calma sobre onde e como você está. Porque, meu amor, você já provou antes… Seja na terra, no céu ou no mar, você sempre irá me esperar e me amar.”

Se sentia um pouco mais humano, longe de toda aquela humanidade.

Um pouquinho mais longe, um pouquinho mais perto. Um pouco mais como eu sempre quis, um pouco mais como eu descobri que tem que ser. A gente vive de pouco em pouquinho, a gente vive de canto em cantinho. E por incrível que pareça, a gente se esquece da gente nos cantinhos mais inesquecíveis. A gente anda por aí se deixando e recolhendo o que acha, dançando com o vento e esquecendo que ele é só o ar em movimento. A gente se esquece que não é porque entram coisas novas, que as velhas tem que sair. O melhor dançarino não deixou de ser ar. Ele pode carregar folhas, pode te carregar e até mesmo trazer aquela poeira chata que machuca os olhos, mas ele não deixa de ser o velho e bom ar.

E eu tenho sérios problemas com contato, com amizades, com sociabilidade. Tenho dificuldades em deixar algumas pessoas entrarem, mas a regra não vale pra tanta gente… Afinal, olho pro meu jardim e só encontro gente linda que eu nem notei quando sentaram à mesa e decidiram não me abandonar nem por um decreto. Acho até boa, de um certo modo, tal dificuldade. Se quando entram não saem mais, de repente vem desse ponto minha liberdade para viajar durante um tempo e sumir da vista de todos. Sumir da vista da humanidade e me sentir humana em meus próprios cantos, onde por vezes me jogo e fico. Saio de lá outra pessoa, até lembrar que não dá pra ir me esquecendo por aí, afinal, nasci para ser vento e ar. Nasci para arriscar não ser nem um, nem o outro, mas os dois. O mais difícil, sem dúvidas, é pensar que posso destruir casas e ao mesmo tempo levar o refresco para uma senhorinha que trabalhou durante o dia inteiro e que agora repousa em sua varanda quente onde bate o sol quente e tão parecido comigo. O sol que mata, mas o sol que esquenta as regiões mais frias do mundo. Conotativamente, denotativamente, tanto faz. Já me perdi nestes sentidos há uns 5 anos, não pela semântica e sim por não entender porque usamos só um para a vida real. Na minha, uso os dois. Uso o sentido denotativo em uma vida conotativa e vice versa. Nasci pra ser vento que vai para faculdade. Nasci para ser realidade no sonho. As vezes, admito, me pergunto se realmente nasci. Pego-me duvidando da verdade do mundo, deitada em minhas próprias convicções que perdem meu voto de confiança durante vários momentos no dia. Entretanto, vou dormir. Vou dormir e esqueço, descanso, recarrego.Acordo dando bom dia, sim, para meus cachorros invisíveis, para o sol, para as paredes e para minhas velhas e novas convicções. Uma mais intensa e forte que a outra, até o almoço. Isso me soa humano, isso me soa pensar. Isso me soa, acima de tudo, sentir. Eu digo e repito, o ser humano é antes de tudo um ser que sente. Pensar, muito bicho por aí pensa e depois comete atrocidades baseando-se em pensamentos lógicos e impecáveis. Sentir, a minoria sabe o que é. Desses, 50% consegue entender e desafiam-se a querer. Porque pensar todos acham bonito, mas sentir… Sentir é cafona, dá trabalho e definitivamente tira muito mais corpos da zona de conforto do que um pensamento leve e racional. Digo e repito: Sinto, logo sou.

Shake it out!

Sobre ser forte.

