Organizando o armário(a vida).

Disseram-me certa vez que arrumar um armário pode ser tão revigorante quanto arrumar sua própria vida. Imediatamente levei esse comentário a sério e o tornei realidade, apenas acrescendo ao final que muitas vezes uma arrumação com trilha sonora musical pode significar de fato o fim de uma era e o começo de outra.

Colocar tudo no lugar separando por categorias é um aprendizado muito forte, pois se você tenta pegar várias blusas de meiga manga de uma vez só, acaba deixando muitas caírem do cabide e se atrapalha toda. Dá uma raiva e a vontade de desistir da organização tão detalhada inunda sua mente. Acontece a mesma coisa quando nós cismamos de cortar laços com os erros de uma vez só, começar uma dieta louca na próxima segunda ou virar a melhor aluna da sala. As roupas vão cair, meu caro! A dieta da segunda vai acabar caindo no aniversário da tua melhor amiga, que vai ser na tua pizzaria predileta e você vai estar inclusa na promoção de comer/beber de graça. Quando você decidir ser a melhor aluna, do nada, pulando todos os degraus, vai acabar ganhando milhares de convites e ingressos vips para as festas que você havia sonhado há tanto tempo. Cortar os teus antigos erros de uma vez, ou ao menos pensar que se está fazendo isso, vai simplesmente ser a maior frustração e o motivo mais forte para desistir e se acomodar na bagunça habitual. 

Bom, outro ponto é tirar o que não te serve mais e não tem o menor motivo para estar ali. Por que diabos você guarda aquela blusa rosa bebê que não te cai bem? Sério, eu me vi rindo de várias camisetinhas que eu não tinha a menor ideia de como eu realmente tive coragem de comprar. Era óbvio que eu só usaria uma vez! Então, por que você ainda cisma de dar as velhas desculpas para si mesma? Num momento de reflexão, notei como eu nunca saio desse buraco em que me enfio após minha vida virar de cabeça pra baixo por pura acomodação. Eu sei como é sentar no sofá, me sentir triste e com insônia, ligar a tv e ver séries até o que nós aprendemos em biologia agir e meu cérebro ir desligando. Isso não é bom, mas é mais confortável do que ir além dessa tristeza confortável, reciclável e constante. Claro, não é isso que eu digo ao meu reflexo no espelho, afinal até mesmo o bom senso diz que isso é ridículo. Viro e falo baixinho muitas vezes que é uma fase e que eu devo me respeitar, afinal, sem estas eu não serei nunca quem o meu futuro aguarda. Além, óbvio, do costumeiro: “só estou dando tempo ao tempo”. Uma coisa é não ficar no ombro do sr. Destino implorando para girar a roda de novo, isso seria errado, mas outra bem parecida é nem entrar na fila. O esperto acaba indo dar uma voltinha pela cantina, checa o climatempo e senta no sofá pensando que ninguém está vendo. Viver vira uma meta a ser alcançada, enquanto… Cá entre nós, meu bom! Você já está vivendo, só que aparentemente escolheu esse jeito. Sim, de pijama, cara amassada e músicas tristes. Há uma coisa importante para ser ressaltada, aliás! O exagero é o que estraga tudo, a rotina nos mesmos sentimentos constantes, tudo que te impeça de sair do lugar. Ou seja, se uma ou duas noites de pijama te fazem ter gasolina pra rodar a BR toda, aproveite! Só não se engane achando que se ficar milhares de noites, permanecerá parado, pois você estará em movimento, só que pra baixo. Imagina, um buraco na estrada, o trabalho que já era enorme para chegar até o destino simplesmente triplicou. Não tem só curvas e horizonte, agora tem que escalar até a luz do sol. Relaxa, já passei por isso e passo quase sempre. Aliás, creio que estou escrevendo e subindo. 

A última vírgula dessa imensidão de lições que eu resolvi relatar é a que eu mais tirei um tempo para sentir. Admito, quase não pensei. Sabe quando você encontra, no fundo do armário, a caixa intocada? Aliás, a mochila de fevereiro que você não toca há meses pelo simples medo de lembrar da lambança que você fez, ignorou e esqueceu para simplesmente seguir? Eu ainda recomendo, se realmente querem saber, que se faça isso. Se não tem como consertar no mês, deixa ali e vai na fé! Um dia, você vai arrumar seu armário e aparentemente saber lidar com tudo de uma forma melhor. 

Eu estava sem respostas quando comecei esse trabalho árduo, mas tinha bolsas e blusas novinhas em folha. Até jeans eu tive paciência de provar para renovar. Eu respirei fundo, milhões de vezes, abrindo a mochila que seria o fim da arrumação e de milhares de coisas. Achei uma coisa que não era minha, um presente apressado, que um dia já tinha me feito sorrir. Agradeci, pela primeira vez em meses, pela oportunidade de ter vivido essa história. Obviamente foi para as quatro paredes que me cercavam(Ou seja, Deus. Ainda não virei Marisa Monte), eu não sou fã de retornos ao passado quando já se está há milhares de anos luz. Tirei tudo e dei uma sacudida lá na varanda. Deixei cair um papel lá embaixo, torci para não ser algo importante, pois a possibilidade de eu ir buscar era mínima. Voltando ao quarto, escolhi um lugar para cada achado e sentei na cama. Já tinha minhas respostas, sem nem mesmo precisar de horas para te-las. O passado ali imortalizado durante um tempo foi capaz de me mostrar como o meu presente não tem base nenhuma, pois se eu deixei tantas abas do computador abertas me negando a fecha-las(pelo simples fato de não conseguir vê-las), como serei capaz de desligá-lo? E com um passado ligado, não há presente. Entenda-me bem, não me refiro ao sentimentalismo e sim ao amadurecimento que eu tinha que ter tido para ter chegado aqui e estar apta a ganhar tudo que venho pedindo. Vidinha subjetiva, com graça e cor, eu realmente devo um abraço ao indivíduo que comentou do armário. Entretanto, quero dedicar esse texto tão simples para minha mãe. Sem as compras, as conversas de hoje, as risadas, eu jamais teria sentado aqui com as ideias tão claras em mente. Além disso, ela que é a doida por organização. Ops! Desculpe, mamãe, eu te amo! E espero que esteja satisfeita com as categorias separadinhas e as bolsas em seus devidos lugares. Obrigada, por tudo. 

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Nunca duvide do poder de cinco sanduíches e um longo silêncio.

Sentar de pernas de chinês, abraçar os joelhos, deitar de cabeça pra baixo no sofá, deitar normalmente ou até mesmo de lado, levantar e dar uma corridinha, ir respirar o ar na sacada, desistir e ir para o quintal. Nada disso deu certo, nunca daria, a inquietação da alma vai muito além de todas as tentativas em vão para tentar esconde-la ou disfarça-la. Nós vivemos por aí esquecendo que não somos apenas carne, mas essa é a burrice mais intensa que qualquer ser humano adota. Circunstancialmente é bom parar de pensar e agir por impulso, mas esquecer de uma das nossas partes mais importantes é a mesma coisa que sair de casa sem o celular: insuportavelmente incomodo.

Em uma determinada hora a alma fala em um tom impossível de ser ignorado e a solução só chega até nós diante de uma auto sinceridade difícil de alcançarmos se já nos encontrarmos atolados de coisas inúteis. É difícil, admita, conseguir não se achar ridículo ao ficar em silêncio esperando a tal da “verdade” te atingir. Porque, de fato, não poderia chamar aquela inquietação tão intensa de algo além de verdade. Ela é aquilo que nós sabemos que temos que lidar, mas afogamos e sufocamos para conseguirmos evitar o tempo que for possível. 

Apesar dos pesares, de toda a sensação infantil ou absurda, comigo não foi diferente. Respirei fundo e deixei-me estar vulnerável. A vontade de ligar a televisão foi máxima quando abri o baú fechado e confessei o quanto me sentia insegura. Sim, a tal da incapacidade de fazer qualquer coisa naquela noite era exatamente o sentimento de “você só tem vivido tudo na sorte e não porque acha que realmente vai conseguir”. 

Que derrota. Entretanto, quem nunca desejou ter um rosto diferente? Talvez uma voz, um talento, um QI maior. A gente se sabota. Eu tenho me sabotado desde o dia em que me senti pouco para o primeiro ser humano que exigiu muito de mim, então eu admito que sempre que consigo fazer algo diferente sinto-me primeiramente surpresa. Rio por dentro, um tanto temerosa, porque é irônico que a frase do Chaves possa ter um significado tão forte na minha vida. Só que ela tem e vive ecoando dentro de mim: “Foi sem querer querendo”. 