Eu sei como é querer fugir de todas as responsabilidades e expectativas alheias, mas nunca achei que isso pudesse ser tão forte como realmente é. Nós, mulheres, temos a triste mania de apelidar tudo de TPM… Só que isso é uma verdadeira ingenuidade. A simples poluição sonora já causa estresse e dificuldade de lidar com situações difíceis, imagina as outras milhões de coisas facilmente acrescentadas? A questão é que temos que parar de achar que as coisas são o que são. Parece TPM? A chance de não ser é enorme. Sim, é difícil catar motivos… Mas, sem isso eu não teria chegado aqui.
Se eu ousasse culpar somente os hormônios por estar chata, estressada e com uma crise enorme para lidar com esse mundo retratado como inseguro e cruel, eu não estaria mais respirando. Teria explodido, juro. É como se você cortasse o fio errado, porque ao invés de buscar uma solução, eu apenas esperaria. O que resolve TPM? Chocolate? Mito no meu caso, já que sou toda ruim do estômago.
Entretanto, parei para pensar e visualizei minha situação no contexto geral. Desenhei mentalmente o que poderia estar me sugando, me tirando todas as forças e deu certo. Entendi que, de todos os problemas, o possível estresse feminino era o menorzinho.
As expectativas alheias, e até mesmo as pessoais, que se colocavam sobre mim há uns dias atrás e que ainda se encontram em meu pescoço, inegavelmente tem um peso significativo no fato de ser difícil lidar com passar um dia inteiro simplesmente sendo leve do jeito que manda o tutorial. Ao contrário, é pesado, eu dificilmente fico em um mesmo ambiente mais de algumas horinhas e minha mente está sempre agitada. Só uma ou duas pessoas tem conseguido me dar paz. Você sabe o que é isso? Falta de paz… Isso geralmente dá aquela agonia que te faz responder feio alguém que você ama e que só cometeu o deslize de falar qualquer coisa enquanto você estava no meio de um raciocínio.
Agora, outro ponto importante. As preocupações que plantamos e colhemos, todos os dias, sem nem perceber. Talvez seja sua mania de ser controladora, talvez seja amor em excesso, talvez seja essa dupla. Eu tenho medo, medo por todos que eu amo, e talvez expresse isso resmungando ou tentando deixar tudo perfeitamente esclarecido com sinceridades que vão além do necessário. Me afasto, ou me mantenho perto até demais, nos dois pontos nota-se um esforço forçado, mas não em um sentido pejorativo e sim me fazendo cair na real. Se tem um esforço anormal, você precisa notar se está incomodando, se está exagerando, se está piorando as coisas. Pois sim, a humanidade se baseia na comunicação. Aliás, do jeito que as coisas estão ruins eu diria que é na falta de comunicação. Então, quando eu explodo com a pessoa errada, caio no choro, sinto meu estômago ficar comprimido, perco noites de sono acordada com insônia, durmo nas aulas porque lá estou longe das possíveis preocupações e dos alvos, isso tudo só mostra como não tem absolutamente nada a ver com hormônios e sim com falta de esperança. Ou também com a síndrome de super herói. Se eu não salvar, se eu não ajudar, se eu não encontrar alguma forma, tudo que já está ruim, vai dar mais errado. Você sabe o que é isso? Bem vindo ao clube.
Eu poderia citar também como os jornais, as revistas e as próprias pessoas costumam desesperar todos retratando o mundo da pior maneira possível. Isso é um saco! Se você faz isso, PARA! Sério, uma mulher sentou do meu lado no médico e só sabia falar “A vida é muito dura, muito difícil. Ah, como eu não gosto de viver”. Ok, você pode até ter motivos, mas se decidiu estacionar nessa mentalidade, NÃO contamine os outros! Não se sinta no poder de espalhar esse vírus, não busque pena, pois você a encontrará e atormentará pessoas como eu. Fiquei dias pensando, inconscientemente, como eu queria ajudar aquela moça ou fazer com que ninguém que eu conheça seja daquele jeito, chegue naquele estado.
Como meu pai fala e repete: a vida é bela. Não adianta, tem muita coisa ruim, tem momentos difíceis, mas a vida é bela. A vida, sozinha, nua e crua, é bela. Sendo realista, quando você entra no jogo a possibilidade de ser feliz é 50%. Entretanto, também tem os outros 50% que só existem porque o ser humano é muito besta. Se você é infeliz, controlador, super preocupado, incapaz de lidar com expectativas, a culpa é toda sua. Você não nasceu assim, se transformou nisso. Porque a falta de fé na felicidade está aí dentro, a ansiedade que justifica muitas coisas está aí dentro, a própria máquina de expectativas também está por aí. Então, ou quebre tudo e se refaça, ou empurre isso para o quarto jamais tocado, lide com isso em um dia mais vago, mas viva. Uma vez que não enxergará mais tanto entulho dentro de ti, encha de coisas melhores, de coisas mais leves. Um ambiente limpo e simples, um ambiente novo. Deixo então, uma das minhas músicas prediletas.