Então, por que diabos minha alma precisou me alertar disso agora? Tudo está correndo tão bem com esse acaso, eu podia simplesmente ignorar essa insegurança – mesmo com os puxões que recebo durante o dia-, mas essa parte esquecida de mim parece estar subitamente disposta a enfrentá-la. Se eu pudesse tecer uma citação para ser eternizada, falaria algo em relação a toda coragem que nós temos estar depositada em nossas almas. Não tem como, minha mente só consegue apontar minhas fraquezas e ela é só realista. Não sou nada demais, não canto, nem toco, nem tenho um corpo escultural. Não tenho um sobrenome importante, não sou famosa. Sou só uma adolescente, ruim nas exatas e que por mais que tente é bem mediana. A lógica não está errada em me colocar cheia de fraquezas, esse é o realismo mais certo de todos. Seres humanos são incrivelmente frágeis e sujeitos à comparações onde os quesitos anteriormente citados valem tudo ou nada. Entretanto(ah, como eu amo quando consigo chegar em um entretanto forte e decidido), é por isso mesmo que nós não podemos esquecer que temos uma alma. Nenhuma qualidade física, profissional, curricular, é comparável com o quão abastecidos dela nós somos. Diz-se no dicionário que sinônimo para desumano é um ser sem alma. Pois sim, mesmo você sendo o ateu mais fervoroso, acreditar na sua humanidade é assentir para o fato de que somos cheios de… alma! Sabe a carta que vence qualquer outro grupo de cartas no baralho? Não? Bom, eu acho que já ouvi algo sobre isso e é exatamente isso que eu quero dizer. Se nós nos lembrássemos mais da alma e de como a força que vem dela é incrivelmente suficiente para tudo e mais um pouco, talvez a vida fosse mais fácil. E como se ela pudesse perceber que eu estava prestes a sucumbir em meio as comparações e puxões da insegurança, me fez ficar horas e horas inquieta até notar que eu só estava perdendo o jogo(sem notar) porque eu estava deixando. A opção de jogar com 5 jogadores em campo, ao invés de 11, é toda minha. A opção de esquecer da parte mais importante, talvez por estar tão cega e cheia da rotina, dos estudos, da vida, é minha.

Então, tive a grande oportunidade de fazer cinco sanduíches de bisnaguinha e tomar um café da manhã – almoço escolhendo uma nova forma de jogar. Segurar as rédeas, fazer valer todos os aprendizados, valorizar os conselhos e elogios recebidos. Falar mais de alma, menos de lógica e sentir que vale muito mais ser alguém diferente do que mais uma menina cheia de livros de auto ajuda que se baseiam em aumentar suas qualidades passageiras e visíveis do que suas especifidades eternas e inigualáveis. 

As desvantagens de ser invisível.

Ele estava lá berrando, falando sozinho para chamar a atenção de qualquer ser vivo. Caminhava sem norte, talvez pelas alucinações que tinha desde um tempo atrás. As pessoas andavam, ignoravam e continuavam suas vidas como se nada estivesse ali. É mais fácil viver se aquele homem for invisível. Já não tinha alguns dentes, era alto e fraco… Dá pra imaginar o que havia acontecido. Ele clamava por algo que nem ele mesmo sabia, mas eu sei. Ele só queria atenção. Como uma metonímia, ele representava todos os que passavam e passarão por essa invisibilidade extremamente confortável aos que só enxergam essa vida que não faz o mínimo sentido. Ele gritou tão alto, mas ninguém sequer se preocupou em juntar as sílabas. Ele tentava tocar nas pessoas e numa dessas levou uma bolsada em cheio. O homem chamado de vagabundo caiu ao chão. Chorou, como uma criança grotesca e gigante, mas chorou. Continuava dialogando consigo mesmo, implorando perdão e clemência divina. Em menos de cinco minutos, um guardinha chegou. Os braços estupidamente mais fortes carregaram o coitado que estava sendo ferido pelo concreto quente. Ele foi jogado contra a parede e revistado, calado com um tapa ao tentar falar sem os dentes que lhe seriam úteis. O policial ao constatar que ele estava puro e mal tinha roupas, passou finalmente a vez para o pobre. Com muita dificuldade, ele foi gaguejando… Falando e apontando para o beco. O guardinha, alarmado. Os curiosos que estavam por perto, inclusive a dona da bolsa, estavam aos poucos entendendo que o homem não era o agressor cruel que imaginavam, e sim o intercessor. Eles correram ao beco. Era uma senhora, caída com a mão sobre o peito. Ela mal conseguia respirar. Ela chorava, muda, morria aos poucos.  O homem injustiçado a abraçou, pedindo desculpas. Fez tudo que estava ao seu alcance, mas se culpava por dentro. A plateia estava cheia com uma mistura que ia de vergonha até dor, alguns aos poucos iam embora conforme os aparelhos tecnológicos os traziam de volta à realidade. Os mais arrogantes firmavam o pé dizendo que a culpa era do que estava chorando com a falecida, por não ter se feito claro. Outros, entendiam a responsabilidade que agora era deles. O guardinha tossiu engolindo o choro ao ler o nome na identidade que a moça carregava em uma bolsinha cor de marfim: Esperança.

Sobre a saudade.