It’s hard to dance with a devil on your back,
So shake him off.
And I am done with my graceless heart,
So tonight I’m gonna cut it out and then restart,
‘Cause I like to keep my issues strong,
It’s always darkest before the dawn.

Shake it out, folks.

Quer prazer? Experimente ficar 5 dias sem fazer xixi e depois faça. OH, MY! Ou, a mesma coisa com escrever.

Tem sido difícil. Por algum motivo, astral ou natural, tem sido difícil. Pergunte-me e te responderei sem uma palavra sequer, eu tenho tentado expressar o que sinto todos os dias de diversas formas diferentes. Acho que me perdi. Como é insuportável essa mania humana de entrar em contato com coisas diferentes e de meio em meio tempo se perguntar quem é e se tudo está absolutamente perfeito. Perfeccionista disfarçada, cometo erros já cometidos e mergulho em abismos desconhecidos porém familiares. É como uma dor de estômago.

Eu sei exatamente o que vai acontecer assim que eu for atendida, mas a dor soa como se fosse nova. Soa como se eu nunca tivesse sentido nada parecido e como se eu fosse morrer. E o remédio que eu já sei nome, telefone e endereço, esse que já conheço, traz um efeito completamente diferente do que eu recordava. É sempre assim. Buscopan e suas viagens doidas, e depois a fome insuportável que vem, mas tudo isso gera um alívio que me faz viver de novo depois de umas cinco, seis horas nesse estado deplorável em alguma cama de hospital. Eu não gosto disso. Do desconhecido, levemente familiar e que começa com um gosto terrível e só depois de horas chega à menta suave.

Entretanto, esse abismo tão abstrato para mim se chama viver. Começa com sentir saudades de ser eu, e de repente uma vontade de mudar, aí vem a certeza de que é impossível e na sequência uma vontade de acreditar. Começa com uma falta de fé na humanidade, seguida de uma necessidade de crer em um futuro melhor, em um sentimento bom existente, em alguma verdade. É fácil ler e estudar filosofia lendo que não existem verdades absolutas, mas e quanto a lidar com isso? Ok, eu posso me espiritualizar e buscar momentos indescritíveis, isso faz parte de crer, mas só quero dizer que a sensação de ter sabedoria é agonizante as vezes. Dizem que o conhecimento aquieta, dá a tal paz racional interior(acredito que existem duas), mas um dos pontos mais lógicos para mim é que na verdade uma etapa dele é assim.

A primeira fase é de conhecer o comecinho, se assustar, mas aí vem a segunda… A sensação de acrescentar algo ao que você já colocou em sua base é magnífica. É ser mais alto em seu show predileto. Eis que você coloca mais e mais, e o susto sempre vem, seguido da sensação de ficar feliz por enxergar melhor. Entretanto, não é algo rápido. Não é algo fugaz. Você demora a se acostumar, você demora a ter tempo e paciência para aprender, você simplesmente demora.

Então, estou demorando. E isso dá uma vontade de bater a cabeça na parede, isso dá vontade de pular de paraquedas, dá saudade de adrenalina e me faz querer correr amanhã. Só que, agora que consegui finalmente escrever algo, me sinto feliz. Finalmente, me sinto feliz. Um pouco receosa, controlando minha mente, mas me sinto feliz.

PS:

 

OMFG, eu consegui! Eu escrevi! Notaram o bloqueio? Eu notei. Putz, como eu notei… AAAAAAAAAAAAAAH. Pera, vou ver se sai mais alguma coisa… HAHAHA tomara. Boa noite =)