A gente não dorme, mal consegue passar um segundo no mesmo plano em que todas as outras pessoas, respira fundo constantemente e precisa se lembrar milhões de vezes que a vida não pode parar. Os olhos estão constantemente úmidos, a fraqueza passa da alma para os dedos, as lembranças ganham cor e voz. Sua imaginação ganha tamanho de tela de cinema, um simples momento sozinha pode se tornar o buraco negro mais longo que você já ousou mergulhar, nada faz sentido durante alguns segundos. Onde está a corda para puxar? Você prefere descer do bonde e enfrentar a queda livre, sem saber o destino, para apenas se livrar dessa sensação tão brutal. A ausência é um absurdo. O ser humano não nasceu para isso, penso constantemente que nos tornamos seres mais evoluídos cada vez que sentimos a saudade e convivemos sem reclamar de minuto em minuto. Como conviver com tal vazio que apesar de não ser absolutamente nada, conta com memórias de quando a vida foi diferente?

Mudanças nos afrontam e tudo que nos resta é restar. Nesses momentos não somos nada além de restos, de fragmentos, de dor. Desculpem-me, mas eu não sei sentir que algo está faltando e sorrir o tempo inteiro. Ele era mais do que um avô, era também o maior exemplo de ser humano que eu podia ter e hoje me encontro sem o dono da letra mais única e do jeito tão incrível de se adaptar a tecnologia. Por mais que eu tente, fraquejo de mês em mês. De aniversário em aniversário. De data em data. A vida segue, como disse o poeta, mas poderiam fazer uma música sobre como a gente não quer que ela siga. Não se for desse jeito errado, torto e cheio de ausências. Se eu pudesse escolher, as coisas seriam diferentes. Entretanto, como não sou dona do destino, opto por aceitar o que tantos me aconselham. Continuo a nadar. Com dor. Com câimbras constantes. Engolindo um pouco dessa água cheia de cloro. Porém, continuo. Continuo a nadar.

Referencial.

A vida passa correndo. Nós passamos correndo uns pelos outros. O ônibus corre pelas ruas e tudo, absolutamente tudo, depende de um bom referencial. O meu tem sido muito mais introspectivo do que eu gostaria, tenho medo de me tornar chata ou sentimental, mas a vontade de ficar mais reservada me mantém sã e salva. É como se eu fosse a mesma, sem tirar nem por, mas ao mesmo tempo estivesse completamente diferente. Como superar um fim e enfrentar um novo começo?
Acho que, acima de tudo, tendo fé. Se algo acabou, este final teve uma razão. Seja uma fase, uma personalidade, um relacionamento, um amor unilateral. Não há nada que possamos fazer, essa sensação virá de vez em sempre. A vida é um ciclo. Lembro de duas ou mais aulas de filosofia, história, literatura que poderiam se encaixar perfeitamente nos créditos por eu me sentir tão forte em todas as convicções que escrevo tão mediocremente. Sou só uma jovem adulta, ou um projeto de ser humano, que sonha e quer muito mais do que o lado objetivo de um momento.
Entretanto, exatamente por isso, escrevo com propriedade quando digo que apesar de não podermos fazer nada, ao identificarmo-nos nessa situação(o querido novo começo e o temido fim) podemos decidir encará-la da melhor forma possível. Ninguém aqui está dizendo que será fácil, adianto que é uma das coisas mais difíceis que eu já fiz. Não fugir quando se sente tão pronta para voar sozinha é um desafio. Só que uma das coisas mais sinceras que eu posso dizer é que cheguei a conclusão que o tal do crescer não é algo tão contraditório assim. A síndrome de Peter Pan vem do sentimentalismo, mas no fundo nós nos sentimos prontos e sedentos por novas experiências. Nós queremos sair do ninho assim como ele próprio já está ficando pequeno para o tamanho dos nossos sonhos e desejos. Mesmo que seja tão querido, quentinho, conhecido, nada é forte o suficiente para o tornar ideal. E de fato, não é para ser. A vida é um ciclo onde nós crescemos e temos a necessidade de procurar outro. O medo vem, mas ele no final das contas dificilmente é maior do que a curiosidade. Pelo menos aos meus olhos, é assustador pensar que eu estou sendo tratada como alguém que pode escolher tudo que vai por no prato no self service, mas é divertido poder traçar meus planos conforme a minha plena vontade. E por mais que reclamemos, basta um corte de liberdade que a revolta aflora. Nós nascemos para ser livres e a partir do momento que estamos prontos para isso, nada é tão forte que vença essa sina. A beleza da liberdade é a luz. Você pode decidir tratá-la feito o sol e voar iluminado por ela, ou ser um daqueles bichinhos irritantes e burros viciados nas lâmpadas. O primeiro é sublime, o outro só te dá dor de cabeça no verão. O primeiro prova da luz e a transforma em algo bom para a sua sobrevivência, o outro passa a sua vida inteira tentando alcançá-la e acaba morrendo no final(quando descobre que ela é falsa e no fundo nunca valeu a pena). Creio que apesar do medo, optei pela única coisa que faz sentido nessa vida.
Bom, como eu disse… Tudo depende de um bom referencial.